De “fulana é vagabunda” a “você é uma garota incrível”: nos últimos 10 anos, Elânia Francisca percebeu uma mudança na relação entre meninas a partir do teor das pixações em banheiros femininos de escolas nas periferias de São Paulo.

E é a partir desses detalhes do cotidiano que ela alimenta a esperança nessa nova geração.

“Atualmente, a rivalidade entre meninas segue sendo uma questão, mas existem muitas ranhuras que elas estão provocando. Isso coloca pra gente uma perspectiva”

Elânia Francisca

A capixaba de 34 anos cresceu no Grajaú (Extremo Sul de São Paulo), mora atualmente no Jardim Primavera e é figurinha carimbada aqui na Periferia em Movimento. Por isso ela faz de #NossoBonde, série que a gente publica todas as segundas-feiras de 2019. Neste ano em que completamos uma década de jornalismo de quebrada, convidamos moradoras e moradores das quebradas que nos ajudaram a refletir sobre a realidade na perspectiva periférica ao longo desse período – e, também, pra saber como imaginam o futuro.

Psicóloga e oficineira de gênero e sexualidade, Elânia integra o A Bordar Espaço Terapêutico e realiza oficinas pelo projeto Sexualidade Aflorada, em que discute questões de gênero com adolescentes da quebrada e profissionais que trabalham com elas. Ela já trocou ideia com a gente sobre saúde mental de mulheres periféricas e também como identificar e lidar com casos de violência sexual contra crianças e adolescentes, por exemplo.

AJUDE! Entre maio e junho de 2019, o A Bordar Espaço Terapêutico (onde Elânia e outras mulheres promovem a saúde mental de mulheres periféricas) sofreu dois furtos. O prejuízo soma R$ 15 mil. Para voltar a atender o público, elas criaram uma vaquinha online. Contribua a partir de R$ 10 clicando aqui ou abaixo!

Mudança de hábito

Em 2009, Elânia já fazia algumas atividades em escolas da região, principalmente sobre gravidez na adolescência e prevenção a infecções sexualmente transmissíveis (ISTs). Nessa época, já sacava como a rivalidade feminina era presente nas relações entre as meninas no convívio escolar: o comportamento, os padrões de beleza e o casamento como meta intensificavam isso.

“Desde comentários como ‘detesto ela porque ela é muito metida só porque tem o cabelo cumprido’ até o alto número que brigavam na porta da escola, meninas que raspavam a cabeça das outras – e aí entra a questão da rivalidade com os danos do racismo, que dizia qual era o cabelo bonito, o liso e cumprido”

Sobre a rivalidade na escola

Acontece que, na última década, muitas coisas aconteceram.

O feminismo e as discussões sobre gênero avançaram nas quebradas. Não significa que os problemas acabaram – em 2015, por exemplo, a própria Elânia falou com a gente aqui sobre o TOP 10 do Whatsapp, uma prática de cyberbllying que consiste na exposição não consensual de meninas em fotos sensuais por meio das redes sociais.

“Mas eu percebo outro movimento nas escolas, que é de tentar criar uma aproximação entre as meninas”, conta Elânia. Em uma oficina na Escola Estadual Joaquim Alvares Cruz, no Barragem (Parelheiros), ela foi ao banheiro novamente. Viu que as paredes ainda têm pixações com xingamentos, mas sobressaem as mensagens positivas. “E isso é maravilhoso, porque quando uma menina olha pra outra e vê que não precisa rivalizar, há a possibilidade de irmandade e cuidado mútuo”, explica.

E essa revolução também impacta os meninos, que têm refletido sobre o que é ser homem nessa sociedade. Em uma ação realizada pelo A Bordar no dia 08 de março em frente à Estação Primavera-Interlagos da CPTM contra o feminicídio, um adolescente fez um vídeo em que dizia que “esse não é o tipo de homem que eu quero ser”. Assista abaixo:

Apesar de um presente desanimador, essas transformações mantém viva a esperança de Elânia.

“Quando o Presidente da República coloca a ideia do lugar que a mulher deve ocupar e em que o homem deve estar na sociedade, e quando a gente vê meninas e meninos dizendo que não querem ter tal tipo de relação, isso é muito revolucionário e dá esperança pra daqui a 10 anos”.

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