(Foto: Thiago Borges/Periferia em Movimento)

Uma visita ao Pagode da 27

Esta matéria foi originalmente publicada no blog Movimento Escolar, criado por participantes do Programa Escola Livre
No dia 14 de outubro, iniciamos o módulo de Cultura no Programa Escola Livre. Falamos sobre cultura erudita e popular e, a partir dessa conversa, conheceremos a cultura que está no centro e em nossa região.

Visitamos o grupo Pagode da 27, que se reúne e se apresenta há 8 anos na rua da 27 no bairro do Castro Alves. O Grupo tem participações ilustres e uma platéia diversificada.

Vale ressaltar que a linha de trabalho do grupo é o samba e tem o nome“Pagode da 27” por que no dicionário, o significado de “pagode”  é uma reunião de amigos, e não gênero musical.
Para as reuniões na comunidade, o  grupo conseguiu  autorização da Prefeitura para fechar a Rua 27 nos dias de domingos e feriados, como rua de lazer.
As mensagens que suas letras carregam, são temas do cotidiano, da periferia, seja de uma vizinha fofoqueira, ou de um garoto que tem um sonho. O grupo já teve oportunidade de se apresentar em diversas cidades, devido ao destaque que vem adquirindo.
Para quem vai a suas apresentações, eles pedem a colaboração de apenas um quilo de alimento não perecível, para darem continuidade a ação social no qual representam.
Nasceram na mesma época que o fundo de quintal, que passou a ser uma influência, dentre Beth Carvalho e  Zeca Pagodinho…
Não imaginavam tamanho sucesso, até mesmo no exterior, mas se sentem gratificados por saberem que a música tem esse poder de atingir  tantas  pessoas, até mesmo o jogador Luisão que hoje joga no Portugal. Um dos integrantes afirma que não sabe ao certo como chegou aos ouvidos do jogador, mas, através da música, ganharam uma amizade e mais uma participação em suas rodas de samba.
Começamos a conversar com o Jeferson Santiago (32) e Ronaldo Brasil (30), ambos sem formação acadêmica. Jeferson é integrante do grupo desde o inicio e Ronaldo passou a ser integrante há  3 anos.
Thaísa Nascimento: Como Surgiu a inciativa do “Pagode da 27”?

Jeferson Santiago: 
Não existiu uma iniciativa, sempre fizemos roda de samba, aqui no Grajaú e devido a essas rodas, percebemos que poderíamos montar um projeto pra trazer benefícios para a comunidade.
T.N: Temos um exemplo de sucesso na região que é o Criolo, e logicamente o pagode da 27. O que representou para vocês se apresentarem em uma das maiores emissoras brasileira de TV, a globo, no programa esquenta da Regina Casé?

J.S: 
Na verdade Criolo é amigo particular meu, devido termos crescido juntos.
E foi batendo um papo sobre música, ele no Hip-Hop e eu no samba, conversando sobre a correria do dia-a-dia eu o chamei ele pra visitar o projeto e participar, e ele se apaixonou e percebeu que aqui é um movimento cultural e social, e de lá pra cá, houve uma parceria muito bacana. E na questão de se apresentar para o programa da Regina Casé, na Globo. Isso foi uma coisa que nem pensávamos e nem tínhamos a pretensão, mas foi algo super natural.
T.N: Em meio a tantas conquistas, vocês têm outros objetivos a serem alcançados?
J.S: 
Sempre tem objetivo, sempre temos. Como já te disse, não tínhamos a “pretensão” nem de gravar um disco e hoje já temos 2, já recebemos convite para gravar DVD e acho que o objetivo maior hoje é atingirmos o maior números de pessoas com nossas músicas e passar a mensagem que há em nossas letras.
T.N: Como a comunidade recebe o pagode da 27? Enxergam como uma cultura popular? Respeitam e participam?
J. N: Sim, e nisso temos que agradecer. Demorou um pouco para que as pessoas pudessem perceber que é um beneficio para a comunidade. Porque às vezes você não precisa sair da região do Grajaú para poder curtir algo de qualidade, pois aqui vêm até crianças, idosos e é um ambiente bem familiar e hoje a galera está com a consciência de que é um projeto social e respeita e pensa: “vou lá realmente para curtir, pra escutar alguma coisa e para agregar em mim”.
Lealdade e respeito
Para permanecerem unidos, os integrantes valorizam a lealdade e o respeito, pois acreditam que trabalhar em grupo é isso. E para continuarmos com nossa entrevista, chegou mais um integrante, que é Ricardo Rabelo (39) . Músico e compositor do pagode da 27, um dos fundadores.
A gravação de um CD foi basicamente à realização de um sonho, e as musicas que entraram é de autoria de pessoas da região. E segundo Ricardo, é uma realização para o compositor, e para a “quebrada”, e também como se fosse um cartão de visita.
Além de abordarem o cotidiano em suas músicas, ainda passam uma mensagem positiva por que se não há essa mensagem, automaticamente, o próprio povo rejeita, pois são carentes de informação, carentes de cultura e então de certa forma, se não há mensagens legais, o povo já deixa de lado.
Quando alguns compositores têm a vontade de apresentar seus trabalhos antes da roda de samba, eles trabalham com esses compositores para uma avaliação e até mesmo para um crescimento profissional do interessado.
Durante o bate papo, os demais jovens do Programa Escola livre também interagiram com algumas perguntas.
Ricardo nos conta que eles já cantaram para o Caetano Veloso em sua casa. Acrescentou que Caetano os elogiaram, pois é para ele uma das melhores músicas que homenageiam São Paulo, a música é a “Pauliceia minha vida”.
Na festa de 8 anos, foram contemplados com 3 mil pessoas e conseguiram arrecadar em média 1 tonelada de alimentos, que foi destinada a uma aldeia indígena que esta localizada em Parelheiros.
Se sentem realizados como músicos, pelo progresso que já tiveram tendo a certeza de que a música vai muito mais além do que eles possam imaginar.
Simplesmente passam para a periferia o que aprenderam da periferia, um reflexo do que a comunidade produz e também do que ela ofereceu de apoio, e a presença dessas 3 mil pessoas foi muito significativo e mostra que eles são representados.
Rabelo nos acrescentou que são nada mais que agentes multiplicadores, aprenderam muito na periferia, e sente na obrigação de repassar suas bagagens. Até mesmo as coisas ruins, que nos fazem refletir para qual caminho a seguir.
Como prova de que a cultura pode partir da periferia, o grupo sempre é convidado  para se apresentar em diversos espaços da cidade, como o SESC, livrarias Senac e FNAC e outros.Mas, ainda encontram preconceito, pois existem pessoas que deixam de ir ao Samba por se localizar em uma rua da periferia. Há o preconceito ou talvez o medo…
 
Entrevistas: Thaisa Nascimento e Adriano Santos
 
Filmagens: Israel Dantas e Valdeane Lima
 
Fotos: Israel Dantas, Elisângela Duarte.