‘Nunca existiu samba sem uma presença feminina’, afirma fundadora do projeto Massembas de Ialodês

‘Nunca existiu samba sem uma presença feminina’, afirma fundadora do projeto Massembas de Ialodês

Em entrevista à Periferia em Movimento neste Dia do Samba (02/12), a gestora cultural Maitê Freitas fala sobre o apagamento do samba paulista e como a presença das mulheres é intrínseca à história do gênero

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Tempo de leitura: 8 minutos

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Em São Paulo, apesar da sua força em diversas ruas e nas periferias, o samba e parte de sua história permanece pouco difundida, mesmo entre quem cresceu cercado pela música.

Foi essa lacuna que chamou a atenção de Maitê Freitas, 40, numa roda do Monte Azul, na Zona Sul de São Paulo, quando percebeu que desconhecia um repertório ligado ao samba paulista.

Maitê Freitas./Foto: Arquivo Pessoal

A partir desse estranhamento ela criou o Samba Sampa, há mais de uma década, para formar, documentar e reconstruir narrativas que não circulavam.

Maitê é mãe, mestre em estudos culturais, ensaísta, jornalista, gestora cultural e idealizadora do projeto que se expandiu até chegar ao Massembas de Ialodês, uma roda que reúne mulheres negras para afirmar oralidade, memória e pensamento político dentro do samba.

Em entrevista à Periferia em Movimento neste Dia do Samba (02/12), ela analisa os apagamentos históricos, fala dos desafios para sustentar projetos independentes e aponta onde o machismo ainda se manifesta, ao mesmo tempo em que descreve um cenário em que o samba continua vivo como prática coletiva, criação e disputa por espaço na cidade.

Confira:

PEM: Onde você acredita que o samba vive hoje nas periferias de São Paulo?

O samba pulsa nas casas, nos quintais, nos botecos, nas rodas.

As rodas de samba que acontecem fora das quadras, como o Samba da Vela, o Pagode da 27 e tantas outras rodas são grandes passos de experimentação da poesia, da proposição, da interação com todo com a comunidade, com a ocupação do espaço urbano.

Eu acho que é isso que sustenta, que faz pulsar, é dali que saem as novas composições.

 

PEM: Quais movimentos você considera decisivos para manter o gênero ativo?

O que a gente precisava, na verdade, era ter uma gestão pública, um estado mais consciente de garantir que esses espaços continuem sendo ocupados por esses grupos.

Não só coletivos que trabalham e que tocam samba, mas que coletivos de hip-hop, de funk e de outros gêneros também possam ocupar esses espaços, encontros, novas narrativas, experimentação poética, criativa e de reflexão do tempo que a gente vive.

PEM: Como você enxerga a presença das mulheres no samba hoje e quais barreiras ainda aparecem nas rodas?

Eu acho que a mulher nunca deixou de estar no samba. Nunca existiu samba sem uma presença feminina, fosse ela cantando ou fosse ela arrumando espaço para que a roda acontecesse, para que o samba acontecesse.

Quando a gente pensa na mulher no samba, temos que pensar que uma coisa não acontece sem a outra. Mas o que precisamos pensar é o protagonismo. Qual é o espaço de protagonismo que é reconhecido e como esse protagonismo é reconhecido a partir dessas mulheres.

Eu creio que durante muito tempo a história social do samba e a forma como foi se constituindo essa história acabou criando muitos apagamentos.

Hoje em dia o que a gente vê são mulheres, em especial as mulheres negras, retomando essas memórias, essas trajetórias e reocupando esse espaço na roda, muito imbuídas e muito nutridas desse reconhecimento da ancestralidade e da dificuldade que mulheres negras, sambistas, sofreram e sofrem até hoje.

PEM: Onde o machismo se manifesta de forma mais clara no universo do samba?

Eu acho que o samba não está destituído de expressar as relações de opressão e de desigualdade que existem na nossa sociedade e na nossa interação social.

Então, ao mesmo tempo é ali, nesse espaço e a partir dessa linguagem, da experiência do samba, que é possível também fazer denúncia sobre essas opressões.

O que eu vejo hoje é que as mulheres estão mais conscientes dessas opressões e por estarem mais conscientes, mas em comunicação com outras mulheres, isso fortalece para que elas encontrem meios de disputar esse espaço, de disputar o microfone, o instrumento e se colocar ali dizendo “eu também posso fazer isso”.

Eu acho que hoje em dia as rodas femininas estão mais consolidadas, mais fortalecidas e compreendendo que elas também são espaços de formação e de fortalecimento para outras mulheres, para o público e para a comunidade.

E isso de alguma forma, ao mesmo tempo que incomoda os homens, faz com que eles estejam mais atentos, porque eles sabem que não seremos mais silenciadas.

Eu acredito que as rodas de mulheres, principalmente as rodas de mulheres negras, são por excelência muito autênticas.

PEM: De que forma sua trajetória como mulher negra, jornalista e gestora cultural influencia como você pensa e trata o samba?

Eu costumo dizer que foi o samba que me formou profissionalmente. A minha trajetória toda tem um antes e depois que o samba entrou na minha vida. Entrei desse jeito, de cabeça, pensando esse samba para além do ritmo, mas também como esse lugar de ciência, de formação cidadã, de formação política, de formação afetiva.

PEM: Como nasceu o Massembas de Ialodês e qual foi o impulso inicial para criar o projeto?

Ele é uma ação que acontece em um projeto chamado Samba Sampa, pensado há 12 anos. Essa criação foi mobilizada por uma provocação que eu me fiz sobre o quanto eu desconhecia a história do samba de São Paulo.

Eu cresci numa família que sempre ouviu muita música brasileira, muito samba, mas um dia na roda de samba lá no Monte Azul, na Zona Sul de São Paulo, eu observei que tinha uma parte daquele repertório que eu desconhecia.

Então a partir disso eu comecei esse projeto, o Samba Sampa. E ele foi se desdobrando em várias ações e linguagens, pensando sempre em mobilizar atos formativos, encontros com documentação e memória preta.

Em 2016 a gente fez uma edição especial em parceria com outro projeto chamado Empoderadas. E nasceu o Empoderadas do Samba, norteado para a mulher negra dentro do samba.

Ao fazer isso eu enxerguei muita potência. Em 2018, ao lado da Patrícia Vaz e da Carmen Faustina, organizamos a coleção Sambas Escritos que precisava de um nome para um dos livros que reunia só autoras.

E aí eu falei: “Ah, vamos chamar de Massembas de Ialodês, porque massembas tem a ver com o encontro e ialodês tem a ver com esse encontro dessas mulheres, regidas por Oxum e por Nanã, que são essas grandes mães sagradas, que organizam socialmente e que nos organizam ancestralmente”.

Edição: Hysa Conrado. 

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1 Comentário

  1. Elizabete Oliveira disse:

    A entrevista inteira está exposta? Achei curta. Merece continuação!

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