Da observação à cena no palco: como nasce uma peça de teatro na periferia?

Da observação à cena no palco: como nasce uma peça de teatro na periferia?

Brava Companhia se inspira em vida da classe média para produzir novo espetáculo no Campo Limpo, zona Sul de São Paulo

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Cadê a margarina?

Após rezar em volta da mesa arrumada pela mãe, o filho Lorenzo dá falta deste item essencial no café da manhã da família tradicional brasileira. A mãe, tão cautelosa para manter a harmonia doméstica, sente-se pressionada pela falha e lembra que o produto estava na lista de supermercado. Então, o pai revela que não comprou porque o cartão foi negado no caixa.

A descoberta que o “provedor” da casa está desempregado desencadeia uma crise no lar de classe média, que levava uma vida típica do comercial de Doriana e agora tenta escapar da ruína inevitável.

Esse é o mote de “Vida Média”, novo experimento cênico da Brava Companhia, grupo teatral com 27 anos de atuação e que está sediado no Campo Limpo, na zona Sul de São Paulo.

A criação mergulha na rotina instável da classe média brasileira para revelar contradições de um país que transforma existência em dívida, afeto em mercadoria e esperança em aposta.

“Existe um desejo do país de ser classe média, e é legítimo querer uma vida melhor. Mas o que a gente chama de ‘classe média’ são pessoas que se acham ricas, quando estão muito mais próximas dos pobres”, aponta Ademir de Almeida, diretor, dramaturgo e ator que interpreta a mãe de família na peça.

“E isso se confunde no governo Lula, quando fala que quem ganha dois salários mínimos é classe média. Isso dificulta a luta de classes”, complementa o ator Fábio Resende, que dá corpo ao filho Lorenzo.

Retrato do presente

Os elementos do “comercial de margarina” sempre fizeram parte dos estudos críticos da Brava Companhia, que desenvolve um teatro contra-hegemônico e pautado na luta de classes a partir da periferia paulistana.

E há pelo menos cinco anos, integrantes do grupo criam cenas que se encaixam nesse ideal de “perfeição”. No mesmo período, a extrema-direita governou o Brasil.

“Dá mais vontade de falar disso a partir do governo Bolsonaro, com as pessoas colocando essas ideias na rua”, explica Ademir.

Foto: Gui Biode @guibiode

Historicamente, a companhia satiriza a elite dominante com o uso da palhaçaria para discutir questões estruturais. Dessa vez, o grupo optou por abordar uma realidade mais próxima: a rotina de condomínio, shopping center, escola particular, academia, terapia e viagem para Miami.

Por meio da palhaçaria, a peça desmonta o cotidiano com o humor que escancara o medo, as normas sociais e o sistema que nos formata.

Enquanto celebra o presente gringo enviado pela tia que vive nos Estados Unidos, a família teme e mantém distância máxima do perigo representado pelo pobre ao redor – o porteiro de cara fechada no prédio, o motoboy “suspeito”, a empregada que não dá para confiar.

Mas os muros que tentam proteger a família não são suficientes: o abismo se impõe pela crise financeira, o dinheiro perdido nas bets, a ameaça de agiotas e conflitos que saem debaixo do tapete.

“Vida Média” encerra um projeto de dois anos apoiado pelo Fomento ao Teatro, programa da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo que apoiou a realização de cursos livres, rodas de conversa e estudos sobre teatro, trabalho e território.

Ainda no processo de criação, em dezembro a companhia realizou ensaios abertos para ouvir a opinião de pessoas convidadas – entre agentes culturais, estudantes de teatro e militantes. A expectativa é estrear em 2026, mas sem patrocínio ainda não há data prevista.

Enquanto isso, o riso nervoso do público seleto revela o deboche e também o desconforto com um cenário cada vez mais próximo.

Foto: Gui Biode @guibiode

“[A história] gera alguma empatia, pois tudo acontece porque ele perdeu o emprego. Se fosse a falência de uma empresa, [o sentimento] seria diferente”, diz uma participante.

Com sede próxima da estação Campo Limpo, a Brava Companhia está em meio a dezenas de prédios levantados nos últimos anos, em uma região periférica que é alvo da especulação imobiliária e da transformação do território.

Quebradas e condomínios dividem a paisagem e reforçam a necessidade de quem “ascendeu” na vida gerar alguma diferenciação com quem ficou na favela: no modo de ver o mundo, nos lugares de circulação, nos bens de consumo e nas crenças compartilhadas.

Não tem suspense: a apresentação começa com um aviso de que vai retratar pessoas que passam a vida tentando provar que são felizes.

Edição: Hysa Conrado.

 

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