O que um CCJ tem para ensinar ao outro

Eu tinha pouco mais de 18 anos quando, na faculdade, em 2009, idealizei o Periferia em Movimento com meus amigos Sueli Carneiro e Thiago Borges, em um Trabalho de Conclusão de Curso (TCC). A gente se propôs a retratar quais eram os efeitos causados por um movimento social nas periferias. O movimento escolhido foi o Evento Pela Paz no Grajaú, que surgiu com um olhar de que a violência na nossa sociedade é CONSEQUÊNCIA! E sabiamente, a iniciativa destacava as produções culturais da região, em sua maioria realizada por jovens, e para ser mais específica, crianças e adolescentes, como forma de valorizar a juventude e, com isso, focar na prevenção da violência que atingia e ainda atinge principalmente eles. Em 2012, 30 crianças/adolescentes foram assassinados por dia.

Esse movimento e milhares de lá pra cá me fazem ter cada vez mais a certeza de que investir na garantia de direitos é o mais inteligente, óbvio, gratificante, eficaz, coerente, duradouro e humano.

Por isso, quando vi o resultado da votação da PEC 171, aprovada pela maioria dos deputados da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), fiquei pensando o quanto as pessoas que compõe essa CCJ têm para aprender com outro CCJ, de Centro Cultural da Juventude. Por ironia do hábito de mais rápido comunicar, apesar de muito diferentes, ambos atendem pela mesma sigla, mas a semelhança acaba por aqui.

Enquanto na Comissão de Constituição e Justiça, os deputados resumem o jovem a alguém em conflito com a lei, há 9 anos o Centro Cultural da Juventude dá espaço para jovens expressarem o melhor de si em diferentes intervenções, oferece uma programação variada que valoriza diferentes manifestações artísticas, sociais, políticas e muitas vezes tem crianças e adolescentes como protagonista dessas ações. Confira a reportagem feita por Vilma Cristina Balint sobre o projeto de formação de jovens para o trabalho cultural nas periferias realizado no ambiente do CCJ, o Centro, aqui.

O CCJ é a favor da criança e do adolescente, mas também do jovem maior de 18 anos, é um lugar que representa ainda o resultado da luta independente assumida por essa juventude que grita seu valor, seus direitos e sua ânsia por espaço e reconhecimento na sociedade. Esse CCJ, assim como inúmeros espaços na cidade de São Paulo, estão cada vez mais ocupados por esses que são os chamados “futuro do país”, como bem lembrou o amigo Cesar Gouveia ontem cedo nas redes sociais, mas que muitos querem que vivam seu futuro encarcerados como protagonista de uma consequência.

CONSEQUÊNCIA de violação de seus direitos, os previstos no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e os inerentes aos seus sonhos. Esses são exclusivos de cada jovem e que dentro deles não têm limites, mas são barrados por uma consciência implantada em suas cabeças de que “isso não é pra mim”.

De tão convictos em defender esse erro e cegos, quem votou a favor da redução da maioridade penal e vários outros brasileiros que ficaram felizes com esse resultado não enxergam e às vezes não querem enxergar a solução que a sociedade já coloca em prática por meio de movimentos populares, informais, independentes que, esses sim, acompanham de perto como a nossa juventude vive os desafios em um país com pessoas que ainda aspiram privilégios para poucos e opressão para muitos. Porque a gente sabe que os jovens afetados por uma suposta aprovação definitiva da Redução da Maioridade Penal não são todos, mas são a maioria que estamos cansados de destacar quem são.

Convido aos desenformados a conhecer as soluções que a população já criou para prevenir a violência, investindo no que realmente vai inspirar um jovem de qualquer idade a uma vida longe das estatísticas por matar ou morrer e em uma realidade diferente dessa violência institucional a que são submetidos diariamente.

Seguimos lutando…