“Sou a periferia da periferia dentro de mim”

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O que é centro e o que é periferia? E existem periferias dentro de uma periferia?

Para tentar responder a esses questionamentos, em 2013 o coletivo de comunicação Periferia em Movimento lançou o projeto “À margem da margem”, com o objetivo de investigar esses conceitos e pensar em meios de dar visibilidade a quem está na periferia da periferia.

O primeiro passo desse projeto é a publicação de uma série de reportagens, sendo esta a primeira delas. Para começar, ouvimos alguns leitores do site para entender o que eles pensam sobre isso.

Morador da Alemoa (comunidade de Santos-SP), o empreendedor social Ronaldo Pereira vê diferenças claras entre centro e periferia: enquanto em um as pessoas fazem suas compras e trabalham, na outra elas moram “amontoadas umas nas outras em submoradias, cada uma em seu submundo”, diz ele.

A professora Lucimeire Juventino, de 33 anos, observa que nós, moradores das quebradas, estamos sempre a trabalho do centro, “tendo que carregar esteriótipos que nos são impostos, resistindo a cada dia com nossos escudos periféricos”, diz ela, que vive em Jordanópolis (zona sul de São Paulo). E são nossa cultura e particularidades que “fazem girar a máquina da cidade, enchem os bolsos de terno e custeiam gravata italiana”, conta. 

Ainda assim, ela não considera que viver na periferia seja estar desprovida de direitos. Pelo contrário. “Estar aqui deveria ser uma opção, não condição ou sinônimo de derrota e exploração”, aponta. 

Apesar de morar em Guaianases, periferia da zona leste de São Paulo, a servidora pública Silvia Maria Cândido, 53, nota que há lugares ainda mais periféricos, como Cidade Tiradentes, “onde nada ou pouco acontece”, segundo ela, enquanto o centro é onde tudo circula.

O programador Marcelo Lazaro, 40, vê o lado positivo dessa lacuna. “O centro é onde já tem de tudo estabelecido, e na periferia é onde nascem os coletivos por não ter nada no entorno”, diz ele, que mora na zona sul de São Paulo. “É aí que nascem os maiores talentos”.

Do outro lado da cidade, no Jardim Ângela (zona sul), a estudante Dandara Gomes, 28 anos, vê tudo e ao mesmo tempo nada acontecendo no lugar onde vive. “É um lugar de gente bonita, onde pessoas saem para trabalhar e batalhar pelo seu pão de cada dia”, diz Dandara, que também percebe a segregação em novas classes dentro das próprias classes sociais. “Mesmo dentro de uma periferia, sempre saem várias periferias”.

 

Sentimento

Por decorrência do modo de produção capitalista em que vivemos, a história nos aponta para duas classes majoritárias: primeiramente senhores e escravos, sendo substituídos por empresários e trabalhadores respectivamente”, ressalta o autônomo Rafael Renneberg, 28 anos, do Grajaú.

Ele enxerga além da questão geométrica, em que uma classe dominante criou mecanismos para afastar os trabalhadores das regiões onde moravam – algo que se repete nas próprias quebradas. “E dentro da periferia, existem pessoas privilegiadas que conquistaram ou adquiriram bens e status, e pessoas que quase não têm renda”, observa ele.

Essa periferia da periferia apontada por Rafael, entretanto, não é apenas o local mas a maneira como a pessoa vive. “Não precisamos nos sentir menosprezados por onde moramos, e sim procurar viver bem e aproveitar o que temos de bom”, aponta.

E quando a dicotomia periferia-centro é um sentimento?

Para a também professora Mariana Waldow, 37, essa noção geográfica é profundamente ligada à vivência de cada um. Moradora de Higienópolis, bairro considerado nobre, arquitetonicamente beneficado e bem servido de serviços básicos, ela dá aulas em uma escola pública de periferia e não vive o delírio de um estilo de vida privilegiado.

Faço minha comida, limpo minha casa. Quando saio na rua, vejo violência, preconceito, gente ignorante, excessos irreais, ruas sujas. ‘Meu’ centro é a minha vida. Para mim, a periferia é o shopping center, a mentalidade burguesa que se sente em pessoas da região central da cidade, a ignorância humana”, aponta.

Vila Sônia ou Capão Redondo fazem mais parte do centro de Mariana do que o bairro onde ela mora. “Eu trabalho e convivo com gente que vive longe do centro comercial de São Paulo, e essas pessoas são o centro da minha alma, da minha percepção particular da cidade”, aponta Mariana, cujo estado de espírito não condiz com a localidade onde mora. “Eu sou a resistência da resistência, a periferia da periferia dentro de mim”, diz ela.

 

PRÓXIMA REPORTAGEM:

Não é o espaço, mas o tempo que se leva para acessar o que a cidade tem a oferecer o principal fator para determinar onde está o centro ou a periferia.