Poetas espalham poesia no Grajaú por 12 horas

A poesia não pode parar.

E no último domingo (07 de dezembro), poetas, escritores e simpatizantes levaram o lema a sério com mais de 12 horas declamando versos de amor, indignação ou bem humorados por ruas, praças e bares do distrito do Grajaú, no Extremo Sul de São Paulo.

Trata-se da Carreata Sul Poética, um evento idealizado há mais de 20 anos pelo Centro de Arte e Promoção Social (CAPS) do Grajaú, que o Periferia em Movimento acompanhou de perto.

“O evento surgiu de um incômodo de ver uma região tão grande que, na época, não tinha asfalto, saneamento básico e muito menos ações culturais, que é algo imaterial mas que nos absorve e nós absorvemos”, relembra a escritora e moradora da região Maria Vilani, fundadora do CAPS. “A única coisa que acontecia eram as carreatas de candidatos políticos, com gente dançando em cima do trio elétrico, e que deixava os moradores felizes mas durava só durante a campanha eleitoral”.

As carreatas feitas pra angariar votos inspiraram Vilani e outros militantes. Em 1991, o grupo seguiu com apenas um ônibus e três carros rumo ao Largo Treze de Maio, em Santo Amaro, declamando poesia. O rapper Criolo, então adolescente, era um deles.

O ato se repetiu em 1992 e, depois disso, voltou a acontecer somente em 2012. “Foi a primeira vez que eu participei, foi um grupo bem reduzido, mas de uma resistência enorme”, conta o jovem rapper e escritor Marcio Ricardo.

A Carreata também foi realizada pelo CAPS em 2013 e, neste ano, Vilani conseguiu articular com mais de dez coletivos culturais da região.

“A primeira foi realizada por um grupo com uma ideologia. E essa ideologia foi se disseminando, entranhando… As redes sociais também permitem disseminar essa ideia. Como o solo estava propício e a gente já vinha arando o terreno, bastou semear”, observa Vilani.

O resultado dessa lavoura foi a participação recorde de mais de 120 pessoas. “Quando começamos, não se fazia arte na rua. Hoje, existe essa abertura”, nota Dora Medina, escriturária e diretora do Bakkhos, grupo de teatro do CAPS, que participa da Carreata desde a primeira edição.

Imersão no Extremo Sul

Ao contrário das Carreatas anteriores, que seguiram rumo ao centro, essa edição se voltou para a represa Billings, que banha o distrito do Grajaú.

O percurso teve início às 09h, no Relicário Rock Bar, onde mensalmente acontece o sarau Sobrenome Liberdade, com declamação de poemas.

Dois ônibus e dezenas de carros seguiram pela avenida Belmira Marin até o Circo Escola Grajaú, reaberto recentemente pela Prefeitura de São Paulo. No caminho, um megafone ecoava versos de dentro do busão para quem estava nas ruas.

Na sequência, fomos até o Ateliê Daki, uma galeria de arte localizada no Jardim Reimberg – onde também fica o espaço do Xemalami, coletivo de hip hop homenageado por essa edição da Carreata.

Passamos ainda pelo Sarau do Grajaú, que acontece no bar do Hawai, time de futebol de várzea com mais de 30 anos de tradição; e encontramos os integrantes do grupo de rap Expresso Perifa no BNH, bairro vertical do distrito, antes de continuar o percurso até a represa Billings.

Os carros foram deixados na entrada da área de preservação ambiental Bororé-Colônia e os participantes seguiram em “procissão poética” até a balsa que interliga o Grajaú à Ilha do Bororé, na outra margem do lago.

Entre carreata e procissão, percorremos em torno de 10 quilômetros de um extremo a outro do distrito, com ponto final na Casa Ecoativa, espaço comunitário que desenvolve projetos na região.

Ali, assistimos à peça “A procissão” com o ator Gero Camilo – consagrado pelos filmes Carandiru, Narradores de Javé, Cidade de Deus, Bicho de Sete Cabeças, entre outros.

“Já frequentava a casa da Vilani, mas é a primeira vez que me apresento no Grajaú”, diz Gero Camilo. “É um prazer vir para cá de forma independente, sem uma grande instituição por trás, com essa relação direta com os coletivos”, continua.

Depois, o Xemalami promoveu uma disputa de xadrez gigante. O grupo de hip hop foi escolhido como homenageado da Carreata deste ano por todos os projetos desenvolvidos na comunidade.

O coletivo surgiu espontaneamente em meados de 2000 a partir da união de vários rappers que atuavam em sete grupos diferentes, mas tinham em comum o gosto pelo xadrez.

Alguns integrantes participaram de campeonatos oficiais e ganham materiais, como relógios e tabuleiros, para desenvolver oficinas para públicos de todas as diades. O xadrez é utilizado como ferramenta para discutir solidariedade, desigualdade e promover práticas educativas.

Em 2007, o Xemalami se firmou como coletivo de hip hop e gravou seu primeiro rap inspirado no jogo de tabuleiro. De lá para cá, conquistaram editais públicos e privados que permitiram manter projetos socioeducativos.

Neste ano, aconteceram mais 13 oficinas para ensinar xadrez para crianças. No próximo domingo, 14, acontece um evento de encerramento do projeto no Jardim Reimberg. Mais detalhes aqui.

“Nossa maior conquista é se entender como parte dessa engrenagem”, observa Digaz, um dos integrantes do Xemalami. “Ficamos sem palavras por essa homenagem da Carreata. O que nos fortalece é saber que tem tanta gente fazendo coisas diferentes aqui”.

Sob a lua cheia, quase 10 horas da noite, Digaz e os demais participantes da Carreata se sentaram à beira de uma fogueira para mais um sarau. Afinal, a poesia não pode parar.