Estação Capão Redondo do Metrô. Sexta-feira à noite, 06 de março de 2020. Horário de pico. 

Em meio à multidão, ao descer as escadas fixa ou rolante, já era possível ouvir vozes de mulheres ao microfone.

“Estamos aqui hoje para denunciar que a nossa região é liderança de violência contra as mulheres e para dizer para todas que sofrem violência que elas não estão sozinhas. Que elas podem contar com apoio de vários coletivos e coletivas de mulheres que estão atuando na região. Que elas podem se juntar com outras mulheres e criar uma força que lhes dê condição de sair desse ciclo”

Helena Silvestre, idealizadora da Escola Feminista Abya Yala, que há um ano realiza encontros de estudo e cuidado coletivo para fortalecimento principalmente das mulheres periféricas

O Capão Redondo, no Extremo Sul de São Paulo liderou o número de pedidos de socorro em ambiente doméstico em 2019. A cada 20 minutos, um caso foi atendido pela Polícia Militar, sendo as vítimas em sua maioria mulheres. No Brasil, a taxa de feminicídio é de 4,8 para 100 mil mulheres – a 5ª maior no mundo, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS). A cada 2 segundos uma mulher é vítima de violência física ou verbal no País, de acordo com o Relógio da Violência, do Instituto Maria da Penha.

Não tá fácil.

Por isso, ao passar a catraca mulheres receberam o reforço desse acolhimento por meio de um folheto entregue por outras integrantes da Escola Feminista no Sarau Pelas Vidas das Mulheres. Também levaram pra casa um kit de ervas para escaldar os pés como um momento de autocuidado depois de um dia exaustivo de trabalho.

“O feminismo branco não chegou aqui. Essa luta por igualdade é difícil, é política. O feminismo que é extremamente difícil não chega na favela, não chega naquela mãe que precisa, aquela mulher que apanha”, desabafa Taina Chicuta, idealizadora do projeto Fala Maria, professora de filosofia, empoderamento feminino e planejamento pessoal e social.

“O machismo está em tudo, nas menores e nas maiores atitudes. E quando tem esse movimento na porta do metrô Capão Redondo, eu me sinto contemplada”, reconhece Taina. 

Os tipos de violência, segundo a lei Maria da Penha:

  • violência física (homicídio, tentativa de homicídio, lesão corporal e maus tratos);
  • violência psicológica (constrangimento ilegal, ameaça);
  • violência moral (calúnia, difamação e injúria);
  • violência sexual (estupro)
  • violência patrimonial (invasão de domicílio e dano)

BUSQUE AJUDA: O Centro de Referência da Mulher – CRM Maria de Lourdes Rodrigues, que fica na Rua Dr. Luiz Fonseca Galvão, 145  à 400 metros da estação Capão Redondo.

Enquanto aguarda a carona para a casa em São Bernardo do Campo, para onde retorna somente aos finais de semana, a cuidadora de idosos Maria Argolo acompanha o sarau e relembra quando foi violentada pelo ex-companheiro.

“O que eu passei eu não desejo que nenhuma mulher passe, porque é terrível”, contou Maria Argolo. Para ela, iniciativas como essa são importantes. “Eu creio que muita violência tinha acabado. Quantas vezes a pessoa é violentada e não fala? O bom é falar para uma pessoa que você confia ou para a polícia. Eu tive uma pessoa para poder falar”. 

Depois de ler versos do livro “20 poemas e uma oferenda”, escrito por Neide Almeida, a professora aposentada Elisabete Melo reforçou: “no Capão Redondo, assim como em outras periferias, o lema é resistir”, disse a integrante da Escola Feminista e moradora do Jardim Cruzeiro, que concluiu puxando o coro “Marielle, presente!”

SAIBA MAIS: Na entrevista da jornalista Simone Freire para o Alma Preta, Vilma Reis (pré-candidata do PT à Prefeitura de Salvador) diz que “eles sabiam que Marielle podia ser presidenta do Brasil um dia”

Recado para os homens

O sarau tinha dois propósitos principais: fortalecer as mulheres e lembrá-las que elas não estão sozinhas na luta contra a violência; e passar uma mensagem também para os homens.

“Parem de nos silenciar”, “parem de nos matar”, diziam cartazes e faixas na intervenção. O recado tava dado: além de fortalecer e lembrar às mulheres de que não estamos sozinhas na luta contra a violência, a mensagem também era pros homens. “Pai não ajuda! Pai cria junto” , “Cara: se ela não te quer mais, deixa ir”, “Como foi para você ser encoxado no metrô hoje?”

“Eu senti vontade de participar  dessa campanha como homem, inclusive para falar com outros homens”, explicou Clodoaldo Cajado, administrador do Parque Santo Dias e integrante do Comitê Moa Do Katendê, que esteve presente no sarau.

Nossos sangues escorrem em fluxos menstruais que também são fluxos quando não vencemos a luta contra o feminicídio que assola, abate em um solo nada gentil.
Não me venha com flores mortas cheirando à segregação. Venha com punho cerrado para marcharmos em luta até que nenhuma mulher tenha seu sangue jorrado.
Dia de luta é todo dia

Trecho do texto “Que nenhuma mulher tenha seu sangue jorrado”, de Jesuana Sampaio, poeta, pedagoga social, artesã e integrante da Escola Feminista

Mulheres em rede e de olho no futuro

“A Escola Feminista Abya Ayla abriu meus horizontes para tudo que eu procurava e não encontrava em Brasília e entender o que é o feminismo periférico de fato. Estou aprendendo muito com essas mulheres maravilhosas”, relatou Larissa do Nascimento Gonzaga, de Ceilândia, Distrito Federal, que trabalha como produtora cultural e coordena a Rede em Poder Delas.

Com 174 mulheres empreendedoras, a rede facilita o acesso em grandes feiras, negocia menores taxas para participação e oferece atividades formativas como oficinas de gestão financeira.

Larissa entregou os folhetos para as passageiras que saíam da estação Capão Redondo. “Algumas mulheres que eu abordei pararam outras não, muitas com olhares já de cansaço. As que conversei expliquei sobre a Escola e elas se interessaram. Esse espaço foi muito importante”.

Já Iara Mara Silva de Souza foi acompanhada da filha Elis Souza Zanatta, de 05 anos, que cantou ao microfone a cantou a música “Debulhar o trigo”, de Milton Nascimento. “Ela participa de todos os espaços comigo, de discussão feminista, manifestações culturais que valorizam a identidade e nossa cultural (…) Eu não forço a barra. Eu proporciono que ela esteja nos espaços e esse desenvolvimento parte dela”, explicou.

O feminismo começa em casa, com nossas filhas, nossas irmãs, nossas vizinhas. Moradora do Piraporinha e professora de História, Ligia Harder lembrou que a sororidade (ou apoio) precisa existir entre as mulheres. E reforçou que não precisamos de muito. “A gente quer ficar bonita, quer cuidar do nosso cabelo, quer cuidado, quer ter saúde, quer ler, quer respeito. Vocês acham isso muito?”

Realizado com apoio do grupo Flores pela Democracia e Marcha Mundial das Mulheres, o sarau foi organizdo por professoras, educadoras populares, integrantes de movimentos socioculturais, poetas, donas de casa e jornalistas como eu, que escrevo essa reportagem.

Acho justo dizer que sou também integrante da Escola Feminista Abya Yala, mas como represento e escrevo para um jornalismo de quebrada que tem como princípio fomentar uma sociedade sem machismo, racismo e LBGTfobia, me vejo dentro da ética da profissão para relatar esse movimento. 

Para fechar o sarau, Helena Silvestre lembra a todos presentes que “tem lugar no nosso feminismo para todas, inclusive, para nossas irmãs transsexuais e travestis”, que também sofrem com o machismo e tem dados alarmantes de não garantia de vida. O Brasil é o país que mais mata transsexual no mundo, de acordo com a ONG Transgender Europe (TGEU). 

Centenas de mulheres e também homens foram impactadas pelo Sarau. Muitas pararam e ficaram até o final. Outras não se permitiram parar ou não quiseram. Alguns olhares de reprovação também estiveram presentes. Muitas histórias foram compartilhadas e acolhidas naquela noite. Nunca será possível dar conta de todo o significado de uma ação como essa, mas uma coisa é fato: a volta para casa foi diferente na última sexta-feira para quem desembarcou na estação Capão Redondo

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