(Foto: Thiago Borges / Periferia em Movimento)

Projeto Afrobase perpetua cultura popular com oficinas de dança, percussão e capoeira

Quarta-feira, primeira semana de abril, oito e pouco da noite. Algumas dezenas de pessoas se espremem em um pequeno salão no bairro do Rio Pequeno, zona oeste de São Paulo. Nas paredes do imóvel, grafites. Em prateleiras, instrumentos de percussão.

Fazendo blues com berimbau, o músico Dinho Nascimento fascina o público formado por adultos e principalmente crianças e adolescentes. Em dia de jogo do Corinthians pela Libertadores, eles saíram de casa pra ouvir e recitar poesia no terceiro sarau Afrobase. Da boca de meninos de 12, 13 anos, saem nomes como Mandela, Malcom X, Luiz Gama ou Fela Kuti.

Esse sarau mensal, que começou em fevereiro, é uma forma de dar vazão à criatividade que transborda da molecada que participa das oficinas do projeto Afrobase.

Com mais de 50 participantes com idade entre oito e 21 anos, o projeto tem a proposta de perpetuar a cultura popular brasileira por meio de aulas de dança, percussão e capoeira.

Como educadores, estão músicos que compõem o Treme Terra, grupo de música e dança que baseia sua atuação em manifestações da diáspora africana.

Fundado em 2006 por Dinho e seu filho João Nascimento, no Morro do Querosene – uma comunidade pobre próxima ao Rio Pequeno formada basicamente por migrantes maranhenses –, o Treme Terra nasceu como um projeto maior, com aulas de informática, inglês, jiu jitsu, entre outras opções de formação para os jovens. Sem patrocínio a partir de 2008, o grupo de 20 pessoas manteve apenas as atividades musicais. Dois anos depois, teve início o projeto Afrobase.

“Nossa ideia é utilizar a música e a dança pra promover integração entre pessoas de diferentes idades num mesmo lugar”, observa Hercules Laino, integrante do Treme Terra e professor de percussão no Afrobase.

Rodeada de favelas, a sede do projeto é um ambiente não só para oficinas, como também espaço para ensaios do Treme Terra e eventos musicais – além do recém-lançado sarau. Mais que isso, é lugar para formação de consciência.

“A dança e a música dão brechas que permitem abordar assuntos como cultura negra, racismo e opressão, e despertar o interesse deles sobre isso”, diz Hercules.

“Cultura popular tem que ter empoderamento político”, completa Adonai Agni, também músico do Treme Terra e administrador do Afrobase. “Você vê esse sarau, por exemplo: rola uma aula, um conhecimento da nossa própria cultura. E precisamos conhecer nossa própria cultura para a gente se conhecer mais e de onde a gente veio”.