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Por Vanessa Loiola. Edição: Hysa Conrado.

Foto: Divulgação
No Extremo da Zona Sul de São Paulo, onde vivem mais de 750 mil pessoas, cresce uma mobilização popular por uma universidade pública. O movimento “Por uma Universidade Pública no Grajaú” quer mais que um prédio: reivindica o direito ao conhecimento, à permanência no território e à transformação estrutural das periferias.
A demanda por um campus da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) ou por um Instituto Federal de São Paulo (IFSP) na região integra uma pauta antiga e urgente sobre descentralizar o ensino superior e romper com a lógica excludente das universidades brasileiras.
Segundo Mauro Scarpinatti, da coordenação do movimento, a articulação atual se formalizou em 2023, mas a luta começou nos anos 2000. “Já havia tentativas de trazer uma instituição pública para a região, com reuniões com a Unifesp e o Ministério da Educação”, lembra.
A Fatec Dom Paulo Evaristo Arns e a Escola Técnica Irmã Agostina foram vitórias parciais dessas articulações. Mais recentemente, o movimento lançou abaixo-assinados, realizou plenárias, festivais culturais e uma audiência pública na Assembleia Legislativa.
Sheila Paulino, também da coordenação, ressalta que os diálogos com a Unifesp, o IFSP e parlamentares continuam.
“Queremos uma instituição pública de ensino superior no território. O anúncio do governo federal de expansão da rede de institutos federais abriu uma janela de oportunidade, agora é a hora da nossa região ser contemplada”, afirma.
Acesso e permanência

Foto: Arquivo Pessoal
Para Mauro, a ausência de um campus no extremo sul é um dos maiores obstáculos ao acesso universitário e a permanência dos estudantes no ensino superior.
“Os jovens daqui enfrentam jornadas de até quatro horas por dia para chegar aos polos centrais. Muitos precisam trabalhar cedo e não conseguem conciliar deslocamento com estudo. Isso inviabiliza o sonho de cursar uma graduação”, explica.
Para Sheila, um campus na região teria um impacto financeiro e no bem-estar das pessoas que sonham em avançar nos estudos.
“Ter um campus próximo reduz custos, tempo e cansaço. Permite que os jovens vivam a universidade sem abandonar a quebrada”, afirma.
O professor Tiaraju Pablo de Andrade, que atua na Unifesp e na USP Leste, é morador de Itaquera, na Zona Leste, e destaca que o ensino superior brasileiro foi historicamente pensado como um projeto da elite.
“As universidades não foram criadas com caráter popular. Foram construídas para formar as elites dirigentes e, muitas vezes, desconectadas dos problemas reais da população brasileira”, analisa.
Além disso, o professor observa que o vestibular é um dos principais filtros de exclusão para o acesso ao ensino superior.
“É um mecanismo que privilegia quem teve acesso a uma educação básica de qualidade, ou seja, os filhos das elites. Em países como a Argentina, por exemplo, o ingresso à universidade é direto após o ensino médio”, pontua.
A universitária Júlia Santos mora em Ermelino Matarazzo, no Extremo Leste, e gasta cerca de quatro horas por dia para se deslocar até a USP, onde cursa a graduação em letras no campus Butantã, na Zona Oeste.
“O tempo de deslocamento afeta meus estudos, porque são horas que eu poderia dedicar ao aprendizado. A segurança também é uma preocupação para quem estuda à noite e é ainda pior para mulheres, como eu, que se sentem inseguras ao esperar um ônibus ou caminhar até a estação para voltar para casa”, desabafa.
Ainda que exista um campus da USP na Zona Leste, Júlia destaca que a oferta de cursos também é desigual e menos convidativa.
“É quase impossível encontrar universidades com localização adequada e com cursos que atendam às demandas de quem mora em comunidades. Algumas instituições são tão difíceis de acessar que certos transportes públicos sequer conseguem entrar na região”, afirma.
A estudante desabafa sobre o constante sentimento de inadequação no contexto universitário, principalmente pelos pilares elitistas da instituição.
“A universidade pública não foi criada para pessoas periféricas. O discurso de colegas e professores é perceptivelmente elitista, mesmo sem intenção. Digo isso por viver situações em que ouvimos frases como ‘vocês deveriam ter aprendido isso no terceiro ano’”, conta.
Vetor de transformação

Foto: Arquivo Pessoal
A chegada de um campus não impacta apenas o acesso ao ensino, mas pode movimentar a economia local, fomentar o comércio, criar empregos e valorizar a cultura regional. Mas, ainda que a universidade possa se tornar um polo de desenvolvimento urbano, há o risco de gentrificação do território.
O professor Tiaraju cita o exemplo do campus da Unifesp em Guarulhos, que provocou aumento nos preços dos aluguéis.
“Como temos poucas universidades, cada novo campus vira um diferencial, valoriza muito o entorno, como ocorre com estações de metrô. Para evitar isso, é preciso ter muitos campi, espalhados pela cidade, para que deixem de ser exceções e passem a ser comuns”, destaca.
Segundo ele, em uma cidade com 96 distritos populosos como São Paulo, deveríamos ter 96 campi públicos. “Só assim conseguimos garantir que todo jovem que queira estudar tenha uma vaga assegurada, essa deve ser nossa meta como projeto de país.”
Além da infraestrutura, a luta do movimento toca uma questão central: o reconhecimento do saber produzido nas periferias. Para Tiaraju, a universidade precisa deixar de ser um espaço elitista que tenta explicar a quebrada de fora para dentro.
“A população periférica sempre produziu conhecimento, mesmo sem a chancela da universidade. O que precisamos é de universidades com caráter popular, que sejam ponto de encontro dos saberes periféricos, e não um elefante branco que ignora o entorno”, ressalta.
Ele defende que essas instituições precisam ter relação orgânica com o território, com o entorno cuidando e se reconhecendo naquele espaço.
Vitória no Jardim Ângela
Rafael Cícero de Oliveira, coordenador da Rede Ubuntu de Educação Popular, comemora a conquista de um campus do Instituto Federal de São Paulo no Jardim Ângela, na Zona Sul, que deve ser inaugurado em 2026.
“É uma alegria e uma esperança que surgem a partir dessa conquista. O menino vai poder crescer e pensar: ‘Bom, eu posso estudar a 2 km da minha casa, a 5 km da minha casa, aqui no meu distrito.’ Essa parte é muito importante, porque a gente perde muito tempo no transporte. O instituto federal mais próximo fica a 2h30 daqui”, afirma.
Para ele, a vitória alimenta a luta dos movimentos populares e renova as forças de quem está no corre há mais tempo.
“O Jardim Ângela e a quebrada vivem dessas lutas históricas de pessoas que vieram antes de nós. E, nos últimos anos, para muitos movimentos, tem sido só porrada, só derrota. Os movimentos vão perdendo força, vão perdendo esperança”, destaca.
“E aí surge a pergunta: o que a gente luta para deixar para a juventude? Está aí, a gente conseguiu. Mas a luta não acabou, temos que fazer dessa universidade um espaço popular”, afirma.
Mauro e Sheila reforçam que o movimento vai continuar pressionando para que Grajaú, Parelheiros e Cidade Dutra sejam contemplados na próxima fase de expansão dos institutos federais.
“Queremos garantir que os filhos e filhas da quebrada tenham a mesma chance de estudar que os jovens do centro”, diz Sheila.
Para Tiaraju, a luta é para que o acesso ao ensino superior não seja um sinal de status, mas um direito possível para todos.
“A universidade tem que ser comum, parte da vida de todos. E os jovens da quebrada que entram nela precisam entrar para mudar por dentro e não para se afastar de onde vieram”, pontua.


