Por Thiago Borges

Junho de 2013. Como muitos brasileiros, a jornalista Flávia Domingues estava desempregada. Do quarto de casa, ela fazia alguns trabalhos pontuais. As oportunidades na área estavam escassas e, quando apareciam, o salário não compensava – na época, Flávia morava em Itaboraí, município da região metropolitana do Rio de Janeiro, que fica a 43 quilômetros do centro da capital. “Até que um dia, minha irmã falou de criar uma marca para mim. E aí, surgiu a EfeMais”, explica.

Com objetivo de melhorar a comunicação de organizações sociais que atuam em periferias e favelas do Rio, a EfeMais elabora posicionamentos de marca, planeja estratégias, atualiza mídias sociais e atende contatos de jornalistas. “A gente tem um método de trabalho baseado no diálogo, na geração de vínculos”, diz Flávia, que hoje tem 41 anos e mora em Campo Grande, zona Oeste da capital fluminense. A EfeMais gera impacto ao tornar a mensagem de seus clientes mais efetiva. 

Encontro Lab Pretaz_HUB, iniciativa do carioca Az Pretas, em que Flávia participou com sua empresa (foto arquivo pessoal)

Como Flávia, em diferentes periferias do Brasil moradoras e moradores geram trabalho e renda com negócios que oferecem soluções por meio da economia criativa. Além dela, desde 9 de fevereiro outros 11 empreendedores de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Pernambuco participam de um ciclo de encontros on-line que promovem trocas sobre os desafios de empreender em áreas como a moda, a tecnologia digital e em ferramentas para educação. 

O projeto é realizado pela A Banca, do Jardim Ângela, Zona Sul de São Paulo; e o Instituto Procomum, da Baixada Santista, com apoio do Programa DICE (Developing Inclusive and Creative Economies) do British Council. Tudo começou em 2019, quando 6 organizações brasileiras se inscreveram e foram selecionadas para receber o apoio do DICE Fund do British Council. Do lado de cá do oceano Atlântico, além de A Banca e Procomum, participaram ANDE (São Paulo), Lá da Favelinha (Belo Horizonte), Asplande (Rio de Janeiro) e Porto Digital (Recife). Durante um ano, elas desenvolveram projetos em colaboração com outras 6 iniciativas britânicas, com objetivo de fortalecer o ecossistema de empreendedorismo social e criativo.

Agora, cada organização brasileira indicou mais dois projetos de suas redes para ampliar o impacto do processo. “A economia criativa e o impacto social  ainda são pouco difundidos no Brasil. É fundamental ampliar essa discussão nas periferias dessas regiões”, aponta Marcio Teixeira, o Macarrão, integrante da A Banca. A organização atua por meio da educação e da cultura e é referência em negócios de impacto periféricos. 

Entre os temas dos encontros, estão a mobilização de recursos, barreiras para empreendedoras mulheres, oportunidades com a tecnologia e a importância das redes para fortalecimento dos negócios. “Por meio desses encontros tem sido possível observar uma diversidade grande de iniciativas, empreendedores que estão em busca de conhecimento e oportunidades para atuar com seus negócios”, nota Macarrão.

Para Mariane Diaz, de 31 anos, essa é uma oportunidade de trocar com outros empreendimentos e estabelecer contatos com pessoas que fazem algo parecido em outros estados.

Pedagoga de formação, ela trabalhou em escolas periféricas da zona Oeste do Rio ou da Baixada Fluminense. E foi nas salas de aula, com maioria de alunas e alunos negros, que percebeu o impacto negativo da falta de representatividade nos materiais pedagógicos, como livros, bonecas e outros brinquedos. “Quando cheguei na escola, eu vi uma necessidade muito grande das crianças de entenderem todas as situações de racismo que viviam”, conta. 

Olubayo: brinquedos para valorizar a negritude desde a infância (foto: divulgação)

Em 2018, Mariane começou a pesquisar sobre protagonismo negro na literatura e a confeccionar bonecas de pano que não fossem brancas. Com o tempo, amigos da área começaram a encomendar essas bonecas. E é por meio delas que a educadora quer ampliar o debate sobre as questões étnicorraciais na perspectiva das crianças negras. Assim, a partir das experiências pessoais e profissionais de Mariane, nasceu a Olubayo. 

“Hoje, o desafio é estruturar o modelo de negócio: como produzir, cuidar de todos os processos de venda, de burocracia, e crescer?”, questiona Mariane. Atualmente, ela quer firmar parceria com uma costureira para confeccionar os itens, enquanto busca a sustentabilidade do negócio. Por isso, ela já participou de formações com a Asplande e o Sebrae. 

Já para o Alan Alves Diniz Gomes, 22, o conteúdo dos encontros é novidade. Fã do hip hop, o DJ chegou ao programa indicado pelo Lá da Favelinha. Em 2017, após completar 18 anos, foi nessa organização do Aglomerado da Serra (em Belo Horizonte) que Alan teve seu primeiro contato com a produção cultural. Em 2019, ele participou de uma oficina de discotecagem e, hoje, trabalha na área. 

“O programa está sendo meu primeiro estudo sobre como ser um empreendedor. Tô aprendendo a ver, a sair da minha bolha, a entender as dificuldades dos outros… Aprendendo com erros e acertos”, diz Alan. Futuramente, ele que produzir festas, ensinar e gerar renda para mais jovens sobre a partir de um dos elementos do hip hop. “Eu vejo muitas possibilidades de empreender como DJ”.

Essa é a primeira de uma série de 3 reportagens da Periferia em Movimento sobre os encontros realizados por A Banca e Instituto Procomum, com o apoio do Programa DICE (Developing Inclusive and Creative Economies) do British Council.

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