Nossa resistência é pacífica, mas não pode ser silenciosa

Dia 9 de novembro não seria apenas mais uma sexta-feira. Naquela manhã, acordei cedo para trabalhar de casa e me irritei com a falta de sinal do Speedy. O anormal do cotidiano não era bem isso. Na noite anterior, os conflitos entre o “crime organizado” e os “representantes do estado” que já pipocavam na cidade toda, enfim, chegaram ao Grajaú – o mais populoso distrito de São Paulo, com quase 500.000 habitantes. Pessoas foram mortas e ônibus incendiados. O que eu não imaginava é que essa guerra chegaria tão próximo a mim.

Não passava do meio-dia quando uma amiga me enviou uma mensagem pelo celular. Renato, nosso amigo de infância, acabara de ser assassinado.

Como escrevi naquele dia, conheci o Renato há uns 15 anos. Tínhamos a mesma idade. Estudamos juntos desde o primário em uma escola aqui no Grajaú, que já foi considerada a pior do estado de São Paulo. Rimos, zoamos, discutimos, até fomos expulsos juntos da sala de aula. Terminamos o colegial. As vidas seguiram rumos diferentes, ficamos sem nos ver por um tempo e retomamos contato há quase dois anos. Muita coisa tinha mudado, mas ao mesmo tempo tudo continou igual, entende?

Renato curtia samba e cerveja, era conhecido no bairro e todos o chamavam por Cebola, apelido da época da escola. Trampava na entrega do Sedex, namorava, tinha sonhos. Naquela sexta, saiu mais cedo de cada para comprar um par de tênis e depois ia trabalhar. No meio do caminho, porém, os planos dele foram interrompidos.

Eram 10 horas da manhã. Renato passava em frente ao pronto socorro Maria Antonieta quando foi atingido por um tiro certeiro. Com o peito perfurado, foi socorrido ali mesmo, mas não resistiu. Num contexto misterioso que ronda muitas das mortes que aconteceram este ano nas periferias de São Paulo, ainda não se sabe se a bala que matou meu amigo saiu do revólver da PM ou do PCC. O que eu sei é que muita gente apertou o gatilho.

Ainda que o governador, o secretário de segurança e demais autoridades que estão enclausuradas em seus castelos no centro expandido se recusem a admitir, estamos sim vivendo uma guerra. É visível que o tal um acordo selado em 2006, que garantiu alguns anos de “paz” às periferias, foi quebrado. O acerto de contas acontece nas ruas, estamos vendo. De um lado, a ROTA caça os criminosos sem, que executam covardemente PMs, que revidam atirando em quem encontram pela frente. Cada um está de um lado, todos têm culpa, mas tanto um quanto o outro é vítima do abandono.

Como escrevi naquela sexta, não são os amigos ou familiares do governador ou da presidenta que estão morrendo; nem do secretário ou dos comandantes da polícia; e nem dos chefões do crime organizado. De janeiro a outubro, 4.396 pessoas foram assassinadas em todo o Estado de São Paulo. Em torno de 100 policiais. O restante são todos civis. E não se pode dizer que todos estavam envolvidos com o crime. Basta conferir as notícias recentes sobre “motoqueiros fantasmas” que chegam atirando em bares da quebrada a torto e a direito. Na linha de fogo, estamos eu, você, o Renato.

A violência tem mão dupla e é consequência do descaso. Não temos escolas, saúde, emprego perto de casa, transporte digno nem opções de lazer. Acha mesmo que ter a Rota nas ruas vai resolver o problema? Isso vai apenas intensificar os conflitos.

Como cidadãos, também temos culpa disso. Não enxergamos – ou não queremos enxergar – o que está acontecendo ao nosso redor. Concordamos com especialistas em segurança e jornalistas que nunca colocaram o pé na favela quando eles botam caras muito parecidas com as nossas na TV e julgam antes da justiça. Ou quando falam dos PMs que mataram ou morreram. Você não se reconhece nesses rostos? Eles são iguais aos nossos. E por sermos iguais, também nos tornamos alvo e entramos para as estatísticas. Isso é genocídio do povo pobre das periferias.

Não dá pra depender das autoridades públicas, muito menos da imprensa, que distorce informações e geralmente publica apenas a versão oficial: resistência do “suposto” bandido seguida de morte. E qual a nossa resistência?

Por conta do texto que escrevi no dia de sua morte, algumas pessoas abriram os olhos para o que está acontecendo de fato na periferia de São Paulo. Reportagens sobre o Grajaú foram realizadas. Muita gente manifestou solidariedade, protestou de alguma foram e se dispôs a ajudar.

Como jornalista e morador de um bairro periférico, sei bem que tem muita coisa boa acontecendo na quebrada. Há mais de 9.000 coletivos culturais em ação, entre saraus, shows, peças de teatro, espetáculos de dança, rodas de samba e outras manifestações que envolvem milhares de pessoas. Mas não interessa à grande mídia dar destaque a isso nem ao governo ou elite fomentar esses projetos.

Como cidadãos no meio do fogo cruzado, podemos optar entre nos recolher em nossas casas com nossa indignação; ou entrar nessa guerra com as armas que temos. Somos 8,5 milhões de pessoas nas periferias de São Paulo – dois terços da população da cidade. Devemos continuar nos indignando com o que está acontecendo, mas fazer algo além de lamentar.

Já perdi pessoas próximas, porém nunca um amigo que marcou 15 anos de minha vida e me deixou de forma tão dolorosa. Minha dor pela morte do Renato está cessando, mas a indignação é para sempre.

Por isso, minha responsabilidade aumenta ainda mais. Como única arma que tenho para lutar, escrevi um texto, coletei exemplos de gente que não se deixa abater diante da violência que estamos sofrendo e hoje, quase três semanas depois do assassinato do meu amigo, peço licença ao coletivo Periferia em Movimento para me manifestar novamente. Aqui, vou continuar escrevendo não só para falar disso mas para destacar as batalhas travadas por outros moradores das quebradas para transformar nossa realidade.

Por meio do Periferia em Movimento, vamos intensificar esse conflito colocando a nossa arma no meio: a informação. Nos próximos dias, vamos entrevistar moradores de bairros periféricos para traçar um panorama fiel do que está acontecendo. Se existe uma guerra, deve haver uma resistência. E nossa resistência é pacífica, mas não pode ser silenciosa. Somos 8,5 milhões!

Se você quiser participar, comente abaixo ou mande um e-mail para [email protected] com nome, idade e bairro onde mora. Diga-nos como você está resistindo ao massacre do nosso povo – seja com protestos, passeatas, manifestações artísticas, atuando e desenvolvendo projetos sociais, ou mantendo sua rotina – e como você espera contribuir para uma sociedade de paz. Mande depoimentos, poesias, fotos, vídeos, músicas, o que quiser.

Que o Renato e as demais vítimas dessa guerra descansem em paz. E como prometido a eles, enquanto estivermos aqui não vamos descansar até que isso mude!

OBS: A foto em destaque (que está circulando no Facebook) mostra uma manifestação feita na estrada MBoi Mirim pelos amigos de Luciena, jovem assassinada numa chacina na semana passada na zona Sul de São Paulo. Mais de 800 pessoas resistiram e responderam pacificamente, mas de forma nada silenciosa, a mais um ato de violência cometido