Por Danielle Braga*. Foto em destaque: Atividade conduzida no CDCM – Mulheres Vivas, em 2018 / Arquivo pessoal

O Setembro Amarelo é um mês de profunda reflexão sobre o suicídio. Esta cor representa um caso que repercutiu uma campanha realizada nos Estados Unidos, e a OMS usa como exemplo para disseminar mundialmente esta campanha.

Considero bonito este gesto, mas acaba por difundir uma ideia de pensar o suicídio como se os seus fatores estivessem relacionados a um único território, ou a forma de solucionar esta questão se aplicasse por igual, como se as causas fossem as mesmas para diferentes regiões do mundo.

Faço essa crítica, pois de modo geral os casos de suicídio poderiam ser evitados se territorialmente cada população tivesse uma orientação a respeito das causas e fatores que levam ao suicídio naquele território.

O acesso a saúde pública aqui no Brasil é diferente que nos Estados Unidos, onde não há um Sistema Único de Saúde (SUS). Então, se temos acesso ao serviço público, por que a taxa de suicídio no Brasil não é inferior em comparação a países que não têm um SUS?

São pouquíssimos os profissionais de saúde pública nas Unidades Básicas de Saúde (UBS), Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e hospitais públicos. Quando os têm, o atendimento de modo geral é em grupo, muitas vezes pensado e feito entendendo a dinâmica dos profissionais que tentam dar o seu melhor para a população, mas que não consegue dar conta total ou parcial da população.

As causas de suicídio podem ser múltiplas e as taxas de suicídio tendem a aumentar em períodos de crises sociais.

Mas durante a pandemia os fatores estão relacionados ao isolamento social, ao desemprego, ao aumento das taxas e denúncias de violência doméstica, ao aumento de abusos infantis, ao baixo suporte social e político, à dificuldade de acesso a saúde, ao risco de ficar desabrigado, ao aumento de preços para suprimentos básicos e às múltiplas violações de direitos.

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Epidemia de casos

Não entendo como podem falar apenas de suicídio em setembro, já que no início da pandemia tive um aumento de casos.

Me disponibilizei a atender mulheres da periferia de modo voluntário e, em parceria, com Periferia Segue Sangrando, A bordar, Escola Feminista Abya Yala e Escuta Liberta – este último, um grupo de psicólogas (os) que atendem em parceira com o Amparar, organização de familiares de pessoas presas que durante a pandemia sofriam por falta de informações de seus parentes presos.

Ao todo devo ter atendido cerca de 20 a 25 mulheres. Os atendimentos poderiam ser um único acolhimento ou mais de 4 atendimentos, e algumas ainda estão em atendimento.

Os atendimentos eram voltados apenas para mulheres, no meu caso, que de modo geral eram mulheres negras, periféricas, lésbicas, bi, trans e cis. São mulheres de religiões de matriz africanas, evangélicas, católicas e de múltiplas religiões. São mulheres mães, não-mães, estudantes e trabalhadoras que se desdobram para assumir a responsabilidade de suas casas, de suas vidas. E, das que podem pagar pelo atendimento em dinheiro, reservam uma quantia para a necessidade de cuidar de si mesmas, o que é um avanço para as mulheres periféricas.

Acolhi mulheres de diferentes periferias de São Paulo, interior e litoral de São Paulo, de Curitiba, da Bahia. As queixas eram em torno do aumento das crises de ansiedade, violência doméstica e orientação sobre serviços de proteção a mulher e seus filhos.

Bom seria se todas as mulheres tivessem acesso por um período de suas vidas ao atendimento psicológico que vise suas necessidades como uma mulher periférica, que tem em seu território necessidades específicas que alteram seu desenvolvimento quanto sujeita e participante sociopoliticamente.

Danielle Braga (foto: arquivo pessoal)

Sintomas da desigualdade

Em suma maioria, as mulheres que atendi já pensaram em suicídio diante das mazelas sociais presentes. O que é muito preocupante. Saber que diariamente as mulheres não estão tendo perspectiva de vida social sustentável para ela e os seus a ponto de entender que um mundo melhor é um mundo sem elas.

Um dos casos que me chamou a atenção pra pensar a lógica estrutural da clínica terapêutica foi uma mulher que não tinha como ficar sozinha em sua casa, morava em uma casa de ocupação com seus filhos, que fora da escola estava sempre em casa durante os atendimentos.

Não havia possibilidade de pensar com ela uma lógica de setting terapêutico, com silêncio, sem interferências ou em um local reservado. O que ela conseguia muitas vezes é pedir para todos saírem do cômodo, ou ia para a casa de sua mãe. Foi necessário se adequar às necessidades dela, que neste momento é quem necessitava mais de adequação, e não o contrário. Não posso exigir que uma pessoa em sofrimento se enquadre às minhas necessidades, se suas possibilidades não lhe favorecem.

Socialmente discutimos sobre desigualdades sociais em relação a acesso à educação, moradia e outros tantos direitos. Mas ao chegar em uma sala de atendimento essas desigualdades também se apresentam. Como quebrar os muros que distanciam a saúde mental da população periférica? Creio que é estar disponível pra essa desigualdade entendendo que não existe outra forma possível.

Pensar temas como suicídio é relacionar a falta de proteção periférica com os seus, com a falta de apoio e visibilidade do sofrimento causado devido também ao racismo, ao sexismo e à desigualdade de classes, que ficou tão escancarada neste período de pandemia.

Espero, com forte esperança, que a falta e o luto coletivo que ainda iremos lidar diante de tantos nomes que se foram gerem a necessidade de pensar mais espaços, físicos e onlines, voltados para que a periferia possa falar sobre si, sobre seus sentimentos e sofrimentos.

Em tempos tão sombrios como esse, o que nos mantém de pé é o sentimento de solidariedade e o acolhimento empático. Vejo exemplos de tantas outras mulheres que não são psicólogas e que combatem o suicídio, com gestos carinhosos e atenciosos, mulheres como as integrantes do Periferia Segue Sangrando que tanto me ensinam sobre luta, troca e caminharem juntas, e tantas outras iniciativas que vimos ao longo desses penosos meses de pandemia.

Combate ao suicídio não é só uma fita amarela, mesmo sendo importante a lembrança, mas o combate é sempre a ação solidária, é o se fazer presente, “boleta dos zoinho com boleta do zoinho”, que é pra que a Outra saiba que está sendo vista. E, ao ser vista, saiba que não está sozinha.

Axé para todas e que pensem sempre em buscar apoio. No mundo sempre existe uma mão pra nos levantar, por mais que pensemos o contrário.

Danielle Braga (foto: arquivo pessoal)

*Danielle Braga é mãe e psicóloga periférica. Formada pela UNIAN – Campo Limpo, com curso de extensão e aperfeiçoamento em Movimentos Sociais e Crises Contemporâneas à luz dos clássicos do materialismo crítico, ofertado pelo IBEC/ UNESP; Curso de extensão em Marxismo e Psicologia – UNB e em formação em psicanálise pelo Instituto Planação. Atuou como psicóloga na rede sócioassistencial, segmento especial (CDCM- Mulheres Vivas). Experiência com formações e seminários relacionados à violência familiar, sexual, de gênero, raça e classe. Colabora e constrói as redes 8M na quebrada, Periferia Segue Sangrando, Rede Mamas Quebras, Escuta Liberta e Perifanálise. Atua em atendimento clínico somente para mulheres.

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