Em “Jamais vai Derrubar”, Ogun rege ópera de entregadores negros e periféricos galopando bicicletas com sonhos nas costas

Em “Jamais vai Derrubar”, Ogun rege ópera de entregadores negros e periféricos galopando bicicletas com sonhos nas costas

Com boxe, rap, capoeira e espiritualidade, peça-show entra em cartaz em agosto com representações do homem negro contemporâneo. Confira a resenha em mais um De Lupa Na Arte

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Tempo de leitura: 6 minutos

A Lupa pousou agora na obra Jamais vai Derrubar, que tem como subtítulo Uma Ópera Oguniana. Com direção de Agá Péricles e Caio César, a produção se intitula como uma peça-show em que dois entregadores interpretados por Samurai Cria e Allan Vorenos compõem um debate atual sobre masculinidades e demarcadores geográficos e raciais. As músicas que compõem o espetáculo fazem parte do álbum Jamais vai Derrubar, do Agá.

Na peça os entregadores dividem os sonhos, as paixões, os desejos, enquanto são atravessados constantemente pela lida cotidiana, pedalar um dia inteiro, não receber em troca algo que seja justo e lidar com o racismo que, se não nos mata de imediato, nos adoece e leva aos poucos.

Somos envolvidos por representações que colocam em questão nossa capacidade de raciocinar sobre nossas próprias dores – e não seres apenas tomados por ela.

É importante abrir a chave das representações de pessoas periféricas para diálogos chapantes que conseguem unir desde os nossos perrengues cotidianos até o que nos diria os filósofos Sartre ou Ballman sobre a diluição das relações, passando por citações de nossos raps favoritos. Enfim, alargar nossa capacidade de elaborar nossos sentimentos.

Fiquei pensando em Ogun, a divindade iorubana, rei da cidade de Irê, Orisá sanguinário, regendo a ópera. No lugar da tradicional vareta do regente, ele usaria um facão de ferro, que oras aponta pra banda, pro cantor e pros atores.

Há uma melancolia nesse Ogun que me interessa profundamente. Fiquei pensando o quanto é importante fazer registros maduros das melancolias do povo negro e periférico, contrapondo as representações estereotipadas que sempre nos liga ou à alegria exacerbada ou a violência, mas sem abrir mão do humor que está durante toda a peça.

Como pesquisador das masculinidades negras e periféricas, fiquei muito magnetizado no modo como o boxe, o rap, a capoeira, a malandragem, a espiritualidade, as contradições e os desejos se tornam diversas notas enfileiradas harmonicamente para compor essa ópera chamada Homem Negro Contemporâneo.

Aliás, importante salientar o quanto achei um acerto a palavra “ópera” pra direcionar nossa visão sobre a obra. Na experiência que temos não há hierarquia entre a presença de músicos ou atores. Em Jamais vai Derrubar as sonoridades não são figuras de fundo, elas têm o peso exato das palavras ou das performances corporais. O que acho um ponto luminoso na seara dos espetáculos que vemos na cena contemporânea.

A experiência sonora, que por vezes parece uma nave espacial psicodélica, traz as músicas do álbum que leva o mesmo nome do espetáculo, e que por si só tem uma qualidade poética sublime. Amei ver o exercício do deslocamento de um material sonoro para as outras linguagens que compõem o espetáculo. (ouça abaixo)

Se tem uma palavra que os norte-americanos criaram e que eu tô chapando ultimamente é o tal do Afro-Surrealismo. Nesse conceito, a experiência afro-diaspórica pode criar situações que flertam com a irracionalidade que nos ronda. Meio como uma provocação, o mundo é mesmo surreal.

É possível que uma arena se torne um show em que você pula e dança, uma revista assistida em busca de um celular, um ringue de boxe onde os socos e as esquivas não são encenação, a bike que não sai do lugar, a capoeira que distorce um corpo, o solo de guitarra… E tantas outras coisas…

Enfim, o mundo como o conhecemos é mesmo surreal.

Novamente, Ogun como regente de uma ópera me aparece à cabeça.

Homens galopando bicicletas em direção à cidade de Irê. Na bag, alguns sonhos. Na ponta do facão, nossa humanidade.

 

Serviço

Quando? Sextas, sábados e domingos, de 1 a 24 de agosto, às 19h

Onde? Funarte/SP – Sala Carlos Miranda [Alameda Nothmann 1058]

Duração do espetáculo: 120 min

“Jamais vai derrubar” – foto: Elis Puga

Ficha técnica

Concepção: Agá Péricles

Direção Cênica: Agá Péricles e Caio Vrau.

Direção Musical: Agá Péricles e André Gabbay

Dramaturgia: Caio Vrau, Samurai Cria, Allan Vorenos e Agá Péricles 

Produção: André Gabbay, Agá Péricles e Caio Vrau

Bateria: Dean Bueno

Baixo: Edson Moreira Guitarra: João da Paz

Percussões: Jorge Marciano Teclado e Vocal: Agá Péricles

Atuantes: Samurai Cria, Allan Vorenos, Caio Vrau, Vitor Caio, Agá Péricles.

Câmera: Allan Brasil

Projeção: Allan Brasil

Figurinos: Bea Bueno e Fernanda Frate

Iluminação: Giovanni Matarazzo

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