Pra que serve uma escola?

Em tempos de perseguição a professores estimulada por parte dos governantes, cortes nos investimentos e infraestrutura, as condições em sala de aula continuam precárias. Mas na periferia da Zona Sul de São Paulo, uma escola pública se tornou referência na relação com a quebrada do entorno e transformação do bairro em um território educador: a EMEF Sócrates Brasileiro, no Jardim Olinda, que nos últimos 10 anos foi dirigida por Solange Amorim.

“Sabe aqueles conceitos da pedagogia que só conhecíamos a teoria e tantos outros que a dinâmica viva da realidade pulsante das escolas, com seus desafios e contradições, nos obriga a criar? Então, foram anos de muita aprendizagem, sobrevivendo a toda sorte de problemas, desafiando limites, alargando olhares”

Solange Amorim, ex-diretora da EMEF Sócrates Brasileiro

Solange faz parte do #NossoBonde, série que a Periferia em Movimento publica todas as segundas-feiras de 2019. Neste ano em que completamos uma década de jornalismo de quebrada, convidamos moradoras e moradores das quebradas que nos ajudaram a refletir sobre a realidade na perspectiva periférica ao longo desse período – e, também, pra saber como imaginam os próximos 10 anos.

Território do Povo

Com 49 anos, Solange vive desde 1977 na Zona Sul de São Paulo e trabalha desde 1990 como professora na rede pública de ensino. Iniciou a carreira na rede estadual e, a partir de 1999, ingressou no sistema municipal. Em 2010, ela pede exoneração ao governo do estado para dirigir a EMEF Campo Limpo I.

Aberta um ano antes, essa escola teve o novo nome escolhido a partir de várias atividades interdisciplinares, com participação de pais, alunos e professores. Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira foi então escolhido como patrono do colégio por sua atuação como esportista, como médico e, principalmente como defensor da democracia.

O homenageado, que morreu em 2011 aos 57 anos, é considerado um dos maiores jogadores do futebol brasileiro e é conhecido também por sua atuação política, por ter liderado a Democracia Corinthiana, que reivindicava aos jogadores mais liberdade e mais influência nas decisões administrativas do clube, e por ter participado do movimento Diretas Já!

Minifloresta da Sócrates (foto divulgação)

Para reagir e mudar a situação, a direção fortaleceu o grêmio e o próprio conselho escolar, fomentando o protagonismo de crianças e adolescentes e aguçando seu olhar crítico para o que acontecia dentro e fora da escola. Depois, buscou outros agentes de saberes da região, como a Associação de Amigos do Jardim Olinda, o Sarau do Binho, a Brava Companhia de Teatro, a Escola de Samba Acadêmicos de Campo Limpo, o coletivo Kores Valores Crew, entre outros.

À frente da EMEF Sócrates, Solange e a comunidade ocuparam um terreno baldio ao lado da escola, onde hoje tem uma minifloresta com mais de 150 espécies da Mata Atlântica e uma horta comunitária. Essa articulação deu origem à luta popular pela ocupação social do terreno, denominada Território do Povo, que reivindica a construção de um galpão cultural no espaço.

O muro ganhou um graffiti e o projeto ganhou reconhecimentos, como Prêmio de Educação em Direitos Humanos (2016), o Prêmio Paulo Freire de Qualidade de Educação Municipal (2017) e o prêmio da chamada aberta da 11ª Bienal de Arquitetura de São Paulo.

“Os meus 10 anos nesse território possibilitaram-me enxergar a potência cultural desse lugar em suas mais diversas manifestações, a resistência e a capacidade criativa da periferia em produzir conhecimento, novas formas de vida, driblando a dor e as desigualdades”

Solange Amorim

Hoje, Solange atua na Diretoria Regional de Ensino (DRE) do Campo Limpo, onde trabalha pela ampliação dos territórios educadores pela região. Para a próxima década, ela espera uma pedagogia subverta o apartheid social já na educação infantil e seja capaz de formar pessoas comprometidas com o coletivo, a democracia, a justiça social, o meio ambiente e o planeta.

“Que a escola seja o lugar onde aprendamos a conviver, respeitando as nossas diferenças e reconhecendo a nossa diversidade. Que haja liberdade para pensar e estudar e que o conhecimento produzido esteja a serviço da vida contra qualquer forma de opressão e exploração, e não do lucro”, finaliza.

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