Há 20 anos, Débora Silva luta para impedir que violência policial deixe outras mães sem filhos

Há 20 anos, Débora Silva luta para impedir que violência policial deixe outras mães sem filhos

Fundadora do Movimento Independente Mães de Maio aborda legado e luta contínua de familiares das vítimas dos Crimes de Maio de 2006. Confira no primeiro perfil de “Mães na Luta”

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Tempo de leitura: 9 minutos

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Por Viviane Soares. Edição: Thiago Borges. Foto de capa: Foto: João Paulo Brito / Conectas Direitos Humanos

Débora Maria da Silva adora tomar sol.

“Sol é vida. E eu amo a vida”.

Mas, há exatos 20 anos, uma nuvem paira sobre a mulher que hoje tem 67 anos.

“Sou mãe de Edson Rogério Silva dos Santos, um gari executado após uma jornada de trabalho, mesmo de atestado médico”.

Em 15 de maio de 2006, Rogério foi assassinado em uma abordagem policial.

Naquela semana, pelo menos 494 pessoas foram mortas por agentes do Estado nos chamados Crimes de Maio de 2006.

Entenda os Crimes de Maio

Segundo o “Relatório sobre os Crimes de Maio de 2006“, realizado pelo Conselho De Defesa Dos Direitos Da Pessoa Humana (CDDPH) da Secretaria Nacional dos Direitos Humanos de 2010, em 12 de maio de 2006 a organização criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC) realizou diversas rebeliões em presídios do Estado de São Paulo, enquanto nas ruas, postos, viaturas, delegacias de polícia e prédios públicos foram alvos de ataques armados.

Em resposta, agentes de segurança pública promoveram um “revide”, que foi marcado por violência, execuções sumárias, chacinas, centenas de homicídios e diversos desaparecimentos.

Com outras familiares de vítimas, Débora fundou o Movimento Independente Mães de Maio, do qual é coordenadora.

A dona de casa e mãe de família transformou o luto em luta.

Neste mês em que os crimes emblemáticos completam duas décadas, a Periferia em Movimento destaca o enfrentamento de mulheres na série de perfis “Mães na Luta”.

Débora Silva, do Movimento Mães de Maio, em protesto (foto: arquivo pessoal)

Débora Silva, do Movimento Mães de Maio, em protesto (foto: arquivo pessoal)

Vida caiçara

“Aprendi só a criar meus filhos. Eu era meio ‘Amélia’. Era uma mãe muito chata, pegava no pé dos filhos. Era vendedora de lingerie, artesã, fazia crochê”.

Pernambucana de nascença, Débora é ‘caiçara’ de vivência. Aos 3 anos, migrou com a família para São Vicente (SP), na Baixada Santista.

Apesar de se identificar por um tempo como ‘Amélia’, modelo de mulher tradicional, ela se diz feminista desde os 14, quando saiu de casa após uma briga com o pai.

Nesta idade, ela se mudou para a Zona Noroeste de Santos, onde vive até hoje.

“A ZN é o berço do trabalhador empobrecido, que faz a locomotiva de Santos e [que] é dividida pelo morro. Por isso que a gente fala ‘da ponte para cá’. É uma região que tem a maior favela em palafitas da América Latina [o Dique da Vila Gilda], com mais de 5 km de palafitas com barracos dentro da água (…) Eu amo meu povo.”

Foi ali que, aos 17 anos, ela deu à luz a Rogério. Depois, teve Kely e Kátia. Aos 22, fez laqueadura para não engravidar mais.

“Me separei do marido, pai deles, e fui ser [mãe] solo”.

Ela morou por um tempo com a ex-sogra e fez diversos trabalhos, inclusive de faxina, para sustentar a família.

Filho, filhas e netos de Débora (arquivo pessoal)

Filho, filhas e netos de Débora (arquivo pessoal)

O cotidiano também tinha praia, escola de samba, bate-papo com cerveja e almoço com a família, incluindo netos e netas.

“No domingo era frango, macarrão e pudim de Leite Moça”.

Extrovertida e de “gênio forte”, Débora construiu muitas amizades em Santos. No entanto, fora desse círculo próximo, ela tinha dificuldades de se expressar.

“Mas logo tive que aprender a falar”, relata.

As circunstâncias forjaram Débora na comunicação, que hoje inicia as mensagens com o que se tornou sua marca registrada:

‘Rebeldia!’ 

Débora conta com precisão cada detalhe dos dias 14 e 15 de maio de 2006, marcados pelo último dia das mães que passou com Rogério.

Nesses dias, a família sempre comemorava o aniversário de Débora. A tradição não existe mais.

Débora em seu aniversário, com o filho Rogério (arquivo pessoal)

Débora em seu aniversário, com o filho Rogério (arquivo pessoal)

Depois de passar o domingo com Débora, Rogério foi para casa pra trabalhar cedo. Ele havia removido um dente, mas estava com medo de ser demitido se entregasse o atestado médico.

Na segunda, retornou à casa de Débora em busca de remédio para o rosto inchado.

“Eu falava assim para ele: ‘Fica aí, Rogério, dorme aí’. Eu já comecei com o pressentimento. Ele falou: ‘Não, mãe, eu vou para casa’. Eu falei assim: ‘Não saia de casa, Rogério. Se acontecer alguma coisa com você, eu vou atrás até no inferno’”.

Aquele foi o último diálogo entre mãe e filho.

Rogério não conseguiu chegar em casa naquela noite: abordado no caminho, foi morto a tiros aos 29 anos. Na manhã seguinte, Débora recebeu a notícia em um programa de rádio.

Débora entrou em depressão profunda e ficou internada após 40 dias sem comer.

É recorrente o adoecimento de mães e familiares de vítimas de desaparecimento ou execução.

“Parecia que aquele menino nunca tinha cortado o cordão umbilical”.

No leito de hospital, ela ouviu o filho pedir para se levantar e lutar para que outros jovens negros, periféricos e favelados não tivessem o mesmo fim que ele.

De alta, procurou outras mulheres que perderam filhos naquele massacre. Ednalva Santos, Vera Lúcia Gonzaga e Vera de Freitas foram as primeiras aliadas, com quem Débora fundou o Movimento Mães de Maio.

“Eu não me sinto ativista. Eu não me sinto militante. Eu me sinto uma mãe que está cumprindo uma missão dada pelo filho.”

Legado de cura

As Mães de Maio lutam por justiça há duas décadas. E nesse meio tempo, se articularam com outros movimentos no Brasil e no mundo.

São mães e familiares em busca de reparação diante de execuções e desaparecimentos forçados, como as Mães de Acari, Mães Guarani Kaiowá, Mães da Maré, Mães de Vigário Geral, entre outros coletivos.

“Essa é [a evidência] do adoecimento que essas mulheres tinham e têm, que ninguém enxerga. A sociedade faz com que a gente seja invisível, mas nós não somos.”

Para Débora, o principal legado do Movimento Mães de Maio foi a criação da política pública de acolhimento para mães e familiares de vítimas da violência do Estado.

Em Santos, funciona o Centro de Acesso a Direitos e Inclusão Social (CAIS) Mães por Direitos e o Centro de Memória das Vítimas de Violência do Estado (CMVV), ambos com apoio do Ministério dos Direitos Humanos e Cidadania. Outros CMVVs devem ser instalados no Ceará, Bahia, Rio de Janeiro e Minas Gerais.

Esse legado tem como base o abraço, a metodologia da roda e o acolhimento.

“A força que faz a gente sobreviver é uma mãe curando a outra”.

Desde 2016, as Mães de Maio também disputam espaço no meio acadêmico. Atualmente, Débora e outras mulheres participam como pesquisadoras de projetos e pesquisas que envolvem não apenas os Crimes de Maio, mas também temas como saúde mental, direitos humanos, redução de danos, entre outros.

“Ninguém fala de nós sem nós”, pontua.

Em frente

Os inquéritos dos Crimes de Maio foram arquivados, como acontece com a maioria dos casos envolvendo violência do Estado.

Por causa disso, o movimento denunciou o caso para a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) e aguarda o resultado, em busca de reconhecimento das violações.

Para Débora, uma reforma no Judiciário com cotas para pessoas negras seria o início para que a justiça avançasse no Brasil.

Enquanto isso, a luta por memória, justiça e reparação para vítimas da violência de Estado, com acolhimento de familiares, segue guiando Débora e as Mães de Maio.

“O meu maior sonho é que meu país pare de matar menino. Que pare de matar os nossos filhos”.

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