foto: Carolina Teixeira

No meio do caminho, tinha um grafitaço contra o machismo

Tinha um grafitaço no meio do caminho de Ingrid. No meio do caminho, tinha um grafitaço.

No ensolarado sábado de 23 de maio, a adolescente de 13 anos caminhava apressada para a casa da amiga, na rua de cima. Pegou um atalho para chegar mais rápido, quando se deparou com mais de 20 mulheres grafitando e colando lambe-lambes nos muros do escadão. Ingrid estacionou ali.

“Tava passando, vi e fiquei. Já descobri várias coisas hoje”, diz ela, que está aprendendo a grafitar com o irmão mais velho e, nessa ação, foi “adotada” pela artista Laila Almeida Braga.

“Eu achei da hora ela me ajudar. Já até fui na casa dela pra limpar os pincéis”, conta Laila, que mandou um “somos rainhas” no muro outrora cinzento.

Ingrid não foi a única “novinha adotada”. No fluxo frenético do sábado, cada menina ou menino que passava e estacionava também, uma grafiteira convidava pra ajudar na intervenção – e, de quebra, trocar uma ideia sobre sexualidade.

Realizado pelo coletivo Mulheres na Luta e por profissionais da Unidade Básica de Saúde (UBS) Jardim Castro Alves, no Grajaú (Extremo Sul de São Paulo), o chamado Grafitaço Feminista Top 10 é uma reação à exposição de fotos íntimas e xingamentos de meninas em mídias sociais.

A ação de cyberbullying praticada por meninos e algumas meninas contra outras adolescentes consiste em fazer montagens de fotos das vítimas e classificá-las como “as 10 mais vadias”.

Os vídeos circulam pelos celulares dos colegas de sala, viralizam nos grupos do WhatsApp, ultrapassam os portões da escola e ganham as ruas com pixações.

Algumas adolescentes abandonam as aulas e se confinam em casa. Em março deste ano, apenas na região do Grajaú, quatro delas se suicidaram, segundo Elânia Francisca.

“A gente não podia aceitar que quatro meninas tinham morrido e não fazer nada”, diz Elânia, que integra o Mulheres na Luta e atua como consultora de sexualidade na Associação Saúde da Família, responsável pela UBS Castro Alves. “Um dia, quando chegava à UBS, passei em frente a esse escadão e tava pixado: ‘J******., puta do Top 10’”, conta.

Elânia começou a problematizar a questão com os agentes comunitários de saúde. A ideia do grafitaço no escadão surgiu em março, nas discussões sobre o Mês da Mulher, com intuito de aproximar a UBS da comunidade e o feminismo das adolescentes.

“A violência sexual e doméstica acontecem de forma velada. Só conseguimos fazer o enfrentamento sensibilizando a população”, aponta Bete Bahia, que coordena projetos na área da saúde na Capela do Socorro e Parelheiros.

Nesse sentido, debater o sexo e as relações de opressão nas ruas, vielas e escadões é primordial.

Dona Maria José que o diga. Após ficar sentada por quase uma hora num degrau observando a artista Drika Duarte grafitar, ela começa a falar das opressões que sofreu e da libertação que conquistou sozinha ao decidir fugir de casa, deixando o ex-marido violento para trás. “Deus abençoe nós tudo”, disse.

Para Vanessa Cândida, 17 anos, as discussões no coletivo Mulheres na Luta foram essenciais. “Se eu visse o Top 10 dois anos atrás, ia encarar como algo natural e achar que as meninas que foram bobas, etc”, diz ela, que estuda em uma escola estadual no Jardim Mirna, onde algumas colegas foram vítimas da prática. A única atitude da direção da escola foi afixar cartazes com recomendações para fazer um boletim de ocorrência contra os agressores.

“Nada aconteceu e as meninas ficaram às traças. A menina é punida quando não pode desenvolver sua sexualidade, quando cai no Top 10 e quando não tem orientação, enquanto o menino é ensinado a ser o macho-alfa”, observa.

Para a arte-educadora e professora de artes na rede pública Mariana Salomão, 34 anos, o machismo se utiliza de novos discursos e formas para continuar se perpetuando.

“E isso reverbera na escola. A reprodução desses discursos começa já com os pequenos, e ganha força entre os adolescentes, pois, além dessa ‘ideia’ do papel da ‘mulher de verdade’, se agrava ao estarem numa fase onde a sexualidade se aflora”, aponta Mariana, que decidiu participar do evento para intervir no dia a dia das pessoas. “A nossa voz é a nossa arte, vem da força de quem não tem voz, de quem não é ouvida.”

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A reação que incomoda

“As meninas aqui [na periferia] sofrem coisas que meninas não-periféricas não sofrem. Por exemplo: quando tem evento no Autódromo de Interlagos, o número de casos de exploração sexual aumenta na região, e essas meninas que são exploradas”, nota Elânia.

“Apesar de tudo isso, elas ousam viver sua sexualidade e estão dando a cara a tapa para uma revolução sexual feminina”, continua. “Quando uma mulher avança, o homem perde privilégios, mas não perde direitos”.

Porém, no dia seguinte ao grafitaço, o escadão acordou com algumas intervenções apagadas e tinta verde jogada em palavras como “sexualidade”.

“A palavra  ‘puta’ ficou um ano ou mais ali no muro e ninguém se incomodou. Mas bastou uma mulher dizer ‘meu corpo, minhas regras’ que isso foi visto como afronta”, lamenta Elânia.

Mesmo com o chateamento que isso provoca, as Mulheres na Luta não pretendem parar. O grafitaço é só o começo.

“Isso só reforça nossa certeza de que a luta feminista se faz necessária e mostra às meninas da comunidade que existem mais mulheres vivendo sua sexualidade sem se envergonhar por isso”, continua ela.

Com apoio do Programa VAI, as oito integrantes do coletivo vão debater gênero e sexualidade a partir de uma perspectiva não-machista em escolas da região. E, nesta sexta-feira (29 de maio), promovem mais uma edição do Sarau das Mina (veja informações abaixo).

“Estamos aqui para afirmar que, se mexer com uma, tá mexendo com todas. Não vamos aceitar que nenhuma menina seja exposta novamente”, conclui Elânia.

 

Anotaí!

O coletivo Mulheres na Luta promove a terceira edição do Sarau das Mina, com uma esquete de Lucimeire Martins em homenagem à escritora Carolina Maria de Jesus e a distribuição do zine Ubuntu, produzido pelo coletivo Malungo.

Quando? Sexta-feira, 29 de maio, às 20h30

Onde? No Tribos Bar – Rua Maria Casusa Feitosa, 327 – Jordanópolis – Extremo Sul de São Paulo

Mais informações aqui