Por Viviane Lima (texto e fotos). Edição: Thiago Borges
Delegacias, geralmente, não são ambientes pensados para receber crianças.
“A criança fica no balcão com a mãe escutando o relato de violência, que na maioria das vezes foi cometida pelo pai. E o outro cenário é quando a mãe traz a criança porque a própria foi vítima de um crime”, relata a delegada Monique Lima, responsável titular da 6ª Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) de Santo Amaro, na Zona Sul de São Paulo.
A unidade atende mulheres, crianças e adolescentes vítimas de violência. Mais de 60% das mulheres que chegam ao local estão acompanhadas de suas crianças.
Diante das necessidades de quem busca ajuda no espaço, a 6ª DDM de Santo Amaro criou uma sala de acolhimento com brinquedos e livros, voltada especialmente às crianças que chegam à delegacia. A brinquedoteca fica totalmente separada dos demais setores da unidade.
“Nós criamos esse ambiente para isolar a criança do peso da delegacia, do peso das ocorrências”, comenta Monique.
Acolhimento
Denise Batista, de 39 anos , foi uma das mulheres que chegou até à 6ª DDM na companhia do filho para registrar um boletim de ocorrência (BO).
Em fevereiro de 2025, ela procurou a delegacia após ser espancada e levou o filho, que presenciou a agressão, por não ter com quem deixá-lo.
“Eu estava com o meu filho, e a Ivone [assistente social] acolheu ele dentro da salinha. Até hoje, ele tem a ‘guitarrinha’ que ela deu. Enquanto eu conversava, [meu filho] não ficou por perto, ele ficou na sala [de brinquedos]. Isso foi muito importante”, conta Denise.
As crianças que frequentam a brinquedoteca da delegacia podem escolher um brinquedo ou livro para levar para casa. Por isso, há uma arrecadação de doações contínua para reposição.
“Muitas dessas crianças não têm brinquedos em casa. Ou ainda que tenha, se ela pode levar um brinquedinho daquela sala, ela ressignifica a vinda dela à delegacia”, complementa a delegada Monique.
O espaço também conta com o “Varal do bem”, com roupas de doações para crianças e adultos que chegam ao local.
- Brinquedoteca da Delegacia da Mulher é espaço seguro para crianças que acompanham mulheres em atendimento na Delegacia da Mulher de Santo Amaro (foto: Viviane Lima)
- Brinquedoteca da Delegacia da Mulher é espaço seguro para crianças que acompanham mulheres em atendimento na Delegacia da Mulher de Santo Amaro (foto: Viviane Lima)
Fortalecimento de direitos
Articulado por Monique, o atendimento humanizado vai além do espaço da brinquedoteca e inclui o acolhimento feito por uma equipe formada por profissionais de psicologia e assistência social.
O atendimento psicológico ocorre por meio de uma parceria entre a delegacia e uma universidade da região. Já o atendimento social é feito pela ONG Bem Querer Mulher, organização focada no enfrentamento da violência contra mulheres.

Ivone Albino (esquerda) e Jessica Beleza são assistentes sociais que prestam atendimento na Delegacia da Mulher de Santo Amaro (foto: Viviane Lima)
Ivone Albino, de 46 anos, é quem geralmente recebe e orienta quem chega à 6ª DDM de Santo Amaro. Ela é assistente social, trabalha na ONG Bem Querer Mulher e atua desde 2024 nessa delegacia.
“Nós viemos trabalhar na 6ª DDM nesse primeiro atendimento, onde a gente acolhe e escuta a mulher, porque a gente entende que nem sempre só um boletim ou medida protetiva vai resolver a vida dela. Há outras demandas que precisam de encaminhamentos”, reforça Ivone.
No atendimento, a assistente social explica às mulheres quais são os seus direitos, o que são o boletim de ocorrência e as medidas protetivas, pois geralmente elas não sabem quais são os desdobramentos desse processo de proteção.
“Muitas mulheres desistem do BO e da medida protetiva. Então, a gente sempre tá acompanhando e explicando que tirar a medida protetiva é um risco à vida delas”, ressalta a assistente social Ivone Albino.
Durante o processo de orientação, Denise menciona que seu filho ficou na brinquedoteca. “Como tinha muito livro, muito brinquedo, guitarra, joguinhos, ele fica o dia inteiro se for preciso. Não fica chamando e realmente consegue se distrair”, a mãe comenta.
Ter acesso a um espaço seguro e de acolhimento ajudou Denise e o filho a passarem por aquele momento.
“Quando você se sente acolhido, você se sente amado, né? E quando tem algo para o seu filho, você se sente muito mais grata. E ali você consegue se fortalecer para continuar”, reflete Denise.
Em busca de tornar o ambiente da 6ª DMM mais acolhedor e leve também para os próprios policiais e demais funcionários do local, a delegada Monique recentemente adotou uma cadela caramelo Amora para ser a mascote da delegacia.

Amora, a cachorra caramelo adotada pela delegada Monique, é a mascote da delegacia (Foto: Viviane Lima)
Política pública
A sala Lilás, como oficialmente é chamada a sala de acolhimento, é obrigatória em todos os prédios de Delegacias de Defesa da Mulher, segundo a delegada Monique.
Ela conta que a ideia de melhorar e expandir a sala Lilás, criando uma sala de acolhimento e uma brinquedoteca na 6ª DDM, “parte do próprio panorama do Programa Nacional de Enfrentamento à Violência Contra a Mulher, que prevê que não se combate a violência contra a mulher somente com segurança pública”.

Fachada da Delegacia de Defesa da Mulher, em Santo Amaro, com funcionamento 24 horas por dia (Foto: Viviane Lima)
A delegada aponta que a segurança pública tem como foco receber a ocorrência, transformar em boletim e encontrar o autor para responsabilizá-lo criminalmente.
“A polícia não é [preparada] para acolher a vítima. Por mais que a gente atenda bem, faça um boletim, o acolhimento que ela precisa deve ser feito por um profissional especializado, que é psicólogo ou assistente social”, explica a delegada.
Denise menciona que, ao chegar à delegacia, só teve um atendimento adequado após a interferência da assistente social que a acolheu. Antes, os policiais se recusaram a registrar o boletim de ocorrência, alegando que ela tinha que procurar a delegacia mais próxima de sua casa.
Como Denise é advogada, embora trabalhe como administradora, ela sabia que por direito podia registrar o boletim de ocorrência em qualquer delegacia – e assim conseguiu oficializar a denúncia na 6ª DDM de Santo Amaro.
“Independente se eu fosse atendida ou não, eu fui muito bem acolhida pelo espaço da Ivone e o meu filho também foi muito bem acolhido. Então, você sente um acolhimento que minimiza aquela tristeza e a dor. Diferente de eu ter chegado lá e não ter tido a Ivone, não ter tido aquele local para levar meu filho”, diz Denise.
A fala dela demonstra como a presença de profissionais especializados no acolhimento e cuidado com pessoas é fundamental em delegacias.
“A lei Maria da Penha é uma lei de direitos humanos. Ela vem o tempo todo no seu conteúdo dizendo que o atendimento tem que ser humanizado, acolhedor, justamente para a mulher não ser revitimizada”, aponta a delegada Monique.
Ou seja, ainda conforme a delegada, o atendimento humanizado em DDMs já é previsto nas políticas públicas, que muitas vezes não são implementadas.
Ela também destaca que a Política Nacional de Enfrentamento à Violência contra a Mulher estabelece que as mulheres que chegam às DDMs, conforme as necessidades, devem receber atendimento de assistência social e psicologia, mas não determina que isso precise ser feito de imediato, dentro da própria delegacia.
Então, as delegacias que não contam com esses profissionais não estão descumprindo nenhuma norma, ela explica.
Desse modo, o atendimento inicial acaba sendo feito pelos próprios policiais e depois a mulher é encaminhada para uma rede especializada, como o Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS), o Centro de Referência da Mulher (CRM), entre outras.
Como denunciar
Independente de estar na companhia de uma criança ou não, a delegada Monique e a assistente social Ivone indicam que é importante que a mulher denuncie os casos de violência.
Atualmente, na capital de São Paulo há nove DDMs. A 6ª Delegacia de Defesa da Mulher de Santo Amaro funciona 24 horas, todos os dias, mas o boletim de ocorrência pode ser feito em qualquer unidade policial.
A denúncia pode ser realizada presencialmente ou pela internet (clique aqui), conforme informou a delegada Monique. E qualquer pessoa pode ligar gratuitamente na Central de Atendimento à Mulher, teclando o número 180.
Confira abaixo o mapa das DDMs na região metropolitana de São Paulo:





