foto Anderson Paulino

Respeita as mina, TOP 10 é machismo!

Um ano depois de coletivos do Extremo Sul denunciarem a exposição da sexualidade de meninas em vídeos nas redes sociais, a situação continua nada TOP. Resistir é a única alternativa.

Por Mariana Caires

“Tá ligado aquela mina? Deu pra tantos esse mês. Mas a outra, que acham que é santinha, é pior”.

O comentário machista, falado desde sempre por homens de todas as idades e classes sociais, também domina a conversa nas rodinhas de meninos no intervalo da escola. Mas, na era virtual, vira post nas redes sociais, se espalha pelo WhatsApp e causa impactos muito, muito maiores.

Há exatamente um ano, ativistas do Grajaú e de Parelheiros (no Extremo Sul de São Paulo) se depararam com uma prática de cyberbullying que não era novidade nas escolas da região: o TOP 10 do WhatsApp, que começou como concurso das “mais bonitas” de cada colégio até ser transformado em um ranking das “10 mais vagabundas”.

A ação de cyberbullying praticada por meninos e algumas meninas contra outras adolescentes consiste em fazer montagens de fotos e vídeos íntimos das vítimas, que circulam pelos celulares dos colegas de sala, viralizam nos grupos da internet, ultrapassam os muros da escola e ganham as ruas com pixações.

Em pouco tempo, todo mundo fica sabendo e as minas não podem mais sair de casa sem ouvir algum comentário. Algumas adolescentes abandonaram as aulas e se confinaram. Duas meninas do Grajaú se suicidaram, segundo o coletivo feminista Mulheres na Luta.

A ação de coletivos e ativistas do Extremo Sul foi essencial para acolher as meninas atingidas pela exposição. O Serviço de Proteção à vítima de violência do CEDECA (Centro de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente) Interlagos recebeu denúncias.

“O que a gente sabia do Grajaú era que as meninas estavam indo embora da região, sendo muito culpabilizadas por tudo”, conta a rapper e militante Tati Preta Soul, do coletivo Abayomi Aba, que em abril de 2015 organizou o primeiro sarau sobre o TOP 10, no CEU Parelheiros, onde havia relatos de quem queria entrar nos vídeos. “Era uma busca delas por visibilidade, então percebemos que a gente tem que problematizar o tema dentro dessas espaços e alcançar todo mundo”, continua.

Sarau Abayomi abril de 2015. Foto: Joanah Dark
Sarau Abayomi abril de 2015. Foto: Joanah Dark

“Ela nem merecia tá nesse vídeo”. Mas alguém merecia? Às vezes, a gente não percebe que o problema é estrutural, que “se a gente falasse mais sobre sexualidade e feminismo, ia ser mais fácil identificar o machismo em diversas ocasiões”, observa Vanessa Cândida, integrante do Mulheres na Luta.

Em maio do ano passado, o coletivo realizou um Grafitaço Feminista no Grajaú em um escadão onde uma pichação permaneceu por mais de um ano: “J******, puta do TOP 10”. Mais de 20 mulheres cobriram os xingamentos e os muros cinzas por graffites e lambe-lambes com mensagens de respeito às mulheres. Enquanto grafitavam, conversaram sobre feminismo e sexualidade com quem passava pela ação.

O ato chamou atenção do poder público. No dia 10 de junho de 2015, a Assembléia Legislativa de São Paulo (Alesp) convocou uma audiência pública para discutir os vídeos com a presença de integrantes do Abayomi Aba e das Mulheres na Luta. Já os representantes do Google e do Facebook, empresas responsáveis pelo Youtube e WhatsApp, não compareceram à convocação.

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O Marco Civil da Internet garante o direito à privacidade e proteção de dados, inclusive se uma rede não for nacional, como as em que os vídeos são compartilhados. Como encaminhamento da audiência, a Alesp solicitou ao Youtube a retirada dos vídeos no prazo de 20 dias, mas sabe-se que ainda há vídeos na rede e que são compartilhados todos os dias.

“Só se ganha processo pra apagar o vídeo se você é uma pessoa pública. Pra Thaís Araújo deu certo, mas a mulher pobre da periferia denuncia e nada é feito”, ressalta Tati, que participou da audiência.

O Inquérito Civil de Nº 237/15 da Promotoria de Justiça da Infância e Juventude da Capital determina investigação pelo próprio Ministério Público do Estado de São Paulo e instrui órgãos como as Secretaria de Estado da Educação e os Conselhos Tutelares, entre outros, para o fornecimento de informações adicionais.

Como consta no documento, o inquérito tem como base “a violação ao respeito e à dignidade de crianças e adolescentes e jovens que tem suas imagens divulgadas, sem consentimento, em vídeos disponiveis ao acesso público nas redes sociais” e a investigação sobre os próprios adolescentes responsáveis pela veiculação dos vídeos.

Apesar de deputados estaduais como o Coronel Paulo Telhada (PSDB), ex-comandante da ROTA, utilizarem os casos como argumento para defenderem a redução da maioridade penal e punirem os meninos que criaram os vídeos, os coletivos participantes das audiências alertam para a necessidade de promover debates sobre o tema. Uma das indicações na audiência na Alesp foi de criar uma cartilha de orientação a funcionários da saúde pública sobre como abordar o tema em seus trabalhos.

Como o inquérito não avançou, a resistência continua pela base

Uma conversa em sala de aula, vídeo, foto, graffite… Tudo é válido para não deixar o assunto passar batido como algo natural. O debate deve chegar inclusive a quem faz esse tipo de vídeo, não só à menina atingida.

“Pensamos em oficinas que levantem a orientação, prevenção, não criminalização e não revitimização”, conta Vanessa, do coletivo Mulheres na Luta, que em 2015 realizou oficinas de vídeo com meninos e meninas em escolas públicas do Grajaú.

“A gente pode mostrar pra eles que com um vídeo sobre os problemas de estrutura da escola, do bairro, ele consegue resultados muito mais positivos”, acrescenta Tati.

Em resposta aos vídeos depreciativos, as Mulheres na Luta prepararam dois TOP10 feministas. Confira:

Para Tati, conversar com as meninas sobre a violência é uma tarefa complexa, porém urgente. “Cada vez que você retoma aquele trauma, é uma violência, então tem que tomar muito cuidado com isso. Mas é essencial que ela não se sinta sozinha”.

[box type=”info” fontsize=”13″ radius=”4″]Serviço: Quem foi vítima do TOP10 não tá sozinha.
Você pode procurar:
– Serviço de Proteção à vítima de violência do CEDECA Interlagos.
– Coletivo Abayomi Aba.
– Coletivo Mulheres na Luta.
– Coletivo Extremo a Extremo, em Parelheiros.[/box]