Dia Nacional da Visibilidade Trans: ‘Cuidar de pessoas trans não é ideologia, é política de vida’

OPINIÃO

Dia Nacional da Visibilidade Trans: ‘Cuidar de pessoas trans não é ideologia, é política de vida’

Por: Theo Brandon*

No Dia Nacional da Visibilidade Trans (29/01), o estudante de medicina Theo Brandon fala da rotina de violências e o descaso enfrentados pela população transgênero no sistema de saúde

Compartilhe!

Tempo de leitura: 8 minutos

O nome chamado na recepção não é o seu. Você sabe disso antes mesmo de ouvir. Ainda assim, se levanta, porque sabe que corrigir pode gerar um constrangimento ainda maior — ou já se levanta reativo, se a exaustão tiver tomado conta. A consulta nem começou, mas o cuidado já falhou.

Às vezes nem é em voz alta. É num e-mail automático, numa newsletter qualquer, num cadastro que insiste em te puxar de volta para um passado que já foi resolvido há anos, inclusive na Justiça. Ainda assim, ele volta.

Mesmo depois da retificação, depois de cumprir todos os trâmites possíveis, ainda é comum ouvir que é preciso “atualizar o cadastro”. Isso acontece, por exemplo, quando vou tomar vacina, como a de HPV. A atendente olha o sistema, vê o marcador de gênero feminino e diz que preciso regularizar. Regularizar o quê, exatamente, se meus documentos estão corretos há anos?

Crédito:
Fernando Frazão/Agência Brasil

Em uma dessas situações, meu nome antigo ainda aparecia no cartão do SUS, apesar de já constar corretamente na Receita Federal. A resposta veio automática: eu que precisava ir à Receita resolver. No fim das contas, não era nada disso. O banco de dados da unidade de saúde não tinha sido atualizado.

Bastava um procedimento interno simples. Mas isso só ficou claro porque eu insisti, munido não apenas dos meus documentos, mas de conhecimento jurídico, de experiência como técnico em informática e como graduando em medicina, acostumado a lidar com sistemas internos do SUS. Acessos que muitas pessoas não têm. Não por escolha, mas por sobrevivência.

É absurdo o quanto somos obrigados a virar especialistas em direito, sistema público e tecnologia para garantir algo básico. A consulta, a vacina, o cadastro correto. O atendimento começa muito antes de entrar na sala do profissional de saúde e, muitas vezes, já começa errado.

O problema raramente é a falta de documento. É falta de atualização. Falta de cuidado. Falta de responsabilização institucional.

Ser visto não é o mesmo que ser cuidado e, para nós, pessoas trans, essa diferença define quem segue vivo.

Cansa ter que reivindicar, de novo e de novo, direitos que já foram conquistados lá atrás. Cansa perceber que a retificação resolve no papel, mas não necessariamente no sistema. E cansa, principalmente, saber que muita gente desiste no meio do caminho não porque não quer cuidar da saúde, mas porque o caminho machuca.

Ser trans no Brasil já é, por si só, atravessado por exclusões. Mas ser trans e periférico aprofunda tudo. A distância não é apenas geográfica, é social, econômica e racial. Transporte precário, filas longas, falta de especialistas, medo da violência e pouca informação sobre direitos fazem com que o cuidado em saúde chegue sempre atrasado. Quando chega.

Quando o ambulatório trans fica longe, quem mora na periferia precisa escolher entre faltar ao trabalho ou faltar ao cuidado.

Isso aparece com muita força quando falamos das tecnologias de modificações corporais. Entre transmasculinidades negras, por exemplo, o acesso à cirurgia de retirada das mamas costuma demorar muito mais. Não por acaso.

Na minha geração, entre os meninos que iniciaram a transição comigo, víamos isso acontecer como uma escada silenciosa: os de pele mais clara operavam primeiro, se formavam primeiro, conseguiam emprego primeiro. Enquanto isso, os mais escuros, geralmente mais precarizados financeiramente, ficavam para depois. Quando conseguiam.

Alguns nunca conseguiram até hoje.

Esse atraso não é individual. Ele tem cor, tem classe e tem território. Para acessar uma cirurgia, não basta desejar. É preciso dinheiro, rede de apoio, tempo, alguma estabilidade mínima. E isso é luxo para quem precisa escolher entre pagar aluguel, comer ou seguir vivendo enquanto tenta se formar.

Para dar conta dessa realidade, muitos de nós acabamos virando quase um “marido de aluguel” da própria vida. Eu estudo medicina, mas já fui garçom, barman, churrasqueiro, freelancer em tecnologia da informação. Hoje sou motorista de aplicativo. Não por romantizar a múltipla jornada, mas porque sobreviver exige isso. A formação acadêmica vira um projeto de longo prazo atravessado por trabalhos temporários, informais e exaustivos, tudo para manter o corpo de pé enquanto o futuro não chega.

E esse processo raramente acontece em paz. Na universidade, muitas vezes, há uma batalha diária por respeito: pelo nome, pelo pronome, pelo direito de existir sem virar pauta ou piada. Em casa, quando existe casa, outra batalha paralela costuma acontecer. Muitos de nós são expulsos ainda na adolescência, sob o discurso de que, se tivemos “liberdade” para ser quem somos, então também temos obrigação de nos sustentar sozinhos. Uma falácia cruel, usada para justificar abandono e aprofundar vulnerabilidades justamente no momento em que mais se precisa de apoio.

Foi assim comigo. E é assim com muitos.

A periferia sente primeiro porque nela o cuidado chega por último. Porque o corpo trans periférico precisa provar o tempo todo que merece existir, estudar, trabalhar, adoecer e ser cuidado. A desigualdade não aparece apenas nos dados. Ela se materializa no tempo que demora para acessar uma cirurgia, no emprego que nunca vem, na formação que se arrasta, na saúde que vai ficando para depois.

O problema não é o SUS ou a universidade existirem. São conquistas fruto de muita luta do movimento social. O problema é não chegarem por inteiro para todo mundo, mais os profissionais despreparados e a leitura do nosso corpo como documento, o que transforma a consulta em interrogatório e promove nossa exotificação.

E quando encontramos algum espaço que nos trata com humanidade, quase sempre há o rastro de alguém trans que foi violentado ali antes, para que aquele lugar precisasse ser lapidado.

Ainda assim, há avanços importantes. A ampliação dos ambulatórios com cuidados especializados, com maior lastro municipal, estadual e federal, como acontece na capital baiana. As políticas afirmativas universitárias para pessoas trans, que vêm nos inserindo nos espaços acadêmicos como estudantes e, ao mesmo tempo, tensionando essas estruturas. As bolsas estudantis que fortalecem a permanência. Programas de equidade no SUS que reafirmam nossa presença e enfrentam estigmas. A criação de setores de diversidade em empresas públicas e privadas, muitas vezes encabeçados por pessoas trans, que colocam nossas vivências na agenda como um avanço real.

Nada disso é presente. É resultado de uma luta contínua que entende que cuidar de pessoas trans não é ideologia. É política de vida.

No Dia da Visibilidade Trans, lembrar disso é reafirmar que existir também é um direito que se constrói.

 

Theo Brandon P. Gonçalves: graduando em medicina pela Universidade Estadual da Bahia – UNEB, técnico em Informática pelo Instituto Federal da Bahia – IFBA e conselheiro da Associação Baiana de Transexuais e Transgêneros em Ação – ATRAÇÃO.

{{ reviewsTotal }}{{ options.labels.singularReviewCountLabel }}
{{ reviewsTotal }}{{ options.labels.pluralReviewCountLabel }}
{{ options.labels.newReviewButton }}
{{ userData.canReview.message }}

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

APOIE!
Acessar o conteúdo