Segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), 56,3% dos brasileiros se declararam pretos ou pardos em 2019. Essa maioria da população sofre e é prejudicada indistintamente com o racismo, que começa ainda na infância. As crianças pequenas são as primeiras a sentir seus efeitos e a educação infantil pode ter um impacto importante sobre isso.

É io que aponta a publicação inédita Racismo, Educação Infantil e Desenvolvimento na Primeira Infância “, apresentado pelo Núcleo Ciência Pela Infância (NCPI) durante o IX Simpósio Internacional de Desenvolvimento da Primeira Infância. Para conferir o estudo, clique aqui. O NCPI existe desde 2011 e é formado por 7 organizações: Center on the Developing Child da Universidade de Harvard, David Rockefeller Center for Latin American Studies, Faculdade de Medicina da USP, Fundação Bernard van Leer, Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, Insper e Porticus América Latina.

Com objetivo de contribuir com políticas públicas afirmativas de combate à discriminação racial, o estudo dissemina conhecimento científico sobre os efeitos do racismo estrutural no desenvolvimento das crianças negras em seus primeiros 6 anos de vida.

Coordenado por Lucimar Dias, pedagoga e professora associada da Universidade Federal do Paraná (UFPR), o estudo mostra que a educação infantil é um dos primeiros e mais importantes ambientes de socialização da criança e é nesse espaço que ocorrem as interações sociais que impactam diretamente o desenvolvimento. Nesse contexto, relações saudáveis podem contribuir positivamente para a aprendizagem, enquanto experiências negativas são prejudiciais.

De acordo com a publicação, se as crianças convivem em espaços que oferecem como experiência relações sociais em que a imagem do negro é construída a partir de referências negativas, é de se esperar que isso afete seu desenvolvimento emocional.

Um dos principais impactos se dá justamente na aceitação da imagem. É na primeira infância que o ser humano começa a notar as diferenças físicas. Sendo assim, é fundamental que nesse período a criança se sinta aceita, acolhida e valorizada. “Quando a criança passa por uma situação racista, ela pode construir um sentimento de desvalorização, de rejeição da própria imagem, de inibição e dificuldade de confiar em si mesma. Isso afeta, inclusive, no seu processo de socialização”, explica Lucimar.

Além disso, o racismo traz implicações negativas para a saúde mental de crianças e adolescentes, como maior incidência de sintomas de ansiedade e depressão.

“Também não podemos deixar de elencar outra consequência dessa discriminação: o estresse tóxico. Essa situação pode interromper o desenvolvimento saudável do cérebro e de outros sistemas do corpo, aumentando o risco de uma série de doenças”, comenta a pesquisadora.

Estudos sugerem que doenças cardiovasculares, obesidade, diabetes tipo 2, distúrbios respiratórios e imunológicos podem ter raízes em adversidades vividas na primeira infância, como o racismo.

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Papel da educação infantil

A educação é um importante lugar de reprodução deste problema, mas também pode contribuir para ser espaço de mudança. Segundo a publicação, o racismo está presente em diálogos e ações no cotidiano de crianças e educadores. Nesse sentido, um processo educacional que desconsidera esse fator, expõe os pequenos ao risco.

Nesse ambiente, diferenças como cor da pele, tipo de cabelo e gênero afetam a socialização, contribuindo para a aproximação, aceitação ou proibição em um grupo social.

“Um dos casos mencionados no estudo, por exemplo, traz a história de uma criança que ficou sem dormir após ter seu cabelo comparado ao de uma bruxa. É importante que os professores estejam preparados tanto para identificar e agir em situações como essa não se repitam quanto para acolher a criança que sofreu essa a violência”, comenta Lucimar.

Para a acadêmica, uma das causas da propagação do racismo é não incluir questões de raça como uma variável fundamental na formação dos profissionais da educação infantil. Isso permite que crianças negras deixem de ser protegidas e prejudica a construção da identidade positiva delas, prevista inclusive nos princípios éticos da educação infantil.

“Estudos têm demonstrado que formações de professores voltadas à educação das relações étnicorraciais leva profissionais a mudarem suas práticas e estarem mais atentos a necessidades pedagógicas que respeitem a identidade racial negra”, diz.

No Brasil, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) e as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil (DCNE) instituem a obrigatoriedade da inserção da cultura afro-brasileira e africana nos currículos e incluem a educação das relações étnicorraciais. Essas normativas ajudam a combater o racismo nas interações sociais das crianças e ajudam na construção de identidade negra.

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