“A gente adoece”: Professoras e professores denunciam condições de trabalho na rede de ensino de SP

“A gente adoece”: Professoras e professores denunciam condições de trabalho na rede de ensino de SP

Em ato pela educação, docentes da rede municipal apontam cortes na área como motivadores de esgotamento mental, defendem apoio para inclusão de estudantes com deficiência e fim da escala 6x1 para melhorar relação entre crianças e familiares

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Tempo de leitura: 10 minutos

Por Leonardo Guimarães (texto e fotos). Edição: Thiago Borges

O sol escaldante que fez na Zona Sul de São Paulo não tirou a disposição de profissionais da educação municipal para protestar na tarde desta quarta-feira (15/4). Balões dos sindicatos, bandeiras e faixas com reivindicações e até mesmo um boneco do prefeito de São Paulo Ricardo Nunes, fantasiado de “Ricardo, o Mão de Tesoura”, ilustraram a frente da Secretaria Municipal da Educação, na Vila Mariana.

Uma dessas faixas estava com a professora Maria Lúcia, da Vila Carrão (Zona Leste). Ela compareceu ao ato para reivindicar melhores condições de trabalho na sala de aula.

“Está muito difícil”, como ela mesma disse, ao se referir aos desafios que as escolas públicas do município de São Paulo vêm enfrentando.

São vários problemas, né? Entre eles, o da própria criança, que não tem o atendimento necessário, não tem o número de profissionais necessários para atendê-la com a qualidade necessária. Isso sobrecarrega cada professor que está na escola. Então, a gente percebe uma sobrecarga emocional, um excesso de exigência por parte do município, que cada vez culpabiliza a gente“, destaca a professora Maria Lúcia.

O adoecimento é um dos motivos para a falta de profissionais.

Segundo um estudo apresentado no INIC (Encontro de Iniciação Científica da Univap), 52% do total de docentes afirmaram sentir frequentemente sintomas de esgotamento; 18,2% já receberam diagnóstico de burnout [esgotamento mental relacionado ao ambiente de trabalho] ou transtornos relacionados, como ansiedade ou depressão.

Além disso, 59,1% disseram que não contam com nenhum tipo de suporte psicológico institucional, revelando uma lacuna significativa nas políticas de cuidado do corpo docente.

É o caso da professora Maria Lúcia, que foi diagnosticada com burnout, mas não teve o adoecimento reconhecido pelo município.

“Embora eu tenha tido um cansaço mental e um processo nervoso que aumentou a minha glicemia, que alterou a minha hipertensão, alterou o meu sono, o município não reconhece isso como uma doença do trabalho. Eu fui readaptada porque estava em um nível que eu não conseguia voltar para a sala de aula, e hoje eu trabalho apoiando minhas colegas na sala de leitura”, diz Maria Lúcia.

Assim como ela, o professor identificado apenas como José também teve a doença.

“Eu fiquei doente, fiquei afastado e nem achava que isso era frescura, é verdade. A gente fica tão exausto que a gente não consegue nem sair de casa e ir para a sala da escola”, diz ele, que dá aulas na região central da cidade.

Educação em colapso?

Uma das acusações de professores e professoras no ato é o colapso na educação da rede municipal. Esse colapso seria o resultado de ataques da Prefeitura de São Paulo na área.

Mas, afinal, há um colapso na educação?

“Numa sala de aula de educação infantil, as colegas estão com 28 crianças. E dessas, pelo menos cinco estão em descontrole emocional: choram, gritam, batem nas nossas colegas e a gente não sabe o que fazer. Então, é difícil a professora ter o mínimo de equilíbrio emocional quando uma criança está diante dela pedindo socorro e ela não consegue atender, não consegue socorrer, porque são cinco crianças pedindo, entende?”, desabafa a professora Maria Lúcia.

Entre as reivindicações de docentes da rede municipal, estão:  a implantação de políticas públicas para a saúde mental de docentes, o atendimento à educação especial, a realização de novos concursos públicos e a convocação dos aprovados no último que aconteceu

A Secretaria Municipal de Educação recebeu representantes dos sindicatos para uma reunião, porém nenhuma das demandas foi aceita. Após a reunião, os sindicatos decidiram pelo avanço da greve, marcando outra paralisação no dia 28 de abril, às 14hrs, dessa vez em frente à Prefeitura de São Paulo.

A professora Luana Alves Soares, de Poá, tem 20 anos de atuação e pesquisa na educação e confirma: sim, há um colapso. Em São Paulo, a categoria vem sofrendo  sucessivos ataques da gestão de Ricardo Nunes (MDB).

A gestão Ricardo Nunes vem se alinhando cada vez mais às decisões, às normativas da rede estadual, posto que ele é um aliado do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos). Os professores reclamam que não está ocorrendo a chamada para os ingressantes  aprovados em concurso, um ataque aos professores readaptados, né?”, diz a Luana Alves Soares, especialista em educação, que é mestra em ensino e história da matemática pela Universidade Federal do ABC e doutoranda na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

A vereadora Luana Alves (PSOL) ressalta que profissionais das escolas, tanto quem está na sala de aula quanto quem compõe o quadro de apoio, têm sofrido com reajustes salariais abaixo da inflação que refletem na perda do poder de compra.

“A gente está tendo também uma tentativa de privatização da gestão. O próprio Ricardo Nunes já falou que quer fazer isso e quer começar com as dez escolas com piores notas no IDEB (Índice de Desenvolvimento Básico). E dentro dessa tentativa de privatizar, ele tentou o afastamento de 26 diretores de escolas que são exemplos de uma educação democrática”, lembra a vereadora.

Fim da escala 6×1

Diante do afastamento de docentes da sala de aula, a qualidade do ensino também é prejudicada.

“Sem ter um ambiente salubre de trabalho por causa das sucessivas mudanças, da diminuição dos direitos, do excesso de demandas e de cobranças, do controle excessivo, tanto sobre aquilo que é ensinado quanto da própria presença, tudo isso vai impactando para que essas aulas percam a qualidade”, observa Luana, especialista em educação.

Boneco satiriza prefeito Ricardo Nunes (foto Leonardo Guimarães)

Para Maria Lúcia, uma das alternativas de políticas públicas que indiretamente podem amenizar o problema é o fim da escala de trabalho 6×1.

“A gente atende crianças que, parte delas, são filhas de trabalhadores que trabalham seis dias da semana, que delegam para as escolas boa parte das necessidades dessas crianças, porque não têm quem faça isso por elas”, aponta.

José, professor da área central, também acredita que a mudança da escala ajudaria no descanso mental de profissionais da educação.

Nós falamos tanto em família, de convívio social, e não querem deixar o trabalhador folgar um dia. Fico pensando naquela mãe que tem um filho e cria esse filho sozinho. A escala 6×1 é uma aberração! Tem que existir uma vida além do trabalho”, completa José.

Mães que também lutam 

O atendimento a estudantes com deficiência é uma das pautas da manifestação.

É também uma demanda da ajudante de cozinha Fernanda dos Santos Silva, 34 anos, mãe de Kauane, de 14.

Com nível 3 de suporte para o Transtorno do Espectro Autista, Kauane estudava em uma escola especializada da APAE para crianças com deficiência intelectual. Mas a situação mudou quando a família veio de Minas Gerais para São Paulo.

“Quando mudei para São Paulo, ela ficou dois anos em uma escola municipal regular no Campo Limpo. E eu tive que mudar ela e a irmã de escola, porque a escola não atendia às necessidades”, explica Fernanda.

Sem assistência adequada nem professor de suporte, que é um direito de estudantes com autismo, Kauane ficava apenas 3 horas na escola.

“Kauane é uma criança inteligente. Se ela tiver o suporte que precisa em sala de aula, ela consegue aprender rápido”, diz a mãe.

De acordo com o Ministério da Educação, as matrículas de estudantes com TEA aumentaram de 636 mil para 918 mil entre 2023 e 2025 – um salto de 44,4%.

A educadora cultural Taila Bezerra, de 32, também apoia a manifestação. A moradora do Itaim Paulista (no Extremo Leste) é mãe solo de Akin.

“É fato que os profissionais da educação, de forma geral, sofrem um desmonte estrutural ocasionado por lideranças políticas que lucram com as desigualdades que são mantidas e visam apenas a manutenção do poder entre os próprios e não têm interesse em efetiva mudança”, diz ela.

O professor José, da região central, acredita que a paralisação provoca uma reflexão:

“A comunidade tem que entender que a forma de parar a escola significa o quê: parar a vida para pensar o que nós queremos para os nossos filhos. Se nós não paramos, como é que nós fazemos? Como é que a sociedade vai saber que algo está errado?”.

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