Acumulação compulsiva: como identificar, ajudar e a quem recorrer em casos que afetam famílias e ambientes

Acumulação compulsiva: como identificar, ajudar e a quem recorrer em casos que afetam famílias e ambientes

Com risco sanitário, cidade de São Paulo tem 1.800 casos em acompanhamento. Transtorno tem causas múltiplas e afeta principalmente pessoas acima dos 60 anos

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Tempo de leitura: 11 minutos

Roupas, eletrônicos, utensílios domésticos… São tantos objetos que não cabem nos armários e passam a ocupar móveis, corredores, todos os cantos da casa.

À Periferia em Movimento, profissionais de saúde relataram casos de pessoas em situação de extrema pobreza no Extremo Sul da cidade de São Paulo que chegaram a acumular fezes e urina em garrafas plásticas. Vulnerável a enchentes, a condição em um dos imóveis piorava em dias de chuva forte.

Popularizado pelo reality show estadunidense “Acumuladores Compulsivos”, o transtorno de acumulação (TA) é um distúrbio mental marcado pela dificuldade persistente de descartar objetos, independentemente do valor real que possuem.

As causas são múltiplas e envolvem diversos fatores, como: ansiedade e insegurança emocional, traumas ou perdas ao longo da vida e isolamento social.

Na capital paulista, cerca de 1.800 casos são acompanhados pela Secretaria Municipal de Saúde (SMS) da Prefeitura.

“A condição de acúmulo não está relacionada a determinantes sociais da saúde. Trata-se de um processo multifatorial complexo de saúde/doença, que pode acometer qualquer pessoa, em diferentes contextos sociais”, diz, em nota, a assessoria da SMS.

O órgão municipal não informou à reportagem da Periferia em Movimento qual é o perfil das pessoas em situação de acúmulo, nem as regiões de maior recorrência.

Mas um levantamento epidemiológico realizado nas subprefeituras da Lapa e Pinheiros (Zona Oeste) revela que 63,25% dos casos ocorrem em pessoas acima de 60 anos, com a maior incidência (28,36%) na faixa entre 70 e 80 anos.

Entre 2022 e 2023, segundo o G1, a Prefeitura de São Paulo retirou cerca de 645 toneladas de resíduos de casas de pessoas acumuladoras.

Casa de pessoa acumuladora em Itapevi, grande São Paulo (foto: Prefeitura de Itapevi)

Casa de pessoa acumuladora em Itapevi, grande São Paulo (foto: Prefeitura de Itapevi)

O que caracteriza o transtorno de acumulação

Apesar da SMS apontar que o acúmulo não está relacionado a determinantes sociais, o médico psiquiatra Luís Castro explica que o aspecto social tende a influenciar na perda do elo com a sociedade.

“A vizinhança pode ser um fator de proteção ou de risco para os acumuladores. Ela pode hostilizar ou denunciar, assim como acolher e cuidar. A tendência do acumulador é se isolar, e o assistente social é o principal protagonista no cuidado dessas pessoas” – Luís Castro, médico psiquiatra do CAPS Adulto III da Vila Matilde, na Zona Leste de São Paulo.

No Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, principal referência utilizada por profissionais de saúde mental para classificar e diagnosticar transtornos mentais, o transtorno de acumulação é incluído na categoria dos transtornos obsessivo-compulsivos (TOC) e relacionados.

“O transtorno de acumulação é considerado um transtorno do espectro obsessivo-compulsivo, pois compartilha características clínicas com outras condições psiquiátricas”, explica Castro.

“Esses quadros se caracterizam pela compulsão de seus comportamentos disfuncionais — no caso do TA, o ato de acumular de forma compulsiva”, continua o psiquiatra.

Anteriormente, o transtorno de acumulação era considerado um subtipo de TOC, mas passou a ser classificado de forma independente. Ainda assim, é comum que os dois transtornos ocorram juntos – e é importante identificar os sinais.

“O comportamento passa a ser disfuncional quando causa isolamento social e prejuízos no funcionamento profissional, interpessoal, familiar, ocupacional e acadêmico. O sofrimento psíquico, contudo, só aflora quando o paciente se sente ameaçado ou quando alguém tenta se desfazer dos objetos” – Luís Castro, doutor em Ciências pelo Departamento de Psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Como diferenciar, então, uma pessoa que trabalha com materiais de reciclagem de alguém que está em situação de acúmulo?

O médico psiquiatra explica:

“O reciclador visa o lucro de seu trabalho. Geralmente prioriza um tipo de material para reciclar. Nada é aleatório. No transtorno de acumulação, os objetos são aleatórios, sem nenhuma relação, e espalhados pela sua moradia, inclusive dentro da casa. Costuma ocorrer o entulhamento, impossibilitando andar dentro de sua residência. Geralmente são objetos sem valor financeiro, mas talvez afetivos”, pontua Castro.

O papel do serviço público

A Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo diz que visa conciliar o cuidado em saúde mental, o direito à moradia e as intervenções sanitárias.

“A política municipal prioriza o cuidado integral e a dignidade humana, oferecendo uma abordagem intersetorial que evita a estigmatização e garante os direitos dos cidadãos”, pontua a SMS, em nota enviada à Periferia em Movimento.

Em 2016, a Coordenadoria de Vigilância em Saúde (Covisa) da Secretaria Municipal de Saúde paulistana instituiu a Política Municipal de Atenção Integral às Pessoas em Situação de Acumulação (Decreto nº 57.570/2016).

Essa política criou o Comitê Intersecretarial e os Comitês Regionais de Atenção Integral às Pessoas em Situação de Acumulação (Crasa) nas Subprefeituras para atuação intersetorial.

A política tem alcance ampliado, não se restringe ao transtorno de acumulação e prevê atuação mesmo sem diagnóstico clínico formal.

“Abrange toda e qualquer situação de acúmulo que represente risco à saúde individual ou coletiva, independentemente de diagnóstico clínico formal, priorizando a redução de danos e a mitigação de riscos sanitários, ambientais e sociais”, informa a SMS.

O risco sanitário é constatado quando há proliferação de pragas, contaminação microbiológica e presença de materiais perigosos.

O acúmulo de lixo, alimentos e objetos atrai insetos e roedores, enquanto poeira, mofo e bolor podem causar problemas respiratórios e infecções.

Alimentos mal armazenados e superfícies contaminadas aumentam o risco de doenças. Produtos químicos vencidos ou mal guardados também representam perigo.

Ação de limpeza em imóvel em Samambaia, cidade satélite de Brasília (Foto: Governo do Distrito Federal)

Ação de limpeza em imóvel em Samambaia, cidade satélite de Brasília (Foto: Governo do Distrito Federal)

Como é feito o atendimento

A Rede de Atenção Psicossocial (Raps) organiza e direciona o cuidado em saúde mental de acordo com as necessidades de cada caso.

Essa rede com diferentes pontos de atendimento, como as Unidades Básicas de Saúde (UBSs), os Centros de Atenção Psicossocial (Caps) e serviços de urgência e emergência.

O cuidado pode ser realizado na UBS, com apoio em saúde mental, quando necessário. Nesses casos, o Caps pode contribuir na avaliação, no acompanhamento e na articulação intersetorial, com condução por meio do Projeto Terapêutico Singular (PTS).

Clique nas abas a seguir para mais informações:

Os primeiros sinais geralmente aparecem de forma gradual.

Entre os comportamentos mais comuns estão:

– Dificuldade extrema de jogar fora objetos, mesmo sem utilidade

– Medo constante de precisar de algo no futuro

– Aquisição excessiva de itens, seja por compras, coleta ou doações

– Desorganização intensa dentro da casa

– Sofrimento quando alguém tenta organizar ou descartar objetos

– Vergonha ou isolamento por causa da situação do imóvel

Com o avanço do transtorno, os objetos passam a tomar conta dos cômodos da casa, impedindo o uso normal dos ambientes.

Na rede de saúde:

– Unidade Básica de Saúde (UBS) do bairro.

– Centro de Atenção Psicossocial (CAPS).

Na rede de assistência social:

– Centros de Referência de Assistência Social (CRAS).

– Centros de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS).

Em situações de risco sanitário:

– Vigilância sanitária do município.

– Canais de atendimento ou ouvidoria da prefeitura.

Para registrar uma solicitação, você pode entrar em contato com a Central de Atendimento da Prefeitura de São Paulo pelo número 156 (ou 0800 011 0156, se estiver fora do município e o serviço solicitado for em São Paulo).

Também é possível acionar a Ouvidoria do SUS pelo WhatsApp: +55 800 275 0620.

Após o contato, o procedimento geralmente inclui:

– Registro do caso.

– Avaliação da equipe de saúde.

– Visita domiciliar.

– Elaboração de um plano de cuidado com acompanhamento contínuo.

Situações de acúmulo podem ser comunicadas à UBS ou ao SP156.

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