Por Tainá Medeiros*

Foto de capa com Lana de Souza, do Coletivo Papo Reto (RJ), em 2017

Ligar a televisão é para mim, ainda hoje, mergulhar em um grande exercício de percepção da diferença e dos contrastes. Passear pelos canais é me deparar com a presença constante de um grupo seleto de rostos, ideias, opiniões e vozes brancas, quase sempre de homens ricos, que determinam qual informação ou conteúdo chegará até nós, quais assuntos são importantes ou não e como se deve falar e pensar sobre cada um deles.

Ter consciência do quanto isso é problemático é necessário, mas isso não nos livra do imenso desconforto e da indignação de não nos reconhecermos propositalmente em nada daquilo. Vemos diariamente o quanto a mídia ainda se constitui em um espaço extremamente excludente em relação ao povo periférico, utilizando-se dele como assunto, apenas quando lhe convém.

Aqui, quando me refiro à periferia, é importante dizer que tento ir além da construção mais geral do termo que o coloca em lugar de oposição ao “centro” em relação às condições econômicas, ao acesso a serviços básicos, à infraestrutura, entre outros fatores. Considero que além de todas essas características que já conhecemos, a periferia, acima de tudo, tem cor. Negros são maioria nas periferias das grandes capitais e centros urbanos, e os indicadores sociais que essa condição gera, nos permite tratar negros e periféricos praticamente como sinônimos.

A desigualdade no Brasil tem um caráter estrutural que alimenta a manutenção de uma supremacia branca, que expulsa as populações não-brancas para as margens (geográficas e simbólicas) da sociedade, deixando-as desassistidas e desamparadas. Exemplo dessa situação é indicado pelo Mapa da Desigualdade de 2018 que mostra que enquanto uma pessoa que vive em Moema tem expectativa de vida de 80 anos, no Grajaú o número cai para 58 anos. Além disso, a mesma pesquisa mostra que os bairros de maioria negra têm em geral os índices mais baixos de expectativa de vida de seus moradores.

Em algumas faces desse problema, as mídias têm responsabilidades fundamentais para mudarmos radicalmente essa realidade. Recentemente o coletivo do qual faço parte, o Lójúkojú, realizou uma pesquisa sobre o perfil das pessoas entrevistadas em 2 grandes programas da televisão brasileira: Roda Viva, da TV Cultura; e Conversa com Bial, da Rede Globo. Os resultados não trazem nenhuma surpresa ou novidade, mas mesmo assim nos impactam. Homens brancos são maioria nas entrevistas, mostrando que para a mídia vozes brancas importam, mas vozes negras e indígenas não importam tanto assim.

No primeiro deles (Roda Viva), nos últimos 4 anos, 92,21% das pessoas entrevistadas eram brancos (as). Já no segundo (Conversa com Bial), homens e mulheres brancas representaram mais de 80,12% de todas as pessoas convidadas desde o início do programa.

Além do nosso levantamento, há diversas outras pesquisas que já apontaram cenários parecidos em outros espaços da mídia como o jornalismo, o cinema, a literatura, entre outros. Um levantamento de 2015 do DIEESE, instituto voltado para a realização de pesquisas sobre o trabalho, mostra que apenas 22% dos jornalistas com postos formais de emprego são negros.

Outro ponto fundamental que deve ser destacado na pesquisa que o Lójúkojú realizou foi a participação praticamente inexistente de pessoas com deficiência. Esse grupo, que reúne quase 25% da população brasileira, também é marcado pelo silenciamento e pela exclusão em toda a grande mídia.

Estrutural

Estes são apenas alguns exemplos de um panorama maior que prova como os meios de comunicação de nosso País ainda refletem profundamente as desigualdades e o racismo estrutural da sociedade brasileira. Essa ausência gritante de pessoas não-brancas na mídia é um contraste brutal com a composição de nosso País, que segundo o IBGE hoje é composto por 56,10% de negros, 42,7% de brancos e 1,1% de indígenas e amarelos.

A sobrerrepresentação de pessoas brancas nos meios de comunicação por si só já representa um grande problema na democratização do acesso a esses espaços, mas além disso acaba influenciando os conteúdos que serão produzidos e difundidos pelos veículos. Talvez aí esteja a grande questão que a reivindicação por representatividade deva verdadeiramente mobilizar: nossa presença é fundamental, mas além disso ela precisa se refletir na possibilidade de construção de um outro discurso sobre nossas realidades, que seja pensado, construído e dirigido por nós e para nós.

Enquanto mulher negra, noto que os poucos momentos ou espaços a nós reservados na mídia na maioria das vezes se restringem aos debates gerados nos meses de maio e novembro, ou então quando eclode algum caso brutal de racismo que envolva violência e brutalidade policial. Apesar desses momentos fazerem parte da nossa realidade, e de ser necessário que façamos parte dessas discussões, é preciso reverter esse processo que nos estigmatiza e nos limita, e que tem interesse em explorar nossas vidas e nossas histórias apenas quando se trata de expor e comercializar nossas mazelas, nossas dores e nosso sofrimento.

Vivência em jornalismo promovida pela Periferia em Movimento

Por outro lado, quando se trata da mídia reconhecer a sua responsabilidade na reprodução das desigualdades e propor mudanças na própria prática, a história é outra. Quando surgem os questionamentos, as respostas são sempre vagas e não vemos um comprometimento real e mudanças concretas na postura, nos discursos e na composição das equipes, por exemplo.

Esses são sintomas do racismo estrutural da sociedade brasileira, que naturaliza as desigualdades e tenta constantemente impor um discurso dominante construído por pessoas brancas, que trabalha para a manutenção de privilégios construídos ao longo de séculos e que, quando reconhece a existência do racismo, a reconhece apenas no outro e não em si mesmo.

Essas condições mostram-se como um dos grandes obstáculos para a transformação do nosso País em um lugar que acolha, respeite e promova todas as pessoas que dele fazem parte.

A representatividade que tanto buscamos só será de fato efetiva quando passar a se aproximar da proporção real que os mais diversos grupos possuem na sociedade, pois sem isso ela se torna apenas um conceito esvaziado e ilusório que representa uma ação ineficiente. Esse caminho é necessário em todos os espaços de prestígio e poder dos quais nós estivemos sempre excluídos.

Pensando novamente na comunicação, vejo que nossa presença é necessária em toda a cadeia de produção de conteúdo dos veículos para que possamos mudar o paradigma do que hoje é produzido, através do olhar e da voz do povo periférico seja ele, negro, indígena, PCD, LGBTQI+, entre outros.

Por outro lado, não é possível deixar de citar iniciativas guiadas pela autonomia em relação à grande mídia e que conseguem subverter essa lógica e ser exemplo de que um dos caminhos, senão o principal, é a criação independente de veículos de comunicação com a missão de preencher essas lacunas abertas.

Organizações como Periferia em Movimento, Alma Preta, Nós Mulheres da Periferia, Rádio Yandê, Notícia Preta, Voz das Comunidades, entre vários outros, são exemplos da possibilidade de sairmos do lugar de meros objetos da mídia tradicional, destacados apenas em momentos seletivos, para nos tornarmos narradores e narradoras de nossas próprias histórias.

Por ora, a alternativa mais efetiva é desenvolvermos nossa autonomia e autogestão para enfrentar as estruturas e narrativas racistas que normalizam nossas mortes.

*Tainá Medeiros é formada em Ciências Sociais na Unifesp e é pós-graduanda em Cultura, Educação e Relações Étnico Raciais pelo CELACC-USP. Ela é integrante do Lójúkojú, coletivo que surge em 2020 movido pelo propósito da pesquisa, organização e disseminação de dados sobre as desigualdades estruturais no Brasil. Lójúkojú vem do yorubá, e significa: cara a cara, abertamente. E é exatamente desta forma, de maneira aberta, que pretendemos encarar e expor cada dia mais as consequências das opressões no País. 

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