Por Lucimeire Juventino*

Quando falamos que a criança deve se “adaptar” aos ambientes, regras, horários das escolas, na prática o que estamos dizendo é que cabe aos bebês e crianças ajustar-se à nova rotina nas instituições escolares.

“A adaptação pode ser entendida como o esforço que a criança realiza para ficar, e bem, no espaço coletivo, povoado de pessoas grandes e pequenas desconhecidas. Onde as relações, regras e limites são diferentes daqueles do espaço doméstico a que ela está acostumada. Há de fato um grande esforço por parte da criança que chega e que está conhecendo o ambiente da instituição, mas ao contrário do que o termo sugere não depende exclusivamente dela adaptar-se ou não à nova situação. Depende também da forma como é acolhida” (ORTIZ 2000).

Oferecer proteção ou conforto físico, abrigar, amparar é “acolher” e é com predominância neste segundo aspecto que vamos construir esta narrativa tendo como finalidade discutir esforços da família, escola, em consonância com a infraestrutura escolar, fundamentais para a garantia de um acolhimento saudável e prazeroso para bebês e crianças nas instituições de Educação Infantil.

Todo início de ano milhares de famílias ficam na expectava e ansiosas pelo primeiro dia de aula das crianças nas Creches, CEIs e Escolas de Educação Infantil.

Quando um bebê ou criança adentra o ambiente escolar a família também “embrenha–se” nos tempos e espaços da instituição, em contrapartida, a Comunidade Educativa; Educadores da limpeza, Educadores da Alimentação, Gestão escolar, Professores, Funcionários “mergulham” na missão de Acolher.

Tanto a escola quanto famílias iniciam um processo de aprimoramento de saberes e cumplicidade para o desenvolvimento dos bebês e crianças.

Sabe-se que novos ambientes tornam-se desafios, para bebês e crianças o desafio do novo perpassa por situações de medo do abandono, a família os deixa na escola, será que não veremos mais quem amamos? É importante que a família converse com bebês e crianças sobre esta nova etapa, que eles saibam que passarão um tempo na escola e que após o período a família irá buscá-los.

Por Lucimeire Juventino
Foto: Elza Fiúza / Agência Brasil

A criança começará a frequentar a escola, e agora?

Bate a insegurança na família. Visite a escola, conheça as instalações, converse com a Coordenação Pedagógica, funcionários, professores, com pais que tenham filhos na escola, usem todos os modos e sentidos para conhecer o ambiente.

Falamos aqui de acolhimento, isto porque, numa perspectiva de educação empática e inclusiva, bebês, crianças e família são acolhidos com olhar para a pluralidade cultural, subjetividades e especificidades identitárias sempre. De modo que o planejamento do “Acolhimento” leve em consideração que cada criança tem seu jeito de ser e possuem diversas maneiras de se relacionar. Umas chegam na escola pela primeira vez e se socializam facilmente outras se apresentam mais introspectivas ou inseguras. Algumas crianças já frequentaram a escola, porém trocaram de turma, turno, de professor. Outras estudavam em outros países, cidades.

“Pode chorar mais vai para a creche, vai se acostumando a ser pobre”

Frases como esta nos falam muito sobre a sociedade preconceituosa e excludente em que vivemos e o não lugar de bebês e crianças pobres. Nos mostra que as infâncias periféricas são marcadas e pré destinadas a acostumar-se com a rejeição, abandono e sofrimento.

Como que entregues à “própria sorte” a criança da periferia, olhando para as estatísticas, maioria negras terminam por serem culpabilizadas pela estratificação social e responsável pelo seu bem-estar. Elas precisam se acostumar com o padecimento enquanto o dever do Estado e da sociedade é protegê-las, ampará-las. Cabe aqui lembrar que a vaga em creches e escolas de educação infantil é direito da criança de acordo com artigo 208 da Constituição Federal e artigo 54 do Estatuto da Criança e do Adolescente que asseguram o atendimento em creche e em pré-escola às crianças de 0 a 6 anos de idade. A legislação prevê também, qualidade no atendimento.

Por que o incômodo ou choro?

Cada criança tem seu tempo e suas necessidades no processo afetivo de identificação com o novo ambiente, tornando inviável se estabelecer um período ou tempo exato de acolhimento. “Acolher” é tornar cada dia um dia muito especial para os pequenos! Existem crianças que em posse de objetos como paninhos, pelúcias, brinquedos se sentem confortáveis, está tudo certo! Porque isso as colocam próximas do lar que é para elas um ambiente seguro. É imprescindível a observação, escuta de bebês e crianças neste processo, bem como a avaliação do quanto o ambiente está colaborando ou não.

Qual a relação entre o espaço físico e o acolhimento das crianças nas Creches, CEIs e Escolas de Educação Infantil?

O espaço físico implica diretamente no processo de construção do Projeto Político Pedagógico da escola, reverbera nas condições de trabalho dos professores, funcionários, no bem-estar e qualidade de atendimento da comunidade escolar, logo, no desenvolvimento dos bebês e crianças.

Impulsionado pela política de convênios e privatizações, centenas de novos Centros de Educação Infantil estão surgindo na capital de São Paulo, concentram-se principalmente nos bairros periféricos entre ruas, vielas, instalados em sobrelojas. Há que se lembrar que o espaço físico da escola deve ser compreendido e apresentado enquanto espaço pedagógico, de múltiplas possibilidades de expressão, criação, conexão com a natureza/ aprendizagens. Ainda há um abismo entre o ideal dos campos teóricos sobre educação infantil e a infraestrutura das escolas existentes.

Não tratamos aqui sobre atender o número adequado de crianças por metro quadrado, falamos sobre respeito à necessidade de movimento das crianças, espaços organizados e pensados para o livre brincar. Algumas “regras e combinados” também surgem ou são impulsionadas de acordo com a capacidade de ocupação dos prédios. “Não pode correr!”. Escolas com espaços muito reduzidos ou com excesso de crianças tendem a controlar os corpos infantis, isolar turmas dificultando a socialização/ integração, reduzir a permanência no quintal, isso quando existe um quintal, sujeitando bebês e crianças a uma permanência no sistema educacional com atendimento limitado e ineficaz. Toda criança, para crescer saudável precisa brincar, correr, pular.

Ao considerarmos que a criança vai passar boa parte do dia na instituição é importante observar se o ambiente é espaçoso, agradável, arejado, atentar para a acessibilidade e segurança. Ambientes muito fechados, podem comprometer a saúde, contribuir para dificuldades de relacionamentos e stress infantil.

Mais é tudo tão fofo e colorido!

O fato de estar tudo colorido e cheio de figuras em EVA, além de não contribuir com a preservação ambiental, não garante a qualidade do ambiente.

O que tem na escola que se parece com os bebês e crianças, o que eles irão encontrar no ambiente escolar tem muito ou pouco haver com sua cidade, seu bairro, seu território, a família em seus diferentes formatos e contextos? O ambiente dá conta de falar sobre seu próprio “chão” ou suas referências estão aquém das realidades dos bebês e crianças?

Entendemos como ambiente acolhedor, aquele que produz conexão com a natureza, conforto e sentimento de pertencimento.

*Lucimeire Juventino é escritora, pesquisadora e professora de educação infantil na rede pública de ensino

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