O que é ser um empreendedor social?

A resposta para essa pergunta muda dependendo das vivências de quem a responde. E foi pensando em trazer a pluralidade desse conceito que nasceu a websérie Pense Grande Sua Quebrada, contada a partir da perspectiva de quatro jovens das periferias de São Paulo.

O projeto foi criado por 5 coletivos de comunicação (Alma Preta, Desenrola e não me enrola, Embarque no Direito, Periferia em Movimento e Agência Mural), que uniram forças para montar um roteiro que cumprisse o papel de democratizar a linguagem e o acesso ao universo do empreendedorismo social.

“Reunimos a proposta do programa Pense Grande da Fundação Telefônica Vivo e pensamos no que fazia sentido para a realidade das periferias”, compartilha Aline Rodrigues, jornalista e representante da Periferia em Movimento.

“Entendemos que todo o processo seria mais significativo se fosse feito em conjunto com os jovens. Muitos não se definem como empreendedores, mas estão sempre em movimento para criar soluções para sua existência em um cenário que não é favorável”, continua.

Para que este objetivo fosse cumprido, cada um dos 5 episódios da série foi produzido e dirigido pelos coletivos de maneira colaborativa. Todo o processo de pré-produção, produção e pós-produção foi realizado no ano de 2019 e contou com a participação de 22 jovens durante as gravações.

A história

Felipe, Carla, Vitória e Ícaro são jovens negros e moradores da periferia da Favela da Tula Pilar. A negritude e o lugar onde moram são apenas um dos fatores que os conectam, já que todos passam por diferentes dificuldades e problemas pessoais que vão sendo trabalhados, individualmente, ao longo dos episódios.

Obstáculos para ingressar no mercado de trabalho, desafios na infraestrutura familiar e acesso à educação, dúvidas sobre o futuro… Tudo isso é levado em conta quando Vitória enxerga a possibilidade de trazer propósito para os jovens de sua quebrada por meio de uma Batalha de Rima. E o que começou como uma simples ideia, acaba por inspirar as juventudes da periferia a expressar suas vozes.

ASSISTA:

Para driblar as dificuldades financeiras, Vitória encontrou um jeito de empreender para se virar. Criou um brechó on-line, onde divulga peças de roupa e faz a entrega pessoalmente para seus clientes. Aos 18 anos, se vê enfrentando um mercado de trabalho que pede por experiências incompatíveis com a realidade da maior parte dos jovens brasileiros de sua idade.

Felipe é um artista. Seu sonho é um dia trabalhar apenas com a música, tornando-se um rapper bem sucedido. Mas a realidade é diferente para ele, que casou muito cedo e trabalha vendendo balas em cruzamentos de farol na cidade para sustentar seus sonhos e a responsabilidade de uma vida a dois. Isso faz com que sobre pouco tempo e recursos para investir na carreira que tanto almeja, deixando em segundo plano seu objetivo de dedicar-se integralmente à arte.

Apesar de seu enorme talento para a matemática e o raciocínio lógico, Ícaro não reconhece seu potencial. O jovem mora com a mãe e perdeu seu pai muito cedo. Ainda sem espaço no mercado de trabalho, Ícaro sente-se inseguro em relação às outras pessoas que encontrará por lá, que julga serem mais talentosas do que ele.

Carla é apaixonada por tecnologia e seu sonho é trabalhar desenvolvendo sistemas e sites. Ela mora com a sua avó materna e trabalha em um comércio para ajudar nas despesas do aluguel da casa. A falta de oportunidade de estudo e as desigualdades racial e de gênero, ainda muito presentes na área de tecnologia, contribuem para ampliar a distância entre seus sonhos e a realidade.

O episódio final mostra o encontro dos 4 personagens em uma batalha de rima.

Coletividade como potência

Para desenhar os personagens e a linguagem da série foram levados em consideração os anseios, as dúvidas e os sonhos dos jovens, pensando o empreendedorismo a partir de suas perspectivas. Até o roteiro de falas foi escrito a muitas mãos, contando com mudanças feitas pelo próprio elenco na hora das gravações.

“As nomenclaturas na série não são tão importantes. A linguagem é a que o jovem usa no dia a dia na periferia. O roteiro é muito original porque é produto dos próprios atores, que fizeram mudanças importantes para que eles e outros jovens se reconhecessem naquelas falas”, conta Maxuell Mello, 24, produtor de conteúdo audiovisual e encarregado pela direção e edição do material.

Equipe durante gravação de episódio

Para ele, a interação e a união da equipe foi o grande diferencial. “A gente montou um time de produção muito unido e humano. Isso fez com que a série andasse. O convívio era muito bom, pudemos fortalecer a conexão que já tínhamos com os amigos e também conhecer outros jovens da quebrada que dividem a vontade de produzir conteúdo e arte. O que fica é esse carinho e admiração”, conta Max.

A trilha sonora que dá o ritmo à websérie é 100% original; Os coletivos contaram com a contribuição de artistas que disponibilizaram as músicas para serem usadas na série.

Thaís Siqueira, jornalista do Desenrola e Não Me Enrola, e Rebeca Motta, produtora cultural e jornalista do Embarque no Direito, concordam que a união das potencialidades e vivências de cada um determinou o tom da série.

“Foi muito interessante ver como toda a equipe estava empenhada em fazer o projeto acontecer. A comunidade tem muito disso: fazer um pelo outro. A gente era mesmo uma grande família”, conta Rebeca.

Já Thaís acrescenta: “O ponteiro do relógio de um jovem morador da periferia vive atrasado há muito tempo, e não é fácil tentar colocá-lo nos mesmos minutos e segundos de um jovem que não vive a mesma realidade. Mas a juventude periférica tem muito talento e ousadia naquilo que faz, o que falta é mais oportunidades e acesso a espaços que são negados a ela”.

(Des)construindo narrativas

“A série vem quebrar o imaginário que as narrativas constroem sobre o jovem da quebrada. Empreendedorismo na periferia vem da sobrevivência e é na busca de meios para contornar essas dificuldades que a gente soluciona os problemas”, diz Thamires Rodrigues, 23, jornalista do coletivo Desenrola e Não me Enrola e também a atriz que interpreta Vitória.

Quando descreve a personagem, Thamires diz que poderia descrever a si mesma. “Ela é uma garota muito pra frente. Tá sempre circulando pela quebrada, tentando arrumar uma solução para os problemas, além de agitar a galera pra pensar junto com ela”, diz.

Luís Lucas, 23, também se identifica com o personagem que interpreta. Apesar de nunca ter atuado antes, o jovem jornalista do Jardim Ângela diz ter se sentido muito acolhido, o que ajudou a tornar a experiência mais natural. “Assim como o Ícaro, eu também perdi meu pai muito novo e passei por um momento de dúvidas em relação ao meu futuro. Ele é um personagem muito inteligente, mas ainda não descobriu que caminho seguir”, descreve.

Cada personagem enfrenta desafios particulares e não há suporte externo que possa impulsioná-los na direção daquilo que acreditam.  É na coletividade, e entre os amigos, que encontram a oportunidade de imprimir suas vozes e narrativas no mundo. “É isso que a batalha de rima representa na série: a juventude se reunindo para expressar a cultura periférica e relembrar que, ali, já existe um potencial de mudança”, conclui Luís.

Deixe um comentário

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

ALERTA! Coronavírus e as quebradas

Confira nossa cobertura

Apoie nossa cobertura jornalística

Ajude-nos no Catarse Doe
Receba notícias no WhatsApp Notícias no WhatsApp
%d blogueiros gostam disto: