Por Núbia Amorim*

Eu odeio a escola que todos os dias matam os sonhos das pessoas, condicionam corpos para servir ao capital e reproduzem os sistemas opressores. 

Ser professora Afroindígena na periferia da Zona Sul é odiar a escola com seus muros e grades curriculares. É saber que o povo preto não tem chance. Indígena é uma folha do livro didático de um passado longínquo. 

É lidar com racismo estrutural e institucional que quer a todo custo te embranquecer, clarear, moldar, calar, diminuir e oprimir. 

É dar visibilidade para bebês e crianças expondo os trabalhos deles e ser chamada de ‘aparecida’.

É lutar pelo direito das crianças terem mesa e cadeira para comer o lanche e ser chamada de ‘barraqueira’.

É mudar mesas, cadeiras de lugar, sair da sala, dar aula no pátio e ouvir pedidos de ‘pare de tumultuar!!!’

Professor bom é aquele que mantém seus 40 alunos trancados e calados na sala de aula por cinco horas seguidas. 

Os sistemas opressores usam as escolas para formarem a massa de trabalhadores. Doutrinam e massacram principalmente os corpos negros para servir ao capital. 

Escola tem hora de entrada e saída como fábrica, hora do recreio ou parque igual presídio. Notas depois de várias atividades,  como no capital recebemos salário depois de prestar serviços. 

E a criança que não se encaixa, a rebelde, a briguenta, a que não para é levada a sala da direção ou coordenação. Assim como o sistema carcerário.

Ser professor é antes de tudo ser crítico. Se vivo em um país racista e sei como os sistemas oprimem e usam nossos corpos para sua manutenção, como poderei apenas reproduzir o que me mandam? 

A princípio, almejar uma Educação Libertária. Sim, Freiriana com orgulho e admiração por Paulo Freire. 

Currículo é vivo, territorial e Acordado, como diz a professora Patrícia Cerqueira. Temos que estar de acordo com a criança, o jovem, o território. 

Currículo Afroindígena. Tanto tempo na escola dedicado a conhecer a Europa e seus grandes feitos e nenhum tempo para conhecer a verdadeira história do Brasil. 

História do Brasil que não começa com a invasão europeia. Começa antes, com as muitas etnias dos povos ancestrais que aqui viviam, exerciam suas diferentes culturas e  cosmologias. 

Povos integrados à natureza com total pertencimento à ela. E depois os diferentes povos africanos que foram arrancados de suas terras e massacrados pelos opressores e tiveram em seus corpos marcas e nas almas total destruição. 

O genocídio e etnocídio marcam a constituição de um país que nunca aprendemos na escola. Afinal, vamos estudar o renascimento. 

Apagaram nossa existência, roubaram nossos conhecimentos, destruíram nossa subjetividade, inferiorizando nossas culturas. 

Ser professora afroindígena nas periferias da zona sul é saber o quanto essa história e seus desdobramentos afetam o desenvolvimento físico, emocional, intelectual, cultural e social dos nossos bebês, crianças e jovens. 

É lutar constantemente para mudar o modo como pensamos e agimos dentro das instituições. 

Ser professora é acreditar no poder transformador da escola como mudança social. Não podemos aceitar uma sociedade que mata suas crianças. Que proporciona o trabalho infantil. Que permite violência física, sexual e moral aos nossos bebês, crianças e jovens. 

Ser professora é acreditar que todos aprendemos e que somos sujeitos detentores de direitos. 

Ser professora é acreditar que o currículo é territorial. É georeferencial. No coletivo Territorialidades de Campo Limpo, do qual faço parte, trabalhamos constantemente pela territorialização do currículo. 

Acreditamos que a periferia é viva e aqui produzimos cultura, conhecimento e história. O currículo se constrói a partir dos nossos saberes e necessidades. 

Ser professora é acreditar que o currículo é antirracista. No coletivo Quilombo Primeira Infância fazemos reflexões e muita autocrítica, também produzimos conteúdos e estratégias de uma educação emancipatória. 

Ser professorA é lutar por uma Educação antimachista, feminina, negra e periférica. Na Escola Feminista Abya Yala lutamos por essa educação, através de estudos e práticas de valorização à vida.

Ser professora é acreditar na potencialidade que temos de cuidar de nós, dos outros e da nossa casa mãe-terra. Nos movimentos de agroecologia estudo sobre hortas escolares.

Hortas comunitárias trazem saúde para a população. E mostra essencialmente o poder da coletividade. A segurança e soberania alimentar foi tema recorrente na pandemia. 

O povo tem fome e não é apenas de arroz e feijão, temos fome de comida de verdade e sem agrotóxicos. Temos fome de cultura, arte e trabalho digno. Temos fome de segurança nas ruas e não ter medo do sistema de segurança pública. 

Todas essas fomes é currículo vivo. Ser professora é lutar por esse currículo e o movimento das mulheres da agroecologia MUVUCA e o Permaperifa, dos quais também faço parte, são lugares onde conhecimento é compartilhado. Entendemos que aprendemos juntos no sistema de cooperação mútua. 

Os coletivos e ações que participo são Quilombos de resistência que me ajudam a refletir sobre a professora que sou e o modo de atuar na escola em prol da sociedade que queremos. 

Aquilombar, trabalhar em comunidade são aprendizados que tive ao pesquisar a nossa ancestralidade Africana e Indígena. A concepção que somos biomas onde um depende do outro e só agindo juntos resistimos. 

Cada cultura, cada etnia e cada grupo cria sua concepção de mundo, conhecer essa diversidade é importante para percebermos que não somos únicos e que as singularidades devem ser respeitadas em suas essências. 

Ser professora Afroindígena na periferia da zona sul é ver cada bebê, criança, jovem, adulto, idoso na sua singularidade. Cada um é uma estrela nessa enorme constelação de identidades e diversidades de brilhos. 

Suas singularidades são modos únicos de ver a vida e de estar nela, a junção dessas potências na luta pelo bem comum é que garante que nossos biomas-vida em sociedade seja justo e igualitário. 

Ser professora Afroindígena nas periferias da zona sul é sonhar com uma sociedade em que caibam todas as nossas singularidades. 

É sonhar com o dia que não precisaremos de cotas, leis antirracistas, nem leis inclusivas ou de acessibilidade. É sonhar como uma sociedade que Indígenas vivem nos dias de hoje e não no passado. Em que a reforma agrária e a demarcação de terras Indígenas não estão na disputa, mas são parte das conquistas de uma vida melhor para todos. 

Por fim, ser professora na pandemia é não ter certeza se seus alunos estão bem, saber que muitos estão passando necessidade, que muitos não tem internet, nem computador para fazer a lição. 

E mesmo assim receber vários áudios carinhosos dizendo: – prô eu te amo e tô com saudade. 

Isso vale a luta e a resistência. 

Núbia Amorim: Afroindígena. Professora. Neta das mineiras Ambrosia e Carolina. Mãe da Bia e da Liz. Faço parte dos coletivos Escola Feminista Abya Yala, Territorialidades e Quilombo Primeira Infância

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2 comentários

  1. Seu texto é você. Que mais gente possa se juntar pra formarmos um grande corpo coletivo de enfrentamento de todas essas dores. Muito obrigada pela parceria, muito mesmo!

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