Texto e fotos por Adriana Novaes
“Muitas mulheres continuam em situação de violência porque não têm para onde ir”.
A frase acima é da educadora popular Luana Oliveira, integrante do Fórum em Defesa Mulher. No último sábado (7/3), ela e outras mulheres organizaram a terceira Marcha Por Todas Nós, que reuniu moradoras de bairros periféricos em uma caminhada do Parque Santo Dias até o Metrô Capão Redondo, na Zona Sul de São Paulo.
Em meio ao aumento dos casos de violência de gênero no Estado de São Paulo, as manifestantes marcharam pela vida das mulheres e contra a lesbitransfobia, com o objetivo tornar visíveis histórias que muitas vezes permanecem silenciadas dentro das casas e dos bairros.
Para Luana, a marcha surge quando as políticas públicas não são suficientes. Uma das principais reivindicações das mulheres que vivem nesses territórios é a ampliação da rede de proteção.
“Precisamos de mais serviços funcionando de verdade nos bairros, delegacias da mulher que atendam 24 horas e mais casas de acolhimento”, defende.
Ela também destaca que a violência contra mulheres não pode ser enfrentada apenas com medidas punitivistas, mas com políticas de prevenção e fortalecimento da rede de atendimento.
“A gente precisa de uma rede articulada, com assistência social, saúde e segurança pública funcionando juntas, porque muitas mulheres passam por esses serviços e ainda assim continuam invisíveis”, continua Luana.
- Luana de Oliveira, educadora popular (foto: Adriana Novaes)
- Victoria Santana, advogada
A advogada Victoria Santana, que atua no Centro de Referência de Cidadania da Mulher no Capão Redondo, explica que um dos obstáculos enfrentados por muitas vítimas é o medo de buscar ajuda dentro do próprio território.
“Muitas mulheres deixam de procurar os serviços porque acreditam que vão ficar expostas. Às vezes nem na unidade de saúde elas querem ir, porque encontram pessoas conhecidas e têm medo que a situação se torne pública”, diz Victoria.
Para ela, o fortalecimento da rede de atendimento e a informação sobre direitos são fundamentais para que mais mulheres consigam romper ciclos de violência.
Esperança ou ceticismo?
A concentração começou às 8h, no Parque Santo Dias.
Aos poucos, mulheres de diferentes idades foram chegando. Algumas estavam acompanhadas de crianças, outras com amigas, militantes antigas da região e também pessoas que decidiram participar pela primeira vez. Cartazes pediam o fim da violência, lembravam vítimas de feminicídio e denunciavam a lesbitransfobia.
Nesta edição, a marcha homenageou duas mulheres que marcaram a história da organização popular na zona sul: Neide Abati, fundadora da União Popular de Mulheres, e Rita de Cássia Machado, cofundadora da Associação Santa Cecília.
- Moradora acompanha marcha de apartamento (foto: Adriana Novaes)
- Mulher e criança participam de ato (foto: Adriana Novaes)
- Marcha toma ruas da Zona Sul de São Paulo (foto: Adriana Novaes)
Durante a caminhada, o grupo ocupou as ruas do bairro com cantos, conversas e palavras de ordem. Quem passava, parava para observar. De portas, janelas e calçadas, pessoas acompanhavam a marcha e algumas pessoas acenavam e davam tchau para o grupo.
Entre as mulheres que assistiam ao ato, havia reações diferentes. Algumas vibravam e diziam esperar que aquela mobilização ajudasse a pressionar por mudanças. Outras demonstravam desconfiança e afirmavam não acreditar que o poder público fará algo para transformar essa realidade.
“A marcha não é só para denunciar. Também é uma celebração de estarmos juntas, lutando em coletividade”, ressalta Reyna Destro Nogueira, integrante do Fórum em Defesa da Mulher e conselheira municipal LGBT.
Ela destaca que a mobilização também é um espaço de denúncia das violências que atingem mulheres trans e lésbicas. “A marcha também é um recado para os homens pararem de nos matar”, afirma.
Reyna chama atenção para o modo como a violência contra mulheres e pessoas trans muitas vezes começa antes mesmo das agressões físicas.
“As violências começam com a sexualização dos nossos corpos e, depois que eles nos usam, muitas vezes nos matam.” – Reyna Destro
Na visão dela, enfrentar esse cenário também exige participação política.
“A gente precisa eleger pessoas que realmente nos representem e olhar com atenção para os projetos que estão sendo defendidos”, completa Reyna.
Superação da violência
Entre as mulheres que caminharam na marcha estavam também aquelas que carregam experiências diretas de violência doméstica.
Uma delas contou que viveu anos em um relacionamento marcado por agressões físicas, psicológicas e financeiras. Durante muito tempo, ela não contou a ninguém o que acontecia.
“Eu apanhava calada, era abusada calada. A vergonha do que as pessoas poderiam dizer me silenciava”, lembra a pessoa, que não será identificada.
A mudança começou quando passou a frequentar um centro de convivência voltado para mulheres. Foi ali que encontrou acolhimento, acompanhamento psicológico e apoio para reconstruir a própria autonomia.
Com ajuda da psicóloga para montar um currículo, conseguiu um trabalho como cuidadora de pessoas idosas e começou a reorganizar a vida. Hoje, falar sobre a própria história se tornou uma forma de incentivar outras mulheres a buscar ajuda.
- Participante em marcha por direitos das mulheres no Capão Redondo Reyna Destro, conselheira municipal LGBT (foto: Adriana Novaes)
- Participante em marcha por direitos das mulheres no Capão Redondo Reyna Destro, conselheira municipal LGBT (foto: Adriana Novaes)
- Participante em marcha por direitos das mulheres no Capão Redondo Reyna Destro, conselheira municipal LGBT (foto: Adriana Novaes)
Homens aliados
Embora a marcha tenha sido organizada por e para mulheres, alguns homens também participaram do ato. O assistente social Alan Henrique de Oliveira acredita que o papel masculino nesse debate passa principalmente pela escuta.
“Mesmo que o protagonismo seja das mulheres, os homens precisam aprender a ouvir e rever o lugar que ocupam”, diz Alan. Para ele, enfrentar a violência contra mulheres exige também questionar ideias antigas sobre masculinidade.
“A gente foi educado para acreditar que o homem precisa ser forte, não pode chorar, tem que dominar. Isso precisa mudar.”
Um problema que atravessa as cidades
As falas das participantes encontram eco em dados recentes sobre violência de gênero. Pesquisa do Instituto Cidades Sustentáveis em parceria com a Ipsos-Ipec mostra que sete em cada 10 mulheres já sofreram algum tipo de assédio em capitais brasileiras.
De acordo com o levantamento, ruas e espaços públicos são os locais onde esse tipo de violência ocorre com maior frequência, seguidos pelo transporte público e pelo ambiente de trabalho.
Para muitas das mulheres que participaram da marcha, números como esses apenas confirmam algo que já faz parte da rotina de quem vive nas cidades.
Caminhar juntas
Depois de percorrer as ruas até o Metrô Capão Redondo, a programação seguiu com um momento de convivência no Centro de Direitos Humanos e Educação Popular – CDHEP Campo Limpo, onde as participantes se reuniram para uma roda de samba e feijoada.
Entre conversas, abraços e histórias compartilhadas, o sentimento era de que ocupar as ruas continua sendo uma forma de resistência.
Mais do que um ato isolado, a marcha se consolida como espaço em que mulheres periféricas reafirmam que suas vidas importam e que seguirão caminhando juntas para que a violência deixe de fazer parte do cotidiano.
Edição: Thiago Borges












