Foi o trágico primeiro ano de Jair Bolsonaro e seus seguidores à frente do governo federal e de muitos Estados: comentários desastrosos, vexame internacional, ofensas distribuídas a granel. Mas para o indígena da etnia guarani mbya Olívio Jekupé, foi só uma versão bem piorada do que acontece desde a chegada dos navegadores portugueses ao território que hoje chamamos de Brasil.

“Sempre foi ruim desde 1500, mas 2019 foi péssimo pois no dia 01 de janeiro ele [Presidente da República] assinou um decreto contra os povos indígenas. Quer cancelar demarcações de terras indígenas”, explicou Jekupé, filósofo e escritor que há mais de 20 anos mora na aldeia Krukutu, em Parelheiros, Extremo Sul de São Paulo. “Nem por isso paramos de lutar, pois desde 1500 a gente luta e tem que continuar lutando para que em 2020 a gente possa dar mais continuidade”, completou.

Jekupé participou da última edição do Quebra das Ideias do ano passado, em que o programa da Periferia em Movimento debateu perspectivas de futuro a partir da realidade dos povos da floresta e das periferias urbanas, que sempre estiveram no alvo do sistema mas que agora enfrentam um governo abertamente racista, misógino e homofóbico.

Em janeiro de 2020, a organização Frontline Defenders divulgou relatório onde contabiliza a morte de ao menos 23 ativistas brasileiros em 2019, o que coloca o País na quarta posição entre os mais violentos contra defensores dos direitos humanos. Também em janeiro, o relatório da organização internacional Human Rights Watch apontou que o governo federal teria promovido uma agenda contra os direitos humanos, “adotando políticas que colocariam populações vulneráveis em risco”.

Moradora da favela de Paraisópolis, Glória Maria acompanhou com a comunidade o desenrolar do Massacre no Baile da DZ7, promovido pelo Estado de São Paulo por meio da Polícia Militar resultando na morte de 09 jovens. “É a juventude preta e periférica que leva enquadro, que é assassinada. Já é vivência”, ressaltou a jornalista de 20 anos, produtora cultural e uma das organizadoras do coletivo Anarcoletiva e da Batalha de Paraisópolis.

Assista abaixo à íntegra do programa:

As chuvas fortes, as queimadas na Amazônia, as manifestações pedindo medidas para conter as mudanças climáticas e o negacionismo governamental estiveram em pauta no último ano e devem se aprofundar em 2020. E isso se relaciona diretamente com a luta pela demarcação de terras indígenas.

“Os índios da América dão oxigênio de graça para os brancos, que ficam chamando a gente de vagabundo (…) enquanto os grandes fazendeiros destróem tudo. Esses brancos são trabalhadores e nós somos vagabundos?”.

Olívio Jekupé

“Espero que em 2020 seja um ano que a gente possa recuperar os direitos que perdemos em 2019”, continuou ele.

Para o ano que ainda está começando, o líder indígena espera mobilização para seguir reivindicando o direito original à terra. E aposta na literatura nativa – termo que ele cunhou para denominar a narrativa feita pelos próprios indígenas – e no rap.

Para Glória, o rap e a poesia são ferramentas de passar informação à população a partir de uma linguagem mais próxima do cotidiano. “A gente tá cansado das mesmas narrativas, elitista, de gente branca, que não entende a nossa história”, contou ela, que quer dialogar na bolinha do olho com a comunidade.

“Às vezes a gente chega no trabalhador no embate, mas não estamos no momento de embate e sim de aproximar e trazer o trabalhador pro nosso lado”

Glória Maria

O programa Quebra das Ideias acontece por meio do patrocínio do Programa VAI da Secretaria Municipal de Cultura da Prefeitura de São Paulo. Apresentação: Aline Rodrigues. Produção: Thiago Borges e Laís Diogo. Audiovisual: Pedro Ariel Salvador e Paulo Cruz. Articulação: Wilson Oliveira.

Próximo programa

A quinta edição do Quebra das Ideias será exibida nesta quinta-feira (13/02), às 20h, na página do Facebook e no canal do Youtube da Periferia em Movimento. Com o tema “Como seria a sociedade se as pessoas trans tivessem poder?”, o programa dialoga com Erika Hilton, militante transvestigênere e co-deputada estadual pela Bancada Ativista.

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