Reportagem por Kayam Mendes. Edição de texto por Jéssica Mota (Énois) e Thiago Borges (Periferia em Movimento). Infográficos por Camila Nunes. Fotos: Arquivo Periferia em Movimento

Em Parelheiros, no Extremo Sul de São Paulo, a produção de orgânicos e o combate às mudanças climáticas são destaques do que as pessoas desses territórios têm feito para mudar a relação com o meio ambiente.

“A gente vem resgatar todo esse lado rural da cidade. Até 2014, 2015, não existia esse lado rural de São Paulo no plano diretor da cidade. Depois que a gente começou a atuar na região fomos considerados a parte rural de São Paulo”

Valéria Maria Macoratti, vice-presidente da Cooperapas

A Cooperapas é primeira cooperativa de agricultores orgânicos de São Paulo, que produz frutas, verduras e legumes, e alimenta a comunidade local com produtos orgânicos e também vende o que produz para outras regiões da cidade.

A agricultora mora em Parelheiros com seus 67 cachorros, 5 jumentos, coelhos, galinhas e gatos. Na sua propriedade de 4.000 m², Valéria concilia a produção agrícola com a vegetação nativa, num sistema de agrofloresta, e tem transformado a mentalidade dos outros 42 produtores da cooperativa, que juntos faturaram R$ 900 mil só no ano passado.

“Hoje já temos muitos agricultores produzindo frutas. Antes o pessoal que produzia aqui achava que só se podia produzir hortaliças. Mas é ao contrário, cara, aqui é Mata Atlântica e você pode produzir as frutas da Mata Atlântica!”, conta animada. “Goiaba, uvaia, a jabuticaba, o araçá, o cambuci… Estamos chamando os agricultores e orientando para que em vez de só terem horta, tenham floresta também, porque na floresta você produz”.

(Foto Thiago Borges / Periferia em Movimento)
Valéria, agricultora orgânica e vice-presidente da Cooperapas, que atua nas áreas de proteção ambiental. (Foto Thiago Borges / Periferia em Movimento)

Além disso, Valéria, que antes trabalhava na secretaria de uma escola pública, cria tecnologias para utilizar em sua propriedade e compartilhar com outros cooperados. “Eu fiz aqui tecnologias de saneamento básico alternativo, porque nós não temos saneamento básico na roça. A gente faz o tratamento das águas cinzas, que é a água em que vão as fezes, faz o tratamento e coleta da água da chuva. Também fiz um banheiro seco na propriedade”.

Agrofloresta é uma forma de cultivo agrícola sem agrotóxicos e que faz o uso sustentável do solo e da água, aproveitando a estrutura da floresta nativa para produzir. Por exemplo: quando as folhas caem das árvores, elas adubam a terra naturalmente. Dessa forma, o que for plantado nessa mesma área se aproveita desse solo rico em nutrientes e cresce com mais facilidade. Com o tempo, espécies de animais também começam a aparecer, gerando uma maior biodiversidade naquele território. 

Meio ambiente negligenciado

A ampliação das agroflorestas no Brasil foi anunciada como estratégia de combate às mudanças climáticas em 2016, durante a Conferência das Nações Unidas para Mudanças Climáticas no México, a COP13.  Na época, foi acordada a expansão das agroflorestas para 22 milhões de hectares até 2030, uma área do tamanho do Estado de São Paulo.

Entretanto, dados disponibilizados pelo Projeto de Mapeamento Anual da Cobertura e Uso do Solo no Brasil (MapBiomas), demonstram uma contínua queda na cobertura de florestas em todo o País:

Já na última COP, realizada em Madri, na Espanha, em dezembro de 2019, o governo federal reforçou a postura negacionista com as mudanças climáticas e mostrou que não está disposto a incluir o povo nas discussões sobre o clima. Durante o ato de “minuto de silêncio”, contra a morte dos caciques da tribo Guajajara, Firmino Prexede Guajajara e Raimundo Belnício Guajajara, assassinados durante a COP acontecia em Madrid, o ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles não deu as mãos aos demais participantes que estavam em círculo, em respeito aos indígenas mortos na reserva.

Além disso, dentro do espaço da delegação brasileira estava estampada numa parede a bandeira do Brasil e, ao invés do brasão “Ordem e Progresso”, vinha o escrito “Produtor rural brasileiro — O grande parceiro ambiental”, em inglês.

Em 2019, a delegação brasileira contou com 168 delegados durante a conferência, mais que os 27 países que compõem a União Europeia, que levou 125 e que os Estados Unidos que levou 78. A conferência é organizada anualmente e é o momento que representantes políticos do mundo e as ONGs que lutam pela preservação ambiental se encontram para fechar acordos sobre como vão preservar os recursos ambientais que ainda restam e enfrentar as mudanças climáticas.

O ano de 2019 foi marcado pelo rompimento da barragem do Fundão, em Brumadinho (MG), que revelou a falta de capacidade fiscalização ambiental do Ibama e do Instituto Chico Mendes de Conservação Ambiental; também pelo caso das queimadas intencionais na Amazônia, que representaram um aumento de 29,54% no desmatamento; e ainda pela lenta resposta ao vazamento das 5,3 mil toneladas de resíduos que atingiram 11 estados diferentes em toda a costa brasileira.

Fora isso, o papel político do Brasil, antes protagonista internacional no debate sobre o meio ambiente, foi destacado na COP 25 como um dos países que barraram os acordos que tinham o objetivo de reduzir a estimativa do aquecimento global até 2030 – a comunidade científica prevê que a temperatura mundial vai aumentar em 3,2ºC, o que pode causar o derretimento das geleiras, o aumento do nível do mar, a desertificação de algumas áreas do planeta e ondas de calor cada vez mais intensas em todo o planeta.

Além do Brasil, EUA, China e Austrália também enfraqueceram as ações. Começando pelo acesso: historicamente, o governo brasileiro credenciava representantes da sociedade civil, mesmo que fossem de organizações sem o status de observadoras à ONU. Mas nesta edição, o governo federal não disponibilizou acessos para os brasileiros que tinham interesse em participar das discussões.

“Na Rio 92, as Nações Unidas mudaram e recepcionaram as ONGs e as diversidades dos níveis sociais do País.  A partir dali, a diversidade da delegação brasileira sempre representou a diversidade e a qualidade da sua democracia brasileira. Infelizmente o que a gente vê hoje aqui é um tom que é diferente do que sempre foi a prática do Brasil”, comentou a ex-ministra do Meio Ambiente do governo Dilma, Izabella Teixeira, durante o lançamento do Manifesto em Defesa a Democracia.

Lições das quebradas

A diversidade e o protagonismo que não foram vistos em Madr são nítidos em Parelheiros. Apesar de desafiador, o trabalho da Cooperapas é extremamente importante para ajudar no combate às mudanças climáticas.

“Parelheiros tem o segundo menor IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) da cidade de São Paulo. Mas ainda não viram que Parelheiros é o único lugar em São Paulo que produz água. Temos remanescentes de Mata Atlântica. Temos dois rios aqui você pode beber a água do rio. Eu me sinto em Parelheiros como se eu me sentisse no paraíso, tá? Aqui a gente respira um ar puro. Se você quebrar seu carro você não precisa chamar a Porto Seguro, porque aqui ninguém nem tem Porto Seguro. A gente fica na rua e alguém passa e te ajuda”, conta Valéria.

Esse ciclo de plantio, consumo e descarte de resíduos de forma ecológica e em conjunto entre a comunidade contribui para diminuir os já abarrotados aterros sanitários que recebem, só em São Paulo, 12 mil toneladas de lixo domiciliar todos os dias! Conhecido como economia circular, esse processo de produção, consumo e reaproveitamento dos resíduos se baseia na ideia de que o ciclo de vida do produto se encerra onde ele “nasceu”. O que é orgânico é reaproveitado na compostagem ou serve de adubo e o que não é orgânico é reciclado.

É exatamente esse o trabalho realizado também pela Quebrada Orgânica. Idealizada pelo casal Robert Placides e Joy Izauri, moradores do Campo Limpo, na zona sul, a iniciativa promove a criação de hortas caseiras, composteiras domiciliares e a educação ecológica com intervenções artísticas e desenvolvimento local por meio de vivências rurais.

“Criamos [o projeto] para trabalhar a questão do lixo e da alimentação juntos. Então a gente chega na casa das pessoas com a composteira, feita de galões de água que iriam para o lixo e depois de um tempo que a pessoa está ‘compostando’, a gente volta lá e ajuda a construir uma pequena horta, com o espaço que der e com o que der para produzir. Aí ela pode comer, usar para cozinhar o que plantou ou trocar com o vizinho”

Joy Izauri, do Quebrada Orgânica

Esse esforço em produzir e consumir comida orgânica “sem sair de casa” levou Jaison Lara, morador da Ilha do Bororé (no Grajaú), a fundar o Café da Mata. Depois de trabalhar durante dois anos comercializando cestas de produtos orgânicos para a cidade, ele decidiu fundar o café como um espaço cultural que centraliza na região um ponto de alimentação saudável para as pessoas da própria comunidade. Os fornecedores são de lá mesmo. O cardápio, que vai desde sorvete de jabuticaba, cerveja artesanal, licores de frutas da época e até salgados veganos, foi pensado com base no que é produzido na própria região.

“Fomentar esse tipo de economia torna seu espaço um empreendimento solidário, né? Consumir um produto da Mata Atlântica e preservar esse tipo de consumo impacta positivamente. Essas discussões no macro, a quebrada já está fazendo isso há muito tempo”, diz Jaison.

“A periferia já está produzindo esse tipo de tecnologia há muito tempo. Então enquanto a gente não vê isso e não valorizar isso não adianta a gente fazer discussões macro que a galera nem acessa, ou então a gente valida o que está sendo produzido a partir das bordas”

Jaison Lara, do Café da Mata
(Foto: Thiago Borges / Periferia em Movimento)
Jaison Pongiluppi Lara em sua horta na Ilha do Bororé: sem água encanada, morador cria alternativas próprias. (Foto: Thiago Borges / Periferia em Movimento)

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