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Crédito: Freepik
A organização financeira costuma ser tratada como um privilégio de quem ganha bem, porque guardar dinheiro não funciona igual para todas as pessoas. Milhões de brasileiros, especialmente nas periferias, lidam com outro tipo de realidade: renda curta, gastos fixos altos, trabalho informal e imprevistos frequentes.
Mas isso não significa que é impossível se organizar, poupar e ter uma vida financeira controlada: algum grau de controle do dinheiro pode fazer diferença na rotina e ajudar a evitar o endividamento.
A Periferia em Movimento já mostrou como sair do vermelho após o endividamento causado por jogos de aposta online. Desta vez, a contadora Aline Sales, cria do Grajaú e idealizadora da empresa Engenho Contábil, dá dicas de como começar a caminhada para uma vida financeira saudável.
Segundo ela, identificar a diferença entre o que você quer e o que você realmente precisa é o começo de tudo.
Por isso, é importante deixar a ostentação de lado e começar a organizar as prioridades financeiras: classificar as necessidades, como o aluguel, os gastos com alimentação e o pagamento das contas fixas, são algumas das estratégias mais eficazes para quem quer economizar.
“A partir desse momento você consegue perceber qual é a sua folga financeira, entender o que você vai fazer com o dinheiro que restou e qual é a melhor forma de guardar esse dinheiro”, afirma Aline.
Como começar uma reserva de emergência

Endividamento ainda em alta
A ideia é começar aos poucos. Uma pessoa que recebe um salário mínimo e quer guardar dinheiro não precisa começar necessariamente a investir em algum lugar complexo.
“Se a pessoa conseguir guardar o dinheiro, aí pode começar a separar: vou guardar R$ 50 para uma viagem, R$ 50 para um estudo e guardar os R$ 50 para a reserva de emergência”, orienta a contadora.
Ela destaca que guardar dinheiro na reserva de emergência não é apenas uma atitude para quem ganha muito, na verdade, é justamente quem tem renda mais baixa que precisa deste colchão financeiro.
“Eu recebi meu salário, vou pegar R$ 30 e vou guardar na reserva de emergência. Acabar o gás é uma emergência. Se você guardou três, quatro meses, você tem lá o dinheiro do gás sem precisar mexer nas outras coisas”, ressalta a especialista.
O ideal é ter guardado o equivalente a três ou seis meses de despesas essenciais. Mas para quem está começando do zero, a meta pode ser mais modesta: juntar o equivalente a um mês de gastos básicos, como aluguel, alimentação e transporte.
“Não dá para fazer milagre com o que as pessoas ganham hoje com salário mínimo”, diz a contadora.
O importante é criar o hábito: gardar R$ 10 por semana resulta em R$ 520 ao final de um ano; R$ 20 por mês já são R$ 240 em 12 meses.
Além disso, a contadora alerta: é importante evitar deixar o dinheiro parado na conta-corrente, pois, dessa forma, a probabilidade de gastar é grande; e também não colocar em investimento que tenha prazo de resgate, porque o valor deixa de ser uma possibilidade para emergência.
Onde guardar dinheiro?

Aline Sales, contadora./Foto: Arquivo Pessoal
Com a popularização das fintechs e a facilidade nas transações com o sistema Pix, ficou muito mais fácil para qualquer pessoa guardar ou investir dinheiro com ferramentas que ficam na palma da mão. Os próprios bancos digitais oferecem várias opções de aplicação de CDI, com liquidez imediata, ou as caixinhas, opções para guardar dinheiro com objetivos definidos.
Por isso, se você começou o ano com um olhar para uma nova vida financeira, um dos princípios é marcar objetivos para começar a guardar dinheiro – com isso as caixinhas ajudam. Uma viagem no final do ano, uma grande compra ou um curso, todo objetivo é válido.
“Ali vai ter um pequeno rendimento e o dinheiro vai estar sempre lá. Toda vez que você olhar, vai ter aquela coisa visual, aí você pensa: ‘eu não vou mexer no dinheiro da minha viagem’”, afirma Aline.
Segundo a contadora, a reserva de emergência precisa estar em um lugar seguro e com liquidez imediata, ou seja, você precisa conseguir resgatar o dinheiro rapidamente quando precisar. Por isso, as caixinhas dos bancos digitais, o Tesouro Selic ou aplicações em CDI com liquidez imediata são boas opções.
Uma estratégia prática é programar uma transferência automática para logo depois que o salário cair na conta. Mesmo que seja R$ 15, R$ 30, o que vale é o valor que couber no seu orçamento.
“Ao invés de ir no McDonald ‘s toda sexta-feira, eu vou tirar esse lanche em duas sextas do mês e vou colocar esse dinheiro na caixinha [do banco]”, sugere Aline.
Cuidado com as armadilhas do crédito
O cartão de crédito pode ser um aliado ou um inimigo, dependendo de como é usado. O ideal é utilizá-lo apenas para compras planejadas e sempre pagar o valor total da fatura. Pagar apenas o mínimo é uma das maiores armadilhas, já que os juros do rotativo do cartão de crédito estão entre os mais altos do mercado financeiro.
Outras modalidades de crédito também merecem atenção. Empréstimos pessoais, consignados e o “compre agora, pague depois” parecem soluções rápidas, mas podem se transformar em bolas de neve.
Antes de contrair qualquer dívida, vale questionar: a compra é realmente necessária agora? É possível pagar as parcelas sem comprometer despesas básicas? Quanto será pago de juros no total?
A regra de ouro é: se for necessário parcelar itens básicos do dia a dia, como comida ou produtos de limpeza, é sinal de que o orçamento está desequilibrado e precisa ser revisto.
Me endividei, e agora?

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Se você já está endividado, o caminho de volta ao equilíbrio exige organização e honestidade com a própria realidade financeira. Segundo Aline, o primeiro passo é identificar todas as dívidas e listá-las com detalhes: valor devido, nome do credor e formas de contato para negociação.
Com o mapeamento completo das dívidas em mãos, vem o segundo passo: avaliar o que é possível fazer com o dinheiro disponível. Com esse valor em mente, é hora de entrar em contato com as instituições credoras para tentar fazer um acordo que caiba no orçamento.
Mas a contadora faz um alerta importante: se não for possível fazer um acordo viável no momento, a alternativa é começar a guardar dinheiro aos poucos para liquidar a dívida no futuro.
O pior caminho, segundo Aline, é fazer acordos que você não conseguirá honrar.
“Não adianta falar assim: ‘Olha, você vai lá, pega todas as suas contas, acha a fonte e faz acordo de todas’. Mas aí você não vai conseguir honrar o seu acordo e quando você não honra, a dívida triplica, vira uma bola de neve”, alerta.
Ferramentas que ajudam
Para quem já está endividado, o Serasa Limpa Nome é uma das principais plataformas para renegociar dívidas com descontos que podem chegar a 90%. A ferramenta é gratuita e reúne ofertas de diversos credores, permitindo negociar diretamente pelo site ou aplicativo.
Já para quem quer começar a se organizar financieramente, aplicativos gratuitos como Mobills, Organizze e Guiabolso (agora Méliuz) ajudam a registrar gastos, categorizar despesas e acompanhar o orçamento pelo celular. O importante é escolher uma ferramenta e usar com regularidade para ter controle real do dinheiro.

