‘Médicos falam que é frescura’: mulheres periféricas relatam dificuldades para acessar tratamento para menopausa no SUS 

‘Médicos falam que é frescura’: mulheres periféricas relatam dificuldades para acessar tratamento para menopausa no SUS 

Entre longas esperas por consultas e exames e a falta de atenção aos desconfortos do período, mulheres relatam a precariedade da rede pública em São Paulo

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Ondas de calor, irritabilidade, sono ruim…

A lista de desconfortos anunciada pela menopausa é extensa e impacta consideravelmente a vida das mulheres cisgênero (que se identificam com o mesmo gênero atribuído no nascimento), principalmente se o acesso aos tratamentos não for facilitado.

Para as que moram nas periferias e dependem do serviço público de saúde para fazer o acompanhamento ginecológico, a jornada mais parece uma loteria: nem sempre há a sorte de encontrar quem as oriente adequadamente.

Vera Lucia Martins, auxiliar de limpeza e moradora da zona Oeste de São Paulo (divulgação)

Vera Lucia Martins, auxiliar de limpeza e moradora da zona Oeste de São Paulo (divulgação)

A auxiliar de limpeza Vera Lucia Martins, de 56 anos, é uma dessas mulheres.

Moradora do Jardim Guaraú, na zona Oeste de São Paulo, ela sempre fez os exames preventivos na UBS (Unidade Básica de Saúde) do seu bairro. Ainda assim, nunca recebeu orientações sobre os tratamentos disponíveis para amenizar os sintomas da menopausa.

“[A médica] falou que era assim mesmo e só (…) O atendimento é precário. Conseguir uma consulta é um ganho na loteria, após anos consegui só agora. Normalmente passamos com o médico clínico geral, onde pedimos os exames de rotinas, e o papanicolau é feito por enfermeira.” – Vera Lucia Martins.

Já para Cassia Sibele Santos, de 58 anos, a experiência foi diferente.

A moradora do bairro José Bonifácio, na zona Leste de São Paulo, se consulta com a mesma médica há anos na UBS da sua região e diz que sempre foi bem orientada sobre o período da menopausa.

Apesar disso, Cassia Sibele reconhece que o seu caso costuma ser uma exceção entre as mulheres do seu território.

“Às vezes demora um ano pra conseguir consulta com essa médica que eu vou, mas como já sou paciente do posto eu consigo. Minhas amigas que vão em outras UBS’s reclamam de atenção, que os médicos falam que é frescura e que a consulta demora pra sair”, afirma.

Descobrindo a menopausa

Cassia Sibele Santos, da zona Leste de São Paulo (divulgação)

Cassia Sibele Santos, da zona Leste de São Paulo (divulgação)

Não faz muito tempo que a menopausa deixou de ser um tabu e passou a ser assunto abordado em capas de revista. Celebridades como Angélica, 52 anos, e Fernanda Lima, 48 anos, falam abertamente sobre as dificuldades do período.

Mas por muitos anos, assim como a menstruação, o tema permaneceu cercado de segredos e vergonha.

“Eu não sabia o que era menstruação até menstruar, porque nunca foi falado. Hoje, eu e minhas irmãs falamos disso com mais naturalidade. Pra gente, é uma coisa que tem que ser debatida mesmo” – Cassia Sibele.

Graças aos debates de gênero das últimas décadas e ao impulso das redes sociais, hoje é mais fácil acessar informações sobre menopausa, com profissionais da medicina e influenciadoras falando sobre as mudanças que as mulheres cisgênero passam a vivenciar.

LEIA MAIS: A cultura de odiar nossos ciclos na menstruação

Porém, a menopausa pode se apresentar de maneiras diferentes para cada mulher.

Quando ocorre de forma natural, esse processo costuma começar por volta dos 45 anos, com o climatério.

Essa fase é caracterizada por irregularidades nos ciclos menstruais, que passam a ocorrer com menos frequência ou a apresentar episódios hemorrágicos, até cessarem completamente, indicando que os ovários deixaram de liberar óvulos para fertilização.

No entanto, há outras causas que podem induzir o início da menopausa, segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), como procedimentos cirúrgicos que envolvem a remoção de ambos os ovários ou intervenções médicas que causam o encerramento da função ovariana, como radioterapia ou quimioterapia.

Os sintomas 

Depois que o ciclo menstrual é encerrado, as alterações hormonais se encarregam de produzir uma verdadeira montanha-russa no organismo de algumas mulheres.

A OMS destaca que os sintomas podem afetar o bem-estar físico, emocional, mental e social, impactando diretamente as atividades diárias e a qualidade de vida delas.

As ondas de calor, também chamadas de fogacho, são o tipo de desconforto mais conhecido da menopausa, mas está longe de ser o único.

Além da irritação frequente, Vera também teve a vida sexual prejudicada, pois ressecamento vaginal, dor na penetração e diminuição da libido são outros sintomas comuns do período.

Cassia, por outro lado, não sofre com os desconfortos e não teve a rotina alterada por nenhum outro sintoma além do fim da menstruação.

“A minha avó não teve sintoma de menopausa, minhas tias não tiveram e eu não senti nada. Questão genética”, conta Cassia.

O Ministério da Saúde aponta que os principais sintomas incluem: Ondas de calor, com episódios súbitos de sensação de calor no rosto, pescoço e na parte superior do tronco. Vêm acompanhados de vermelhidão no rosto, suores, palpitações no coração, vertigens e cansaço muscular; Dificuldade para esvaziar a bexiga, dor, perda de urina, infecções urinárias e ginecológicas, ressecamento vaginal, dor na penetração e diminuição da libido; Aumento da irritabilidade, instabilidade emocional, choro descontrolado, depressão, distúrbios de ansiedade, melancolia, perda da memória e insônia; Alterações no vigor da pele, dos cabelos e das unhas, que ficam mais finos e quebradiços; Alterações na distribuição da gordura corporal, que passa a se concentrar mais na região abdominal; Perda de massa óssea característica da osteoporose e da osteopenia; Risco aumentado de doenças cardiovasculares.

Tratamentos disponíveis 

A terapia de reposição hormonal é o tratamento mais usado para controlar os desconfortos causados pela menopausa.

Em nota enviada à Periferia em Movimento, a SMS (Secretaria Municipal da Saúde) da Prefeitura de São Paulo informou que a rede municipal conta com uma linha de cuidado voltada à saúde da mulher e o tratamento pode ser feito com estrogênio e progesterona, conforme a necessidade de cada caso e a conduta médica.

No entanto, Vera afirma que, desde que entrou na menopausa por volta dos 48 anos, não chegou a receber nenhum tipo de orientação neste sentido.

“Enfrentei [os sintomas] sozinha. Mas agora estou bem”, conta a auxiliar de limpeza.

Aula de artesanato para mulheres atendidas pelo SASF do Grajaú (foto Pedro Salvador)

Aula de artesanato para mulheres atendidas pelo SASF do Grajaú (foto Pedro Salvador)

Além da reposição, a SMS também diz que há outros medicamentos disponíveis, incluindo o creme vaginal e o DIU hormonal, além das Pics (Práticas Integrativas e Complementares em Saúde), como auriculoterapia, fitoterapia e meditação.

Além disso, o Ministério da Saúde destaca a importância de cultivar hábitos saudáveis para lidar com os sintomas.

Entre esses hábitos, estão manter uma alimentação saudável, rica em cálcio e vitamina D e pobre em gorduras saturadas, evitar o uso de cigarros e consumo de álcool ou cafeína e praticar atividades físicas regularmente.

No dia 28 de março, a SMS realizou em todas as UBSs a 9ª edição do Avança Saúde – Mulher, com a oferta de serviços de prevenção e promoção à saúde para todas as mulheres. Foi neste dia que Vera conseguiu realizar o papanicolau que aguardava desde setembro de 2025.

“Eu estava com a guia, aí marcaram para outubro, depois desmarcaram e fiquei na espera. Depois questionei e falaram que não tinha mais o caderno de espera, que tinham entrado em contato comigo para avisar, mas não recebi ligação. Mas deu certo”, conta Vera, evidenciando a dificuldade para conseguir o exame.

A secretaria também afirmou que algumas unidades realizam periodicamente grupos voltados ao público feminino. A UBS Caju, localizada no Jaguaré (zona Oeste), por exemplo, promove semanalmente o grupo “Papo de Mulheres”, que aborda diversos temas, entre eles o climatério.

A Periferia em Movimento entrou em contato com a Secretaria Municipal de Saúde com o intuito de falar com um especialista que atua no sistema público, mas não teve nenhum retorno ou colaboração por parte da pasta.

Edição: Thiago Borges

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