Em ‘Chav de Ouro’, Fabin se inspira nos antigos bailes funks para cantar masculinidades periféricas

Em ‘Chav de Ouro’, Fabin se inspira nos antigos bailes funks para cantar masculinidades periféricas

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Tempo de leitura: 6 minutos

Foto: Divulgação

Se você cresceu nos anos 2000, é provável que se lembre dos DVD’s da Furacão 2000 que figuravam nas barraquinhas de pirataria espalhadas pelas quebradas. Nomes como Mc Marcinho, Jhonathan da Nova Geração, Gaiola das Popozudas e Os Hawaianos eram comuns.

Pois bem, se você de alguma forma se relaciona com essa memória, conseguirá em alguma medida se reconhecer no novo trabalho do artista Fabin, de Embu das Artes, com seu EP “Chav de Ouro”.

A produção surge com uma sonoridade inspirada nos antigos bailes funks para narrar a história de dois moleques, Babalu e Pistolinha, meninos personagens que caminham pelas músicas costurando uma história comum de jovens periféricos.

Os dois são apresentados logo na primeira faixa, “Hino dos Chavs – 2 Mlks, 1 Só Torcida”. É interessante o quanto esses personagens em alguma medida me parecem um recorte e colagem de muitos meninos que conheci e que fui.

Logo de cara você cata um conjunto de referências que Fabin articula, tanto pelo som quanto nas letras, ou nos diálogos de “Cidade de Deus”, ou de personagens de seriados norte-americanos protagonizados por pessoas negras, como “Um maluco no pedaço” e “Kenan e Kell”. Tudo isso rolando num baile dos anos 2000.

O primeiro som exalta e celebra os chavs, termo que se refere a esses moleques.

O baile segue para a faixa “Reboloso – Babalu Bom de Baile”, uma das mais nostálgicas do trabalho. Babalu nos é apresentado como um cara charmoso e um menó reboloso. Impossível não se lembrar do Bonde do Tigrão, ou dos dançarinos que compunham os Hawaianos. Ou ainda o quanto o Benê era popular no baile, em “Cidade de Deus”.

Foto: Divulgação

“Lado B X Lado A – Babalu Vs Pistolinha”: aqui faço uma reflexão sobre os títulos do álbum e essa dualidade em dividir sempre entre a narrativa dos personagens ao mesmo tempo que nos aproxima do som, que pode nos tocar em outros lugares que não só na trama dos dois.

Na faixa que é um feat com Victor Gabriel, um som que nos lembra os antigos bailes de corredor e as disputas para saber quem dançava mais, serve como metáforas para as discordâncias possíveis entre duas visões opostas que formam os tantos meninos.

Babalu me parece um cara tranquilo, aquele menino que tenta o certo. Já Pistolinha começa a figurar como um cara que flerta com os caminhos contraditórios, com os “corres” que por vezes se apresentam como única oportunidade.

Para apaziguar os conflitos, o primeiro single do trabalho, aquele que parece o coração do EP, “Meninos Y Cavalos – Respira, Olha pra Noiz Meu Mano”, tem a beleza de uma celebração a esses meninos, “que vem de onde a maldade se esconde/onde pivete bate no peito vira homem”. Uma faixa poética que traz um feat com o artista Falajampa.

Me parece que o artista usa da poesia pra contornar uma parte sensível das masculinidades de jovens negros em periferias, como nos prova a faixa seguinte “Serenata – Pistolinha Tbm Ama”, talvez um dos sons mais arrojados do EP.

A aposta em uma faixa romântica, porém cantada pelo personagem que até então seria o que menos imaginaríamos dedicando uma serenata a alguém. Daí o aviso no título “Pistolinha também ama”. E seu amor é um lovesong divertido e profundo. “Te fiz uma serenata mesmo sem ser mariachi/dançamos ao som de tiros/em cima da laje” é um dos versos mais interessantes de todo o material.

As sonoridades dançantes parecem preencher a arte da capa de movimento: o trabalho feito pela artista plástica e designer Stefanie Flauzino destaca dois caras num baile de quebrada e no fundo tem dança, briga, a pista e o paredão de som. Os dois na frente se contrastam pelas cores, um de camiseta e cabelo rosa, e o outro de bermuda e cabelos azuis. Em alguma medida me lembra as cores associadas aos Ibejis nas religiões de matrizes africanas, que indicam a dualidade e semelhanças dos gêmeos sagrados.

“Vlw Amigo – É Noiz Cachorro S2” finaliza a experiência que é ouvir a história melodiosa do Babalu e Pistolinha. A faixa é uma declaração de amor à amizade.

Nas representações de homens e meninos raramente cabe uma declaração de amor a um amigo. Aqui nesse EP isso coube e de alguma forma me soa como um agradecimento do artista aos tantos meninos que compõem esse trabalho.

Fabin um cantador de histórias.

Ficha técnica

Produtores musicais: Levi Keniata, Eddu Chaves, Anjo45 , Gabriellê , Dinho
Intérpretes: Fabin Santin, Guayana , Victor Gabriel , Jampa
Mixagem: Mixtheus
Masterização: Fernando Delgado Mastering
Gravação Studios: Nebulosa Selo | Studio Atelier
Assistente de produção executiva: Raissa Lima
Capa: Ste Flauzino

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