“Trabalhar com arte transforma o meio em que se vive”, diz morador do Jardim Gaivotas

Salve, periferia!

Os fantasmas do massacre sangrento do povo pobre das periferias de 2012 ainda perambulam no início deste ano. A matança generalizada que assistimos no ano passado – e da qual somos vítimas, pois muitos perdemos pessoas queridas – continua, mesmo com a troca de comando na Secretaria de Segurança Pública de São Paulo.

Em 2013, damos continuidade ao movimento que começamos no final do ano passado colocando a nossa arma no meio desse conflito: a informação. Estamos entrevistando moradores de bairros periféricos para traçar um panorama fiel do que está acontecendo. Se existe uma guerra, deve haver uma resistência. E nossa resistência é pacífica, mas não pode ser silenciosa. Somos 8,5 milhões de moradores nas quebradas paulistanas!

Hoje, trazemos o exemplo de resistência pacífica de Paulo Henrique Sant’Anna, jovem de 26 anos que mora no Jardim Gaivotas, extremo Sul de São Paulo. Paulo é ator e um dos fundadores da Companhia Teatral Identidade Oculta.

VIOLÊNCIA

“Eu nasci na favela Sucupira (Grajaú), com pouco mais de 05 de idade mudei para o Jardim Gaivotas em tempos de barracos de madeira, estradas de barro, caminhão pipa e apagões no meio da noite… Costumo dizer que naquela época a criminalidade se resumia da seguinte forma: “Matavam um hoje e deixavam o outro amarrado para garantir o do dia seguinte”… cansei de ver o Gil Gomes! Por diversas vezes na minha inocência de moleque eu saia para ver os “presuntos” espalhados pela quebrada. Meu pai tinha um bar e boa parte de minha infância passei atrás do balcão, em boteco de bairro se vê de tudo, se ouve de tudo! Muitos amigos de infância se perderam no caminho da “vida loka”… Um desses amigos estava jogando bola no campinho de barro que existe embaixo das torres até, saiu do campinho passou por mim e por outro amigo – paraplégico por conta de um tiro – ele nos cumprimentou e em menos de 05 minutos vejo a correria na rua as pessoas chorando, gente gritando, foi quando alguém chegou e disse “Mano acabaram de matar o A!”.  Não acreditei e fui ver para ter certeza, vi na vida real a imagem antológica do filme O Poderoso Chefão; a mãe desse amigo o segurava nos braços com um choro mudo de dor, enquanto seu irmão mais velho tentava dar a partida em um Chevette velho”.


MINHA RESISTÊNCIA

“Sou ator, fui um do fundadores de uma companhia de teatro que atua no bairro e fundar algo que trabalhe com arte acredito que já seja um ato bastante simbólico para a transformação do meio em que se vive. Tenho um projeto de contação de histórias com o qual realizo apresentações no bairro onde moro e em outros bairros. Participei durante 10 anos do Evento Pela Paz no Grajaú. Como educador tento todos os dias auxiliar as crianças e adolescentes na elaboração de um projeto de vida, na construção e exercício da cidadania”.