Depois do estúdio: artistas tentam decifrar algoritmos para fazer música bombar e gerar renda na quebrada

Depois do estúdio: artistas tentam decifrar algoritmos para fazer música bombar e gerar renda na quebrada

Plataformas digitais ampliam acesso ao mesmo tempo em que criam novas demandas, que se somam à falta de estrutura no cenário independente, onde é preciso assumir etapas que vão da criação à divulgação. Confira na primeira reportagem da série 'Trampo é Trampo', neste mês dos trabalhadores.

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Tempo de leitura: 11 minutos

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Por Paula Sant’Ana. Edição: Thiago Borges

Será que alguém vive sem música? Ela está no dia a dia, no trajeto para o trabalho, nas pausas da rotina. Mas, para além de ouvir, existe o corre para lançar um som — e esse caminho que envolve muito mais do que aparece.

Nas periferias, essa trajetória tem várias barreiras digitais e econômicas que vão além da criação artística.

Com o avanço tecnológico e a crescente importância da internet e das mídias sociais, decifrar o funcionamento das plataformas é essencial para chegar ao público prioritário e virar dinheiro no final do mês.

Este é o tema da primeira reportagem desta edição da série Trampo é Trampo, que em 2026 aborda novos e velhos desafios impostos a quem trabalha por conta própria. 

Viralizar ou não?

“O que é impulsionado organicamente (sem ser algo pago) são coisas incentivadas a se consumir que nem sempre são legais. Hoje em dia, você gosta de algo, começa a ver aquilo e aquilo passa a aparecer cada vez mais. Então a internet acaba virando algo viciante e não entrega diversidade”, aponta Tiago Morais, o Tigone, de 35 anos.

O artista, produtor e morador do Parque Residencial Cocaia (no Grajaú, Extremo Sul de São Paulo), está nesse corre há muito tempo. Desde a adolescência, passou a se envolver com batalhas de rap, grupos e eventos.

A partir do contato com estúdios e artistas, Tigone começou a aprender a produção a partir da curiosidade, usando programas gratuitos e pesquisando na internet. Em 2019, ele fez um curso de produção musical. Na pandemia, começou a lançar algumas músicas e, hoje em dia, estuda por meio de livros e cursos on-line.

Tigone (à esquerda) em produção musical no estúdio (foto divulgação)

Tigone (à esquerda) em produção musical no estúdio (foto divulgação)

Entre erros, projetos e atividades paralelas, ele se profissionalizou aos poucos, até começar a vender beats (base instrumental da música, a melodia sem a voz, considerada o “corpo” do som) e a produzir músicas.

“O meu trabalho se divide em vários processos. Digamos que a carreira do artista não é igual a um projeto que tem início, meio e fim, ou à de alguém que trabalha numa empresa e fica anos ali”, conta Tigone, que é artista, produtor, envolvido com projetos sociais e pai de uma menina de 2 anos.

O trabalho na música envolve também ensaios, parcerias, merchandising e outras atividades que viabilizam os momentos de apresentação.

No momento, Tigone assume diferentes funções: pega trabalhos, mixa, vai ao estúdio, grava, participa de projetos e produz podcasts. E tudo dentro de uma dinâmica em que se organiza, agenda compromissos e também encontra espaço para desenvolver o trabalho artístico.

“A gente tem que mostrar o processo, criar conteúdo e lançar a música com qualidade, tentando fazer videoclipe e cuidar da imagem. Estou nesse caminho agora de estudar mais essas outras linguagens e também terceirizar, porque não dá para fazer tudo”, diz ele.

Para ele, viver da música não ficou necessariamente mais fácil com o avanço da internet. Mas destaca a importância de evoluir, se aprimorar e atuar em conjunto para conseguir alcançar espaços.

Como romper as bolhas?

Para o produtor Mack Carmo, de 26 anos, a internet facilitou muito o trabalho com a música.

“Hoje, a internet é uma vitrine: você não depende mais só do contato direto para mostrar seu trabalho. Ainda acho importante trocar ideia pessoalmente, mas a internet permite que seu som chegue a lugares que antes exigiriam muito mais esforço e movimentação”, destaca o morador do Campo Limpo, na Zona Sul de São Paulo, que tem um estúdio doméstico e também trabalha na produtora musical e audiovisual Deck9 Record’s.

Essa ascensão digital fez com que termos como “algoritmo”, “streaming” e “hit” passassem a fazer parte do cotidiano e das conversas sobre música.

Nesse contexto, o papel central está nos algoritmos, que são conjuntos de regras e cálculos que sistemas digitais utilizam para tomar decisões automaticamente. Em plataformas como Spotify e Deezer, por exemplo, ouvintes recebem recomendações baseadas em hábitos e preferências de escuta.

Milla Cristie, que está iniciando trabalho na produção musical (foto divulgação)

Amanda Gomes, consultora cultural, ressalta a importância de criar comunidades (foto divulgação)

“O algoritmo atua como um ‘curador invisível’ que, embora pareça democrático, muitas vezes replica preconceitos estruturais. Existe uma barreira de capital: quem tem dinheiro para impulsionar posts ‘ensina’ o algoritmo a entregar seu conteúdo para o público certo mais rápido”, pontua Amanda Gomes, 35 anos, mestranda em Ciências Sociais pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP).

Na cena independente, isso significa que o trampo não se resume à criação.

Por isso, é necessário pensar também em estratégias de divulgação e engajamento que dialoguem com essas lógicas.

Amanda, que trabalha com consultoria em cultura, destaca que a exigência de presença constante nas plataformas de streaming pode reduzir o tempo dedicado à criação artística.

“Para o artista independente, o algoritmo é uma ferramenta de escala, mas também uma gaiola que exige produção constante, muitas vezes sacrificando o tempo da criação artística em prol do ‘timing’ da plataforma”, diz a moradora da Vila Sônia, na Zona Oeste da capital.

Dados apontam que mais de 100 mil músicas são lançadas por dia no Spotify. Destas, apenas cerca de 2,3% do total de artistas conseguem mais de mil reproduções mensais vindas de algoritmos.

Não existe um dado oficial, mas há um consenso: o algoritmo amplifica quem já performa bem, e o desempenho inicial tende a ser decisivo. Essa lógica, então, tende a acelerar desigualdades que já existem.

Com 751 milhões de pessoas ativas mensais e 290 milhões de assinantes pagantes, o Spotify é hoje a principal plataforma de streaming de música no mundo, mas divide a atenção do público com outros serviços e com o próprio YouTube, o que reforça a lógica de circulação multiplataforma na cena musical.

“O que faz com que ela rompa a bolha é a capacidade do artista de criar uma comunidade, não apenas seguidores, que atua como multiplicadora orgânica antes mesmo de o algoritmo entender o hit [música que faz muito sucesso, viraliza e atinge muita gente]”, pontua Amanda.

Primeiros passos

“Ainda existem barreiras invisíveis. As plataformas de música permitem que qualquer um tenha um perfil de artista e suba suas faixas (…) Mas, ainda assim, personalidades consolidadas são sempre favorecidas pelo algoritmo”.

O diagnóstico acima é de Milla Cristie, de 24 anos, que iniciou sua trajetória na produção musical há dois anos.

Milla Cristie, que está iniciando trabalho na produção musical (foto divulgação)

Milla Cristie, que está iniciando trabalho na produção musical (foto divulgação)

A moradora de Barueri (região metropolitana de São Paulo) está na luta para conquistar seu espaço no cenário e concilia os estudos na área com um emprego fixo como analista de relacionamento e alguns trampos temporários ligados com teatro.

Para ela, uma das principais dificuldades no início foi entender como se profissionalizar na música: “Me pegava pensando que era insustentável uma carreira sem pais músicos ou parentes, amigos ou contatos na área.”

Enquanto segue no regime CLT para pagar as contas, ela estuda produção musical de forma on-line na Academia de Beats, reconhecida pelo Ministério da Educação (MEC).

Ela já participou de clipes de artistas que são seus amigos, atuou como assistente de produção e, assim, começou a ampliar a rede de contatos na área musical.

“É fazer coisa pra caramba, especialmente se a gente for pensar no cenário independente, porque, na maioria das vezes, além de escrever e arranjar, você tem que ir atrás de gravar, pensar em lançamentos e em estratégias para fazer seu som chegar a algum lugar”, pontua Milla, que pretende seguir no gênero rap/trap e também.

Fique de olho!

Para quem quer começar ou se aprofundar na área da música e da cultura, existem diferentes caminhos em São Paulo. Entre as principais portas de entrada estão iniciativas como as Fábricas de Cultura (clique aqui) e as unidades do Sesc (aqui), com cursos e oficinas em diferentes regiões.

Também há editais e programas de fomento que abrem ao longo do ano, como VAI, ProAC e a Política Nacional Aldir Blanc (saiba aqui). Para ficar por dentro, é importante acompanhar os sites da Secretaria de Cultura do Estado e da Prefeitura de São Paulo.

Programas e editais

Apoio à Cultura Negra – Apoio da Prefeitura de São Paulo coletivos e artistas de diversas linguagens. As inscrições costumam ocorrer no primeiro semestre, geralmente entre abril e maio. Informações aqui.

Fomento à Cultura da Periferia – Programa da Prefeitura de São Paulo que financia projetos de coletivos em territórios periféricos, como produção cultural e formação de espaços. As chamadas costumam acontecer ao longo do ano. Informações aqui

ProAC (Programa de Ação Cultural) – Editais estaduais para áreas como música, teatro e artes visuais. As chamadas são distribuídas ao longo do ano, sem período único fixo. Confira aqui.

Território Hip Hop – Programa de formação em MC, DJ, grafite, breaking e produção cultural. O credenciamento costuma ocorrer no segundo semestre, entre setembro e outubro. Veja aqui.

Programa Jovem Monitor Cultural – Formação prática para jovens de 18 a 29 anos em equipamentos culturais da cidade. As inscrições são periódicas ao longo do ano. Saiba aqui.

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