Por Thiago Borges. Arte: Rafael Cristiano

Identificada como Mãe Correria, uma artista do Extremo Sul de São Paulo está coletando assinaturas em uma petição on-line para denunciar a censura ao graffiti da “Nossa Senhora do Matriarcado”. O objetivo é estabelecer um diálogo com a Prefeitura do município. Clique aqui para assinar.

A obra, que desde 2019 ilustrava o muro da EMEI Santos Dumont (na Pompeia, zona Oeste da cidade), foi apagada por equipes da Prefeitura paulistana no final do mês passado após reclamações do vereador Delegado Palumbo (MDB). Eleito pela primeira vez com 118 mil votos nas eleições de 2020 pelo MDB, mesmo partido do prefeito Ricardo Nunes, o parlamentar publicou vídeos em suas redes sociais dizendo que o graffiti desrespeitava Nossa Senhora Aparecida, um símbolo da fé católica, e ameaçou ele mesmo pintar o muro se a Prefeitura não tomasse “providências”.

Arraste a seta para ver muro antes e depois das críticas do vereador à obra

Porém, a artista Mãe Correria destaca que o graffiti não retrata uma santa ou qualquer entidade religiosa. “É a figura da minha avó, transformada por meio da arte em Nossa Senhora do Matriarcado, padroeira da mães correria, protetora do Matriarcado de Quebrada”, ressalta.

Mãe solo, educadora e funcionária pública, a artista de 41 anos preferiu não revelar seu nome por medo de represálias. Com 20 anos na arte, há 8 ela tem as ruas e espaços públicos como suportes para suas manifestações. Uma delas é a figura de “Nossa Senhora do Matriarcado”, inspirada em sua avó materna, uma mulher negra e nascida na favela.

“Filha de uma mãe negra e pai indígena, ambos do interior de São Paulo, ela sempre manteve a tradição ancestral de passar os conhecimentos por meio de muita conversa”, aponta Mãe Correria. “[Ela contava] como vivemos num sistema matriarcal desde sempre, com as mulheres e as mães sendo a engrenagem fundamental para a existência da famílias, da vivência comunitária, do elo que devemos manter entre os nossos”.

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Padroeira censurada

A figura estampa pinturas em muros Brasil afora: das periferias de São Paulo a paredes em Recife, Natal e Salvador, além da reprodução em lambes em Maranhão, Goiás e Rio de Janeiro. Em uma pintura no Bixiga, a obra resistiu por 1 semana até ser apagada.

Pintura feita no Bixiga também foi censurada: resistiu apenas 1 semana (foto: divulgação)

Dessa vez, o alvo de censura na Pompeia. Na região, há cerca de 30 anos acontece o tradicional Encontro de Graffiti da Pompeia. A escola apenas cede a parede para as intervenções, que são feitas por artistas com seus próprios materiais.

Após a ameaça do vereador Palumbo, a direção da escola entrou em contato com Mãe Correria, que se ofereceu para pensar algum tipo de ação e até pintar uma flor sobre o “dedo do meio” levantado pela imagem feminina retratada no graffiti. “Em 72 horas ele conseguiu mobilizar os órgãos e já chegou na escola pintando o muro de amarelo, fazendo vídeos super agressivos e alimentando os discursos de ódio, ganhando mídia, oprimindo quem ele pode”, diz ela, que classifica a ação do vereador como “arbitrária”.

“A censura vem a partir do momento em que ele toma uma decisão arbitrária, sem diálogo, desrespeitando a comunidade escolar, a unidade, o conselho, os moradores, utilizando de seu ‘poder’para pressionar instancias superiores e simplesmente apagar o que ele considerou não ser arte”, corrobora.

Para ela, a arte na rua estabelece conexões reais com outras mães utilizando uma linguagem do Hip Hop. “É a nossa maneira de expressão, nossa fala periférica podendo ser espalhada em qualquer lugar, me levando a conhecer mães correrias de diversas quebradas do Brasil, me fortalecendo e comprovando que toda Quebrada é Matriarcal”, completa.

O que dizem as autoridades

A Periferia em Movimento questionou o mandato do Delegado Palumbo por e-mail, mas não obteve retorno até o momento.

A reportagem também questionou a Prefeitura de São Paulo e as Secretarias Municipais de Cultura e Educação para entender os critérios para manter ou não um graffiti na parede e se a administração municipal deve fazer algum tipo de “filtro” sobre intervenções artísticas. Por meio de nota, a Secretaria Especial de Comunicação limitou-se a dizer que “a Prefeitura de São Paulo, por meio da Secretaria Municipal de Educação, informa que a imagem foi removida e reafirma o seu respeito a todas as religiões”.

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