Por moradia, famílias ocupam terrenos no Grajaú

Fitas métricas e barbantes para demarcar lotes, pás e facões para roçar o mato, enchadas para cavar buracos… O entra e sai de veículos transportando ferramentas, estacas e madeirites é reflexo do ritmo rápido com que novos bairros se formam no Grajaú, no Extremo Sul de São Paulo.

Com 362 mil habitantes, o Grajaú é o distrito mais populoso da cidade de São Paulo. Pelo menos 20 mil moradias estão localizadas em favelas – muitas delas, em áreas de manancial ou preservação ambiental.

Habitado por famílias que fogem dos caros aluguéis da região central a partir dos anos 60, desde a semana passada o Grajaú vive pelo menos três novas ocupações – integrantes dos movimentos locais falam em sete. Em comum, a luta de famílias sem casa própria pelo direito à moradia digna.

Nesta terça-feira (30 de julho), o Periferia em Movimento esteve em duas dessas áreas: as ocupações “Povo Unido Para Vencer” e “Recanto da Vitória”, ambas localizadas no Jardim Lucélia.

Com 23 mil metros quadrados, a ocupação “Povo Unido Para Vencer” fica na área do Clube Aristocrata. Em 2008, o terreno foi desapropriado pela Prefeitura de São Paulo para a construção de um parque linear. A estrutura do antigo clube foi derrubada e a piscina aterrada, mas a obra não saiu do papel. Moradores do entorno dizem que o local se tornou ponto de consumo de drogas, desova de corpos e ação de estupradores.

Na última quinta-feira (25), cerca de 250 famílias ocuparam o local e iniciaram a divisão do terreno. Em assembleia, os futuros moradores decidiram que cada lote deve ter em torno de 5X15 metros, com espaço para construção de ruas e de uma praça.

Milene Cícero de Andrade, de 35 anos, demarcou um espaço onde pretende construir sua casa e morar com os seis filhos. Viúva, Milene recebe R$ 700 de pensão por mês, com o qual faz tratamento contra o câncer e paga aluguel de R$ 380 em uma casa de três cômodos na região.

Já Fernando de Sousa, 33 anos, cercou um pedaço de chão em área de risco e espera o remanejamento dos lotes para conseguir um espaço melhor. “Preciso de um lugar para morar”, diz ele, que vive de favor na casa da irmã.

 

“Recanto da Vitória”

Próximo ao CEU Três Lagos, também na região do Jardim Lucélia, está o “Recanto da Vitória”. Ali, pessoas ocupam desde a madrugada de sábado (27) o terreno que supostamente o proprietário de uma granja que funcionava no local perdera para a Caixa Econômica Federal.

Ocupantes relatam que pessoas se dizendo representantes de um vereador estiveram no local para colher nomes e levar ao poder público, mas nada foi feito.

Nesse meio tempo, 900 famílias iniciaram a demarcação de lotes de 5X25 metros e, agora, cortam o matagal. Cerca de 3.000 pessoas deverão morar ali, segundo as lideranças.

“Agora, vamos mapear porque tem gente que pegou quatro, cinco terrenos e está vendendo a terra, sendo que o objetivo é que cada família que precisar fique com um lote”, diz a atendente Liliane Aparecida Santos Oliveira, de 25 anos, uma das líderes do movimento.

Moradora do Jardim Lucélia, Liliane também anseia por sua casa própria. Atualmente desempregada, ela paga R$ 380 no aluguel de uma casa de dois cômodos, onde vive com o marido e as três filhas.

Fuga do aluguel

Todas as famílias passam por situações semelhantes. 

O aposentado José Mariano Chaves, 52, não paga aluguel mas mora de favor na casa do irmão com seus cinco filhos. A intenção dele é conseguir um lote na ocupação do Jardim Lucélia.

A auxiliar de produção Vanuza Santos de Lima, 36, também vive em um anexo da casa do irmão no Jardim São Pedro, mas gasta R$ 300 para morar em um “quarto e cozinha” com o filho.

José Ricardo “Lampião”, 35, paga R$ 200 em apenas um cômodo de propriedade de seu primo. Na tarde desta terça, ele capinava o terreno que conseguiu ocupar.

Quem também pretende morar no “Recanto da Vitória” é o pintor Orlando Arcanjo de Oliveira, 53 anos. Como diversos trabalhadores brasileiros, Orlando não tem casa própria e precisa pagar R$ 440 de aluguel por três cômodos que divide com mais seis pessoas. O terreno dele também já está cercado.

Drama parecido vive Tamile Aragão Costa, 25. Por uma casa de quatro cômodos, ela, a mãe e o irmão gastam R$ 900 por mês, entre aluguel, água e luz. Dá mais da metade da renda mensal familiar que, se não fosse a falta da moradia, teria outro destino.

“Não que a gente passe dificuldade, mas a gente deixa de fazer uma boa compra para pagar essa conta. É um dinheiro que não tem volta”, diz Tamile.

 

Outro lado

Até o fechamento desta reportagem, a Secretaria Municipal de Habitação (Sehab) da Prefeitura de São Paulo não respondeu aos questionamentos do Periferia em Movimento sobre a situação no Grajaú. O posicionamento da secretaria será publicado neste site assim que for recebido.

Enquanto isso, a Rede de Comunidades do Extremo Sul de São Paulo articula uma passeata para esta quarta-feira, dia 31 de julho. Após caminharem pela avenida Belmira Marin, os moradores que ocuparam os terrenos se encontrarão às 09hs da manhã em frente à escola estadual Carlos Aires (próximo ao terminal Grajaú), de onde saem em direção à Subprefeitura da Capela do Socorro para cobrar respostas do poder público.