“Eu sou mais do que o vírus HIV”.

Dessa forma, André Araújo (conhecido como Andreará) sintetizou a luta por uma vida plena de pessoas vivendo com HIV – muitas vezes, com suas existências reduzidas ao próprio vírus.

O assunto pautou o terceiro episódio do Quebra das Ideias, programa de entrevistas produzido pela Periferia em Movimento, que aconteceu em 04 de dezembro de 2019. O último mês do ano é lembrado pela conscientização sobre HIV/Aids e outras infecções sexualmente transmissíveis (ISTs).

Em 2019, o Ministério da Saúde estimou em 866 mil pessoas vivendo com o vírus no Brasil – previu-se que 135 mil delas não sabiam que estavam infectadas. Em 2017, foram diagnosticados 42.420 novos casos de HIV e 37.791 casos de Aids. A Unaids, programação das Nações Unidas sobre o HIV, apontou que uma explosão de casos entre jovens, com aumentode 21% de infecções entre 2010 e 2018 – na contramão da tendência mundial, que é de estagnação.

Pensado falar principalmente do impacto disso na juventude, o programa aconteceu na mesma semana em que ação da Polícia Militar de São Paulo em um baile funk em Paraisópolis resultou na morte de 09 jovens. Assista a íntegra abaixo:

Entre as discussões, o programa debateu as políticas governamentais de prevenção e tratamento ao HIV/Aids e outras ISTs. Em outubro do ano passado, o Ministério da Saúde do governo de Jair Bolsonaro lançou uma campanha controversa sobre prevenção que visa o medo e a repulsa da população em relação a essas infecções.

Convivendo com o HIV há 14 anos, a agente de saúde Tábata Alves classificou a campanha como “terrorista”. “Falta muito pra poder avançar, desmistificar muita e falar pra população. Não favoreceu muito”, disse ela. “Não é uma campanha que informa. Está criando um pânico moral, um medo na população, para que tenha medo de corpos positHIVos como os nossos”, complementou Andreará, jornalista e coordenador do Pra Brilhar, iniciativa da Viração Educomunicação com a Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo para trabalhar a temática com jovens de 16 a 24 anos, entre eles homens gays, homens que fazem sexo com outros homens, meninas trans e travestis.

Veja abaixo o vídeo da campanha mais recente do Ministério da Saúde:

Na quebrada, a realidade é outra

Além de trabalhar como agente de prevenção em um CTA (Centro de Testagem e Aconselhamento), Tábata é vice-presidente da ONG Conviver é Viver, que há mais de 20 anos atua com prevenção e aconselhamento de famílias no Jardim Ângela, Extremo Sul de São Paulo. No território, Tábata observa que a desinformação ainda impera. Por um lado, a juventude se preocupa com gravidez precoce, mas por outro não se previne das ISTs por considerar que o acesso aos medicamentos de forma gratuita pode garantir a qualidade de vida.

Ainda assim, quando a infecção acontece, o que vem à mente são imagens de 20, 30 anos atrás – como as defendidas na campanha do governo federal. “A primeira pergunta que me fizeram depois de descobrir que tinha HIV era: ‘eu não vou conseguir nem fazer faculdade?’, pois ele tinha aquela imagem do Cazuza que aparece até hoje quando você busca na internet”, contou ela.

Mais do que acessar o medicamento, ter acesso à informação e entender os efeitos colaterais que podem desencadear em organismos – de náuses, diarreia até alucinações e pensamentos suicidas – faz parte do tratamento. Andrerá chamou atenção ainda para questões sociais relacionadas a isso:

“Pra área da saúde, a adesão ao tratamento é apenas tomar o medicamento. Mas como falar de adesão quando se tem maior taxa de detecção entre jovens de periferias? Como aderir se você não tem comida em casa, não tem como falar com seus pais ou não tem um espaço de lazer, pra fazer esporte? Isso tudo envolve adesão, que não está restrita ao medicamento. É preciso tomar para aumentar a qualidade de vida, mas é preciso atentar a essas outras questões”, observou.

Cartaz da campanha do governo federal que defende a abstinência sexual de adolescentes como método de prevenção: nada de abordar direitos sexuais e reprodutivos

A construção de espaços de diálogo com a juventude é importante para que se sinta segura e confortável para falar do assunto, a partir das necessidades de cada um, sem espaço para o medo e a moral. E isso vai de encontro com a nova campanha feita pelo Ministério da Saúde com o Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos, que defende a abstinência sexual como um método de prevenção e não aborda direitos sexuais e reprodutivos.

Enquanto isso, tanto o Coletivo Contágio quanto a ONG Conviver é Viver utilizam expressões artísticas para ampliar as perspectivas tanto de pessoas positHIVas quanto da sociedade em geral.

“É a partir da arte que a gente fissura o pensamento”, disse Andreará. “E na dança, a gente trabalha com a performance, mostrando que a pessoa que convive com HIV pode levar uma vida normal”, apontou Tábata.

O programa Quebra das Ideias acontece por meio do patrocínio do Programa VAI da Secretaria Municipal de Cultura da Prefeitura de São Paulo. Apresentação: Aline Rodrigues. Produção: Thiago Borges e Laís Diogo. Audiovisual: Pedro Ariel Salvador e Paulo Cruz. Articulação: Wilson Oliveira.

Próximo programa

A quinta edição do Quebra das Ideias será exibida nesta quinta-feira (13/02), às 20h, na página do Facebook e no canal do Youtube da Periferia em Movimento. Com o tema “Como seria a sociedade se as pessoas trans tivessem poder?”, o programa dialoga com Erika Hilton, militante transvestigênere e co-deputada estadual pela Bancada Ativista.

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