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Os desafios da inteligência artificial e a sobrecarga informacional são assuntos que preocupam jovens das periferias de São Paulo. Já o público idoso das quebradas paulistanas demonstra ser mais cauteloso, recorrendo a redes de confiança pessoal antes de compartilhar conteúdos.
É o que revela a pesquisa “Dos territórios indígenas às periferias: retratos da desinformação e do consumo de notícias para reimaginar a justiça informacional no Brasil”, lançada nesta quarta-feira (13/5) pela Coalizão de Mídias Periféricas, Faveladas, Quilombolas e Indígenas.
A construção do documento marca um momento histórico para a comunicação brasileira ao colocar os próprios territórios como sujeitos produtores de dados e conhecimento.
Realizada com mais de 1,5 mil pessoas em três regiões distintas do País — São Paulo, Recife e Santarém (PA) — a pesquisa preenche uma lacuna crítica no campo da comunicação.
“Decidimos realizar essa pesquisa a partir de uma ausência: sabemos pouco sobre como a informação e a desinformação operam, de fato, nos territórios periféricos”, explica Thais Siqueira, diretora da Coalizão. “A maioria dos estudos trabalha com dados agregados que não capturam o cotidiano. A pesquisa nasce da necessidade de aprofundar esse olhar a partir de dentro”.
Alertas ao jornalismo

Whatsapp (18,5%), Instagram (18,5%) e TV aberta (15,2% são os três meios principais de informação, enquanto sites de notícia são citados como fonte principal por 7,3% – em São Paulo, chega a 11,7%.
Um dos dados mais relevantes da pesquisa revela que a maioria das pessoas entrevistadas nos três territórios não conhece sites de checagem de notícias.
O dado acende um alerta vermelho para o ecossistema jornalístico: as ferramentas atuais de combate à desinformação não estão alcançando as populações mais vulneráveis.
A dificuldade de identificar informação verdadeira (17,4%), a falta de tempo (16,3%) e o excesso de informação (15,4%) são as principais dificuldades para se manter bem informado no dia a dia.
“Isso coloca um desafio direto: não basta produzir checagem. A pesquisa mostra que essas iniciativas não estão chegando a quem mais precisa delas”, analisa Thais.
Para a diretora, o futuro do jornalismo exige uma “recalculação de rota” que privilegie o vínculo e o pertencimento.
“As mídias territoriais fazem parte de redes de confiança porque os jornalistas são moradores. Existe responsabilidade com a informação que circula ali”.
Recortes de gênero, raça e clima
O estudo utilizou a interseccionalidade para entender as nuances do consumo de notícias. Em Recife, observou-se que as mulheres são as principais buscadoras de serviços públicos e educação, reflexo da dupla jornada e do papel de cuidado.
Em Santarém, o interesse por questões climáticas e ambientais é significativamente superior ao de São Paulo, evidenciando como a pauta da justiça climática é urgente nos territórios da região Norte.
A pesquisa “Dos territórios indígenas às periferias” foi realizada em parceria com o Observatório Ibira30 e apoio da Fundação Tide Setubal.
Seu diferencial reside em seu método. Fugindo da lógica tradicional de “público-alvo”, a Coalizão de Mídias recrutou profissionais da pesquisa, comunicação e jornalismo de cada localidade.
Em Recife, artistas de rua e jovens mães receberam treinamento; em Santarém, a coleta superou os desafios tecnológicos sendo realizada integralmente em papel para respeitar a dinâmica local.

“Sempre fomos vistos como ‘os dados’, como o ‘público-alvo’. Sentimos a necessidade de fazer uma pesquisa do nosso jeito, para ter munição e comprovar que a desigualdade impacta diretamente o nosso acesso à verdade. É um grito de que nossos corpos não dão conta de resolver sozinhos o problema da desinformação sem colaboração estrutural”, afirma.
Ferramenta de transformação social
A Coalizão de Mídias entrega este estudo não apenas como um documento acadêmico, mas como uma ferramenta política para filantropias, universidades e pessoas tomadoras de decisão.
“Estamos disponibilizando uma ferramenta de transformação social. É um convite para as instituições chegarem junto e escutar o povo”, diz Yane Mendes.
A Coalizão de Mídias Periférica, Favelada, Quilombola e Indígena foi fundada em maio de 2023, no contexto pós-pandemia.
Reunindo diferentes iniciativas desses territórios, incluindo a Periferia em Movimento, a Coalizão atua em âmbito nacional e internacional, e reúne organizações comprometidas com a democratização do jornalismo e da comunicação, e pela valorização das narrativas oriundas de territórios historicamente marginalizados.
Ela atua em coletividade a partir de três pilares: incidência política de articulação local e nacional, trocas de saberes de tecnologias ancestrais de comunicação e jornalismo, e na produção de conteúdos jornalísticos.


