“Quando tudo fica difícil, precisamos resistir”: o papel das casas de acolhida para mulheres trans

“Quando tudo fica difícil, precisamos resistir”: o papel das casas de acolhida para mulheres trans

Espaços atendem população trans em situação de vulnerabilidade com ajuda da sociedade civil, apoio limitado do poder público e dificuldades para manter portas abertas

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Tempo de leitura: 10 minutos

Por Raquel Athaide. Edição: Thiago Borges.

“Não desistir”. Essas são as duas palavras que guiam Isabelly Silva Santos e Nathalia Flor Costa, acolhidas pela Casa Florescer, localizada no Bom Retiro, Centro de São Paulo.

Ambas se valem da resiliência e da luta para seguir em frente – características que fazem parte da vida de muitas mulheres trans no Brasil, que enfrentam a violência e lutam por cidadania e dignidade.

Segundo dossiê da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA) 2025, o Brasil segue entre os países que mais matam pessoas trans no mundo. O levantamento também aponta que grande parte da comunidade é empurrada para o trabalho sexual devido à exclusão do mercado formal, à evasão escolar e à discriminação estrutural.

Nesse cenário, espaços como a Casa Florescer e outras iniciativas independentes de apoio à comunidade LGBTQIAPN+ são essenciais para a proteção e garantia de direitos, pois a vulnerabilidade não começa na rua. Começa na exclusão.

Detalhe na Casa Florescer, região central de São Paulo (foto: Raquel Athaide)

Detalhe na Casa Florescer, região central de São Paulo (foto: Raquel Athaide)

Ruptura

“Eu me descobri trans com 9 anos e me assumi para a sociedade com 11. Moro sozinha desde os 10 e passei infância e adolescência em abrigos até a maioridade. Fui abandonada” – Isabelly Silva Santos, 22 anos, trancista.

Nascida no Rio de Janeiro e sem rede familiar, em 2021 Isabelly chegou ao Bom Retiro e passou pela Casa Florescer pela primeira vez. Depois de alguns meses, voltou à cidade natal em busca de oportunidades. Em 2026, ao retornar para São Paulo, ela se viu em situação de rua.

Foram 22 dias tentando conseguir uma vaga no abrigo e, nesse período, Isabelly foi vítima de violência patrimonial. “Enquanto aguardava minha vaga na Casa Florescer, eu estava na rua e passava por dificuldades psicológicas. Roubaram minhas coisas: documento, o pouco dinheiro que eu tinha e minhas roupas”, diz Isabelly.

Mulher trans e negra, ela lida com os olhares de desconfiança e uma trajetória marcada por dificuldades. E a Casa Florescer desempenha um papel de romper esse ciclo.

“A casa é maravilhosa, um lugar de oportunidades para quem quer mudar de vida. Quero agarrar todas as oportunidades”, conta.

Precisamos de mais

Na Casa Florescer, a história de Isabelly se encontra com a de Nathalia, de 38 anos.

Natural de Divinópolis (MG), recentemente Nathalia enfrentou o fim do casamento e a morte da mãe, o que abalou sua estabilidade financeira e emocional. Para preservar a saúde mental, preferiu se afastar da família.

Ela chegou à Casa Florescer I na última semana de fevereiro, depois de passar por diferentes casas de acolhida.

Conseguir a vaga foi como um “freio de emergência” em um momento de vulnerabilidade. Ainda assim, ela destaca a necessidade de políticas públicas específicas para pessoas trans, especialmente após os 30 anos.

“A sigla LGBTQIAPN+ é muito extensa. Precisam existir leis voltadas para pessoas da letra ‘T’. Cada letra tem necessidades diferentes, mas todas buscam uma coisa em comum: não serem invisíveis” – Nathalia Flor Costa.

O que une Isabelly e Nathalia é o uso da rede de proteção social. O abrigo não é apenas um ponto de partida, mas uma alternativa após a marginalização social.

Apoio fundamental

A Casa Florescer possui estrutura com dormitórios, espaço para pessoas com deficiência, áreas de convivência e atendimento, funcionando sem tempo fixo de permanência e com acompanhamento focado no desenvolvimento pessoal.

A organização conta com apoio do poder público por meio da Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social (SMADS), da Prefeitura de São Paulo, além da colaboração de instituições e pessoas físicas que fortalecem as ações.

“Embora muitas pessoas procurem a Casa apenas em datas específicas relacionadas à comunidade trans, toda ajuda é bem-vinda”, ressalta Alberto Silva, o Beto, gestor da Casa Florescer 1.

Uma dessas iniciativas é o projeto independente Brilho das Manas e dos Manos, criado pelo Instituto Human em 2021, que atua de forma complementar para promover dignidade para a comunidade LGBTQIAPN+.

“O projeto nasceu da percepção de que apenas doações não eram suficientes. Era preciso criar conexões e oferecer apoio estrutural à população trans”, explica Jennifer Dias, coordenadora do projeto e do Instituto Human.

A iniciativa se baseia em dois pilares: educação e empregabilidade, com oficinas e busca por vagas afirmativas, buscando retirar pessoas trans da vulnerabilidade e do subemprego.

O projeto começou com três ações por ano e deve chegar a 15 em 2026. Com o tempo, a equipe percebeu que escuta e acompanhamento geram impacto positivo, fazendo com que alguns assistidos retornem como voluntários.

Para os voluntários Emilie Mello e Pedro Valentim, a iniciativa também é uma forma de exercer cidadania e criar vínculos com as acolhidas. “A receptividade delas é sempre leve. Aqui não há hierarquia nem caridade, a relação é entre amigos”, compartilham.

No entanto, o Brilho das Manas e dos Manos enfrenta desafios como a rotatividade nas casas de acolhida, reflexo das dificuldades estruturais enfrentadas pela população atendida.

“Apesar disso, nosso objetivo segue firme, e esse problema estrutural reforça nosso compromisso de continuar”, salienta a coordenadora do projeto.

O desafio para manter portas abertas

Outras iniciativas também atuam no acolhimento da população LGBTQIAPN+ na capital paulista.

A Casa Chama, na Bela Vista (região central de São Paulo), oferece suporte social e psicológico. Já o Casarão Brasil, na Vila Emir (Zona Sul), desenvolve ações de formação e empregabilidade.

Em comum, os espaços enfrentam desafios de financiamento e dependem do apoio da sociedade civil.

Manter as portas abertas de uma casa de acolhida exige mais do que estrutura física.  Envolve recursos, articulação política e uma rede ativa para garantir continuidade e cuidado.

A Casa 1, que no final de 2025 anunciou que fecharia as portas, evidenciou a fragilidade de uma estrutura que depende de financiamento contínuo.

Segundo Iran Giusti, diretor institucional da Casa 1, o anúncio público foi difícil, mas também revelador. Diversas pessoas se mobilizaram em apoio ao projeto, demonstrando a força da rede construída ao longo dos anos.

“Foi um período intenso, mas importante para perceber a mobilização da comunidade. Hoje vemos as pessoas felizes e animadas com a continuidade”, pontua Iran.

Casa 1 quase fechou as portas (foto Divulgação)

Casa 1 quase fechou as portas (foto Divulgação)

Resistir para existir

Na Casa Florescer, os principais desafios incluem suporte à saúde mental, como encaminhar questões como uso abusivo de drogas e qualificação profissional das acolhidas, que são etapas essenciais para romper o ciclo de vulnerabilidade.

Mas o sistema público de abrigamento opera com pouca autonomia e acompanhamento limitado, especialmente nas áreas de saúde mental e clínica. Em muitos serviços, a rotina é organizada por horários rígidos para entrada e saída, o que restringe a autonomia e a continuidade do acompanhamento em outras áreas da vida.

Entre desafios estruturais e respostas coletivas, Casas de acolhida e projetos LGBTQIAPN+ seguem buscando caminhos para avançar.

Em São Paulo, as casas de acolhida integram a rede da SMADS, voltada a pessoas trans e travestis em situação de vulnerabilidade e operada em parceria com organizações da sociedade civil.

Em nota enviada à reportagem da Periferia em Movimento, a Secretaria informou que o acesso ocorre por encaminhamento de serviços de assistência social como CRAS, CREAS e Centros POP.

São 350 vagas em seis serviços de acolhida. As unidades estão concentradas principalmente na região central da cidade e, no momento, não há previsão de ampliação de vagas ou criação de novos programas.

Nesse contexto, histórias das acolhidas, relatos de pessoas voluntárias e que gerenciam os espaços que apoio pontual não é suficiente. Iniciativas da sociedade civil e políticas públicas precisam atuar de forma complementar para ampliar a proteção.

Para Isabelly Silva e Nathalia Flor, o acolhimento representa a possibilidade de recomeço.

“O acolhimento é muito importante, pois quando tudo se torna difícil para a gente, nós temos que mostrar que é preciso resistir para existir”, finaliza Isabelly Silva.

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