Por Thiago Borges

Fotos por Gelson Salvador/Graja na Cena e Gustavo Revaneio

“Nosso trabalho é aglomerar. Criamos espaços que possam ter muita gente”. Dessa forma, a educadora Estela Cunha começa o balanço desse 2020 complexo em vários sentidos. Ela faz parte do Imargem, coletivo de graffiti que é uma das 9 iniciativas que compõem a UniGraja – Universidade Livre Grajaú, que após 2 anos de experimentações e reflexões pretendia articular escolas, organizações, ambientes autônomos e as ruas para potencializar a região Extremo Sul de São Paulo como um território educador.

Porém, a pandemia de coronavírus e o distanciamento social imposto como medida para evitar o contágio frearam os planos. “Aquilo que já era complicado executar numa situação mais normalizada ficou mais complicado ainda na pandemia”, aponta Wellington Neri, o Tim, que também faz parte do Imargem.

“O sentido da Unigraja esta justamente em desenvolver atividades nos espaços livres, ruas, praças, vielas…”, continua Gelson Salvador, artista e produtor audiovisual no coletivo Salve Selva e no Graja na Cena.

A rede de coletivos teve que dar um novo significado para o lema “a quebrada é a nossa sala de aula” – e a Periferia em Movimento explica nesta reportagem.

A UniGraja nasce da união de iniciativas socioculturais da região Extremo Sul de São Paulo para articular e estruturar uma rede de pesquisa e ação de caminhos possíveis para quem quer transformar a realidade e viver com o que a quebrada tem a oferecer. São eles: Agência Cresce, Casa Ecoativa, Cooperpac, Graja na Cena, Imargem, Meninos da Billings, O que cabe no meu prato?, Periferia em Movimento e Salve Selva. A rede tem como objetivo articular os agentes do território para contribuir, fortalecer e fomentar o Grajaú como uma “quebrada educadora” autônoma, tendo como base a valorização dos saberes ancestrais, contemporâneos, populares, econômicos, políticos, bem como o científico; o menor impacto ambiental; e a produção e o compartilhamento do conhecimento.

Pedagogia das urgências

O sentido de aprender com as ruas vai se fazendo ao longo dos meses. Isso porque as urgências do desemprego, da fome e da necessidade de preservar a saúde bateram à porta da UniGraja – e não tem planejamento que resista a isso. É preciso se adaptar.

Logo no início da pandemia, a UniGraja articulou, recebeu e doou cestas de alimentos para cerca de 900 famílias da região. Depois, outras quase 300 famílias receberam mais do que cestas básicas: também acessaram kits de higiene, alimentos orgânicos produzidos por agricultores locais, máscaras de tecido feitas por costureiras da região um zine informativo sobre prevenção e técnicas para o dia a dia.

“Quando não faltava alimento, faltava gás. Quando não era gás, era água. E assim por diante”, nota Estela. “Por isso, uma das primeiras ações da UniGraja foi criar zines informativos para trazer algumas técnicas que poderiam contribuir para as pessoas construírem nas suas casas, como um fogão a lenha feito com galão de tinta ou uma cisterna para captar água da chuva”, explica.

“Durante nossas trocas em rápidas conversas nas entregas de cesta básica, entendemos que só pensando em autonomia e educação iríamos sair do lugar em que estamos”, completa Estela.

Tim observa que a adaptação foi pensada nas prioridades do momento, seja na doação de alimentos ou na relação da educação nas potencialidades do território, como as artes e a comunicação. Para Estela, o maior desafio foi pensar como chegar a pessoas que não têm amplo acesso à internet.

Por isso, a UniGraja bolou uma estratégia que mescla meios on-line e off-line para abordar 3 temas presentes em 2020: a pandemia de coronavírus, as eleições municipais e, obviamente, como gerar um território educador.

As ações previam desde rolês de bike para conscientização e distribuição de materiais, produção de zines e murais de graffiti e lambe-lambe até transmissões ao vivo e a produção de um jogo de tabuleiro.

Nas ruas, com distanciamento

Diferente dos 2 últimos anos, em que a UniGraja aglomerou 3,3 mil pessoas em diferentes oficinas, feiras e encontros no Grajaú, neste 2020 as ações nas ruas prezaram pelo distanciamento social.

Estela e Kim Alecrim, de O que cabe no meu prato?, produziram 3 zines – sobre eleições, água e bem estar e racismo ambiental. Com ilustrações de artistas diversos, como Marla Rodrigues, Lucas Luciano, Alex Zudão, entre outros, as 900 cópias foram estrategicamente distribuídas por um veículo de comunicação, literalmente falando: a bicicleta.

Tim, do Imargem, pedalou por diferentes pontos da região, como a saída do terminal de ônibus, o Centro Cultural, parques e feiras livres. “A bicicleta é muito estratégica enquanto veículo de intervenção urbana”, diz ele.

Parada ou em movimento, a bike serviu como catalisadora de informações. Além dos informativos impressos, também foi equipada com uma caixa de som que transmitia podcasts como o Pandemia sem Neurose e outros, que abordam temas como o combate ao coronavírus, além de músicas de artistas da quebrada.

Bike foi estratégia para distribuir zines informativos, revistas e tocar podcasts e músicas de artistas da quebrada

“Nas saídas de bike, a gente priorizou a segurança, mascara, alcool em gel”, ressalta Paolo César Vieira, que participou pela Casa Ecoativa de um rolê de bike. “Estar junto é a coisa mais importante para fortalecer uma ação coletiva”, completa.

Já os graffitis têm a intenção de despertar os sentidos de quem vê. Nessa frente, Tim e seu irmão e também artista Mauro Neri intervieram sobre cartazes de campanhas eleitorais em muros da avenida Teotônio Vilela. A ideia era provocar uma reflexão sobre a poluição visual que toma conta da paisagem durante as eleições.

E o Salve Selva elaborou um mural inspirado no movimento hip hop na avenida Dona Belmira Marin. Agora, os 2 coletivos articulam com outros ateliês artísticos uma intervenção conjunta no território. E pra encerrar o ano, o Imargem e o Salve Selva também preparam com o Ateliê Daki, o Ateliê Aguila e O Corre Coletivo a colagem de cerca de 200 lambes pela região.

“Fazendo as intervenções com graffiti e lambe-lambe observamos muitas reações positivas devido ao impacto visual”, aponta Tigone, artista e produtor musical do Salve Selva. “Foram geradas reflexões nas redes sociais e muitas trocas sobre o momento político em que estamos vivenciando e como a quebradas estão mais atentas a essas questões”, diz.

Para Gelson Salvador, que também é responsável pela captação audiovisual das atividades, registrar as ações da UniGraja tem sido um desafio. “Uma reflexão que me veio, foi a que o registro desse ciclo precisava minimamente cumprir a função de capta o espirito da vivência e não somente a foto ou o vídeo”, nota.

Nas redes, aprofundando as conversas

Em uma série de transmissões ao vivo em sua página no Facebook sobre diferentes temas, a UniGraja conseguiu aprofundar algumas reflexões iniciadas nos anos anteriores.

“Se por um lado deixamos de dialogar com algumas pessoas que só seria possível nas ruas, por outro conseguimos conversar com quem só seria possível mesmo pelas redes virtuais”, avalia Gelson Salvador.

Para Valquiria Candido, da Cooperpac (Cooperativa dos Catadores Seletivos do Parque Cocaia), organizar as lives foi importante para manter viva a essência da cooperativa. Os trabalhos das catadoras foram paralisados durante a pandemia e, rapidamente, elas incorporaram videochamadas e encontros virtuais para seguir trocando com outras cooperativas.

“Toda e qualquer informação é importante. Às vezes presencialmente não tem tanta oportunidade de troca como teve agora na pandemia”, diz Valquiria. A Cooperpac fez 2 lives sobre território educador e educação ambiental pela UniGraja – uma delas com Helena Novais, presidente da cooperativa; e outra com dona Cida Preta, moradora referência no Jardim Lucélia.

Para Tim, que também participou de algumas lives, esses encontros virtuais possibilitam trocas em outros formatos. “A gente fica muito nosso bairro, e é importante entender o que acontece em outras pontas da cidade, do Brasil e do mundo”, completa.

A UniGraja também discutiu temas como produção musical nas periferias, arte urbana e territórios educadores, gênero e resistência LGBT, aprendizados possíveis com a represa e reflexões sobre as eleições municipais em São Paulo.

Veja abaixo a conversa que rolou em 30 de novembro, com a jornalista Jéssica Moreira, do coletivo Nós, Mulheres da Periferia; e a vereadora eleita Luana Alves, do PSOL.

Os aprendizados

Ainda neste 2020, a UniGraja desenvolve um jogo de tabuleiro que tem o Grajaú como mapa e os coletivos, escolas e outros espaços educacionais da região como fases. A ideia é circular o jogo entre estudantes locais no próximo ano.

Apesar de todas as dificuldades, o grupo avalia que foi importante seguir atrás do objetivo principal.

“Levando em consideração o contexto atual e as demandas que cada indivíduo teve que lidar durante todo processo, acredito que estamos fechando um ciclo com muitos ganhos”, diz Gelson. “Conseguimos fazer e pensar mesmo sem os contatos presenciais, nos apoiando na medida do possível”, complementa Tigone.

Para Estela, a UniGraja segue o curso de todo processo educacional, que é uma construção. “Ele sai de uma ideia para a tentativa de realização. Por isso todos os passos, conversas e criações foram muito importantes para o entendimento que estamos tendo hoje, tendo como objetivo geral a criação dessa quebrada educadora”, conclui.

As atividades da UniGraja em 2020 foram patrocinadas pela Fundação Casas Bahia

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