Vem pra rua: pelo passe livre e o progresso das quebradas

Esta segunda-feira promete ser histórica. Milhares de pessoas devem ocupar o Largo da Batata, em Pinheiros, após a manifestação pelo passe livre no transporte público de São Paulo ser covardemente reprimida pelo Estado por meio da Polícia Militar.

Mais de 200 mil pessoas confirmaram presença pelo Facebook em um protesto que, hoje, não deve ser apenas pelos R$ 0,20 a mais nas tarifas. Fala-se muito da violência estatal, mas também há quem vá às ruas demonstrar insatisfação com causas concretas como saúde e educação, e outras mais vagas e complexas como corrupção.

O que notamos é que um movimento libertário tem merecido apoio dos representantes mais reacionários da sociedade. A grande mídia, que rotulou os manifestantes como vândalos há uma semana, mudou de opinião após provar de seu próprio veneno. Estadão, Folha, Veja, Arnaldo Jabor, Datena e companhia estão sendo sinceros ou tentam recuperar a imagem desgastada? E o que dizer de jornalistas claramente governistas, como Paulo Henrique Amorim?

Com quase duas décadas de governo do PSDB no estado de São Paulo e a reconquista da prefeitura da capital pelo PT, que está há 10 anos no governo federal, notamos primeiro uma tentativa de desqualificar o movimento. Agora, o que acontece: uma tentativa de cooptar os manifestantes.

Por isso, o Periferia em Movimento vem a público afirmar a posição diante desse momento que estamos vivendo.

Nós estivemos presentes nos últimos protestose temos razões para isso. Como dito em outra oportunidade, R$ 0,20 são suficientes para qualquer cidadão sair às ruas. Mais de 30 milhões de brasileiros deixam de usar o transporte público por não conseguir arcar com as despesas. Em um mês, os gastos com as passagens dão quase R$ 400, mais da metade do salário mínimo. Além disso, uma reportagem do UOL mostrou que muitas pessoas com baixa renda estão pulando refeições para poder pagar o busão. R$ 0,20 são importantes, pô!

Mas, como também já foi dito, não é só isso. É muito mais. Protestamos pelo direito à cidade e por tudo que podemos dela usufruir – ou deveríamos.

Como coletivo formado por moradores de bairros periféricos de São Paulo, vivenciamos diariamente como é contar com poucos e maus serviços públicos, sem o apoio da mídia e com o estigma da pobreza e da violência. Muitos de nós, moradores de periferia, somos filhos e netos de migrantes que não conseguiram se estabelecer nas regiões centrais ou foram expulsos do centro, que ficou caro demais para viver.

Somos mais de 8,5 milhões de pessoas nas quebradas de São Paulo, segundo o Ipea, e mais de 60 milhões em todo Brasil, segundo a Serasa Experian. Ascendemos financeiramente nos últimos anos, integrando a chamada classe C. Nossa vida teve uma melhora com o acesso ao consumo. Mas isso é pouco. Do lado de fora de casa, o esgoto ainda corre a céu aberto, o caminhão de lixo não passa, os ônibus e trens continuam lotados, os postos de saúde não têm médicos, o sistema de ensino não fala nossa língua e nosso povo tem poucas opções de lazer, cultura e esportes.

Mesmo quem pode pagar convênio médico, escola particular ou tem carro para circular pela cidade não tem como estar satisfeito. No trânsito, ficamos presos de 3 a 6 horas por dia. O braço do estado que chega a nós é a polícia – a mesma que tem aval para matar indiscriminadamente a juventude pobre e negra das quebradas é a que assustou os cidadãos de classe média semana passada. Resumindo: falta cidadania.

Na lacuna deixada pelo Estado, nosso povo se mobilizou e criou alternativas próprias. Movimentos de luta por moradia fizeram história em Heliópolis, no Grajaú, no Campo Limpo ou na Zona Leste. O hip hop salvou milhares de vidas nos anos 90 e deu origem a uma geração de escritores que hoje promovem mais de 50 saraus e publicam livros nas quebradas. Temos mais de 9.000 coletivos culturais em atuação nas periferias de São Paulo.

A luta não acabou, entretanto. Pelo contrário. E o movimento contra a tarifa dos transportes é importante por isso. Nas últimas décadas, houve o deslocamento do centro da região da Praça da Sé para a avenida Paulista e, posteriormente, para a região entre Pinheiros e a Berrini, influenciando a questão imobiliária no entorno.

Em entrevista concedida recentemente pelo sociólogo Tiaraju D’Andrea para o Periferia em Movimento, ele notou os principais fatores determinantes do que é periferia e centro em uma cidade são o tempo e o espaço. O lugar onde está localizado um empreendimento (casa, comércio, posto de trabalho, escolas, estabelecimentos de saúde, etc) determina o valor daquela área e todos anseiam por morar ali. É a especulação imobiliária. Mais importante do que o espaço é o tempo. O que um cidadão gasta entre sua residência até o local de sua atividade (seja para trabalhar, estudar ou se divertir) diz se ele é morador de periferia ou do centro.

Tempo e espaço, na cidade de São Paulo, são fatores geradores de desigualdades sociais. Por isso, nossa luta maior é pelo progresso das quebradas, de forma consciente, com a participação da população e sem brecha para especulações mercantilistas. Enquanto isso, brigamos para ter acesso à cidade. Descatracalizar o sistema é o primeiro passo.

Nos encontramos nas ruas!

Quando: hoje, 17 de junho de 2013, às 17hs.

Onde: Largo da Batata, Pinheiros – ao lado da estação Faria Lima do metrô

Por que: para lutar por direitos

Mais informações: https://www.facebook.com/events/388686977904556/?fref=ts