O sujeito periférico é o indivíduo nascido e criado em uma periferia e que, a partir do entendimento dessa condição social e influência de ações culturais (do RAP aos saraus), passa a agir politicamente pra mudar sua própria realidade. Isso é o que defende a tese de Tiaraju Pablo D’Andrea, 39 anos, ele mesmo um “sujeito periférico” que agora age contra os cortes do governo de Jair Bolsonaro na educação.

Nesta quarta-feira (15/05), outros milhares de estudantes, pesquisadores e trabalhadores da educação em todo o Brasil saem às ruas para protestar contra a medida anunciada no final de abril pelo ministro da Educação, Abraham Weintraub. A tesourada nas universidades e outras instituições de ensino federais congela 30% da grana para despesas não-obrigatórias, como luz, água, internet e serviços terceirizados.

Criado em Itaquera, na Zona Leste de São Paulo, Tiaraju é fruto da educação pública e atravessou pontes em busca de conhecimento. Para entender melhor a realidade à sua volta, ingressou na Universidade de São Paulo (USP) em uma época em que os periféricos eram apenas 3% dos matriculados. Enfrentou preconceitos e graduou-se em Ciências Sociais, fez mestrado em Sociologia Urbana e doutorado em Sociologia da Cultura pela mesma instituição.

Com pós-doutorado em Filosofia com estágio de pesquisa na Universidade Paris-VIII, na França, desde 2018 Tiaraju é professor de Sociologia Urbana e Sociologia Cultural no Instituto das Cidades – o campus da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) na periferia da Zona Leste. “Sou um oriundo das periferias que conseguiu virar professor de universidade federal. Eu sou uma espécie de caso raro com outros poucos colegas”, diz ele.

A Unifesp da ZL é resultado de uma luta que vem desde a década de 1980. E nos anos 1990, movimentos sociais visitaram universidades públicas para reivindicar sua implementação em uma região com mais de 4 milhões de habitantes. Em 2011, por determinação da então Presidenta da República Dilma Rousseff, a Unifesp iniciou a expansão no Estado. Nos anos seguintes, com audiências públicas, seminários e workshops, formulou o Instituto das Cidades para abordar crises recentes e pesquisas soluções para mobilidade, água e saneamento, moradia, violência, entre outros.

Aprovado para funcionar em Itaquera, na prática o campus ainda não existe. “A gente precisa de recursos pra virar um campus de verdade. E a partir do governo Bolsonaro, piorou a nossa situação porque a perspectiva de chegar recurso pra construir já era muito pequena, e agora ela quase nem existe”, explica Tiaraju.

O temor é de que as atividades na ZL sejam paralisadas e os professores transferidos para outras unidades. “A gente era o último da fila, e com os cortes é capaz do governo sacramentar o fim do nosso sonho de ter uma federal na Zona Leste”, aponta.

Tiaraju lembra que é importante a região se mobilizar por esse campus e contra os cortes na educação pois isso “tá impedindo o desenvolvimento mais democrático na sociedade”, diz.

“Quanto mais cortes você tem na educação pública, mais está transformando a educação em algo mais elitizado, pra quem pode pagar”, aponta ele, que defende recursos em todos os níveis, do básico ao superior, e principalmente nos territórios periféricos. “O corte desses recursos significa continuar reproduzindo ciclos da nossa pobreza e aprofundando a desigualdade social”, completa.

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