Você já foi recebida em uma loja por uma vendedora travesti? Já teve uma colega trans na universidade? Foi atendido por um médico, advogado, teve uma professora ou amiga transexual? Por que a maioria deve ter respondido “não” para todas as perguntas?

Em 2014, a Periferia em Movimento fez essas perguntas na série de reportagens “À Margem da Margem”. E no primeiro programa “Quebra das Ideias” de 2020, gravado em 05 de fevereiro, essas perguntas se mantêm atuais. E por isso, questionamos: como seria a sociedade se as pessoas trans tivessem poder?

“Acho que a gente deu um pequeno avanço. Hoje temos eu e a [deputada estadual] Erica Maluguinho num espaço que era inimaginável”, aponta Erika Hilton, co-deputada estadual pela Bancada Ativista que, assim como Malunguinho, é uma mulher trans ocupando a Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo.

“Temos uma presença no teatro, no cinema, um movimento ainda que pequeno da colocação desses corpos em determinados lugares”, continua.

Confira abaixo a entrevista na íntegra:

Mas de que poder estamos falando?

A Bancada Ativista, da qual Erika Hilton faz parte com outros 08 representantes, teve quase 150 mil votos nas eleições de 2018. Já Malunguinho foi eleita com mais de 55 mil votos. A presença delas na Assembleia Legislativa contrasta com ante outros 92 representantes, todos cisgêneros (isto é, que ao crescer continua se identificando com a designação dada ao nascer a partir de sua condição biológica – menino ou menina).

Por outro lado, a expectativa de vida de pessoas trans é de 35 anos ante 75 da população cisgênero, segundo o IBGE. O Brasil é o País que mais mata pessoas trans no mundo. De acordo com a Antra (Associação Nacional de Travestis e Transexuais), entre 1 e 24 de janeiro de 2020, foram registrados 14 assassinatos de transexuais no país. A organização aponta ainda que 90% da população trans recorre à prostituição por conta da exclusão do mercado de trabalho.

Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), 90,3% da população de transexuais e travestis entrevistada já passou por pelo menos uma situação de estigma ou discriminação por conta da sua identidade de gênero; 73,4% informaram não estar estudando no momento da pesquisa e apenas 16,5% afirmaram ter o Ensino Superior completo. Enquanto 30% da população cisgênero concluiu a faculdade, outros 30% dos trans chegou apenas ao Ensino Fundamental.

Erika Hilton questiona que poder é esse que está ocupando, mas que não conquistou exatamente. Ao mesmo tempo em que ocupar o poder que está posto é repensar esse espaço de poder – e, talvez, até destruí-lo.

“Eu coloco meu corpo a serviço dessas lutas porque a sociedade me obriga a estar. Eu estou aqui porque é necessário. Que a gente tome da mão do senhor esse poder porque do jeito que está não tá boa pra ninguém. E quando transformar a sociedade para as pessoas trans, essa sociedade vai ser boa pra todes”.

Erika Hilton

Erika bebe na fonte do movimento negro como referência de luta, resistência e construção política pelos direitos da população LGBT e contra o sistema patriarcal e busca na experiência dos quilombos a inspiração de outras possibilidades da sociedade que deseja reconstruir.

“A gente ainda tá brigando pra sermos vistas, vistos e vistes como pessoas humanas”

Erika Hilton

O programa Quebra das Ideias acontece por meio do patrocínio do Programa VAI da Secretaria Municipal de Cultura da Prefeitura de São Paulo. Apresentação: Aline Rodrigues. Produção: Thiago Borges e Laís Diogo. Audiovisual: Pedro Ariel Salvador e Paulo Cruz. Articulação: Wilson Oliveira.

Deixe um comentário

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

ALERTA! Coronavírus e as quebradas

Confira nossa cobertura

Apoie nossa cobertura jornalística

Ajude-nos no Catarse Doe
Receba notícias no WhatsApp Notícias no WhatsApp
%d blogueiros gostam disto: