Na Periferia, comunidades religiosas empoderam

Diz o ditado popular que religião não se discute, certo? Pois um grupo com mais de 300 pessoas se articula para fazer justamente o contrário. Criada em 2007, a Rede Ecumênica da Juventude (REJU) se articula com jovens dos centros e das periferias, das cidades e do campo, nas cinco regiões do País, para promover o diálogo contra a intolerância – não só religiosa, mas em diversos âmbitos. A foto em destaque, por exemplo, mostra um ato ecumênico contra a intolerância religiosa em São Paulo.

Se por um lado, a rede combate “ensinamentos” proferidos como o deputado Marcos Feliciano (PSC-SP), famoso por suas posições homofóbicas e racistas, de outro procura fortalecer politicamente as ações da juventude, incentivar a capacitação e articulação dos jovens, debater e refletir sobre a violação e superação dos direitos da juventude.

Além de se relacionar com entidades religiosas e não-religiosas, o grupo também se relaciona com movimentos populares, como os sem-terra (MST) e a Marcha Mundial de Mulheres, entre outros.

Buscamos a garantia de se viver como jovens, em suas ambiguidades e modos distintos, jovens como sujeitos de direitos e protagonistas de suas histórias”, explica Daniel Souza, facilitador nacional da REJU e membro do Conselho Nacional de Juventude (Conjuve).

Nesta entrevista, conversamos com Souza e também com Daniel Mariano, integrante da REJU-SP e morador da Brasilândia (zona Noroeste de São Paulo) sobre o contexto religioso brasileiro e como é ser adepto a uma religião minoritária nas periferias. Confira:

 

PERIFERIA EM MOVIMENTO – O que é a REJU, e como e por que ela surgiu?

Daniel Souza – A REJU nasceu em 2007, como um projeto do Fórum Ecumênico ACT Brasil (FEACT Brasil). O intuito era a construção de uma organização de jovens com distintas vivências de espiritualidade (compreendida em seu sentido mais amplo) para a garantia de direitos. Ao seguir a caminhada ecumênica, a REJU nasceu compreendendo que a construção de uma casa-comum realmente justa é sinal profundo de uma boa espiritualidade. Junto a essas perspectivas, a rede também teve como intuito aproximar as juventudes das trajetórias do movimento ecumênico, um importante ator de resistência durante a ditadura civil-militar no Brasil e durante o processo de redemocratização do País.

Nestes movimentos, a REJU é um espaço onde procuramos falar não de coisas, estruturas ou pesos institucionais. Mas falamos de pessoas, construímos relacionamentos que dão poder, resistem e transformam. Assim acontece a Rede Ecumênica da Juventude, embalada pelos sonhos de muitas gentes, das cinco regiões do país, dos mundos urbanos e rurais, dos centros e das periferias, buscando a radicalização da democracia; a defesa da liberdade e a diversidade das formas de se construir… e a garantia de se viver como jovens, em suas ambiguidades e modos distintos, jovens como sujeitos de direitos e protagonistas de suas histórias.

 

PeM – E quantos grupos religiosos e movimentos sociais estão hoje articulados pela REJU?

Daniel Souza – A rede se constrói a partir dos relacionamentos entre pessoas que vem de distintos lugares. Há jovens cristãos, de igrejas protestantes: metodistas, batistas, presbiterianos, anglicanos; da igreja católica romana, da igreja católica brasileira; de igrejas pentecostais, como a Assembleia de Deus e comunidades independentes; de religiões como o budismo e o candomblé; e gente sem religião. Em relação aos movimentos, temos jovens do Movimento dos Sem Terra (MST), da Comissão Pastoral da Terra (CPT), de Sindicatos, da Educafro, da Marcha Mundial de Mulheres, de organizações como a Pastoral Universitária Ecumênica, do Conselho Latino-americano de Igrejas (CLAI), do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (CONIC), do Centro de Estudos Bíblicos (CEBI), de projetos articulados pela Coordenadoria Ecumênica de Serviço (CESE) e pela Fundação Luterana de Diaconia (FLD), gente da KOINONIA (entidade ecumênica). São ao todo 300 jovens que se articulam no espaço da REJU.

 

PeM – Como a REJU avalia o cenário religioso no Brasil atual?

Daniel Souza – O campo religioso brasileiro é bem dinâmico. Não há como definir ou traçar um panorama profundamente adequado em relação à diferença religiosa no país. O que conseguimos é levantar algumas perspectivas, especialmente em relação às juventudes. Há dados da pesquisa O sonho brasileiro, realizada em 2010, que apontam marcas interessantes.

Essa pesquisa sinaliza um perfil da juventude, trazendo indícios de como se dá a vivência religiosa por parte das(os) jovens. Como dados quantitativos: 77% das(os) jovens se sentem livres para experimentar outras religiões; 68% apontam que as Igrejas deveriam ser mais flexíveis; 43% afirmam ter religião e ser praticantes; 36% afirmam ter uma religião e não ser praticante; 17% afirmam ter uma espiritualidade independente de religiões; e 4% são ateus. A pesquisa sinaliza, além da presença dos sem religião cada vez mais crescente, a tendência articuladora de vivências de fé. Uma interessante mistura.

Embora a pesquisa sinalize certa resignificação de determinadas instituições por parte dos jovens, nas religiões, este ímpeto de mudança é menor. No entanto, a juventude entrevistada na pesquisa sinaliza abertura a uma espiritualidade mais pessoal, com a possibilidade de se vivê-la em livres experimentações; articulando-se com o reconhecimento dos espaços religiosos como importantes na construção de identidades juvenis, na agregação social e na incidência e atuação política. Em certa medida, não podemos descolar essa análise dos panoramas religiosos de muitas periferias do mundo urbano. Há gente que mescla experiências religiosas, mesmo se afirmando como católica/evangélica, por exemplo; gente que possui uma crença mais pessoal, sem a tutela das instituições. Tudo isso é bem plural e dinâmico e tem nas periferias um caldeirão mais pulsante para encontros.

 

PeM – E nas periferias de São Paulo, há uma homogeneidade, com presença maciça de igrejas católicas e evangélicas, ou é mais heterogêneo do que a gente imagina?

Daniel Souza – Não é possível traçar um panorama único dessas periferias, porque são realidades diferentes, com complexidades variadas. Se pensarmos nas representações religiosas, é evidente que há uma presença hegemônica da igreja católica e de muitas igrejas pentecostais, mas há também muitos terreiros de candomblé e de umbanda. Nas periferias, principalmente, as comunidades religiosas são espaços fundamentais de empoderamento das pessoas, de construção social, de resistência e de autonomia. No Brasil, em relação às juventudes, as comunidades de fé são os maiores lugares de articulação e sociabilidade, mais que em partidos políticos ou sindicatos, segundo a Unesco.

Daniel Marinho – Além disso, em um esboço rápido ante as periferias, notamos que os dados quantitativos não conseguem abarcar todo o movimento presente nesses contextos. O que nos interessa, mais que os lugares institucionais e os discursos oficiais, são os trajetos realizados pelas pessoas, na junção de experiências de fé, na desconstrução de falas de referência (como nos métodos contraceptivos). Tem muita coisa acontecendo nas “quebradas” para além das oficialidades. Arrisco dizer que, mesmo em espaços mais institucionais, como na Igreja Católica, há exemplos significativos de novidades no modo como as pessoas lidam com a religião. Lembro-me de uma comunidade católica na Brasilândia, que tem a liderança de uma freira. A Igreja é lugar da associação de moradores, de cursinhos para a comunidade, de encontro e ajuda, de debates políticos. É aquela famosa frase que se encaixa nos contextos de muitas periferias: espaços de “muita missa e pouco padre”.

 

PeM – E como vocês veem a relação entre os praticantes de diferentes credos nas periferias urbanas?

Daniel Marinho – As relações construídas entre as pessoas se dão em espaços bem particulares, em interações que não podem ser enquadradas em um padrão definido. Há casos de um “ecumenismo cotidiano”, numa irmandade construída nas periferias a partir das realidades locais, como o exemplo do extermínio da juventude negra, em situações limites como essas, as pessoas de distintas confissões de fé se articulam e resignificam discursos oficiais. Como também em momentos de celebração e festa das comunidades. Acredito que esse ecumenismo é uma marca bem presente. No entanto, também há casos de violação de direitos, como a intolerância religiosa, especialmente em relação às religiões de matriz africana.

 

PeM – Para vocês, o que implica ser praticante de uma religião minoritária ou não ter religião em uma região periférica, social e geograficamente falando?

Daniel Marinho – Significa estar ainda mais na periferia, como se fosse “a periferia da periferia”. Já que pouco se houve ou e fala sobre os direitos relacionados às crenças para além do cristianismo. Como consequência direta, há uma pouca divulgação dos meios para denúncia de violações do direito à liberdade religiosa. Isso fica evidente, por exemplo, com a forte presença das igrejas evangélicas em rádios e TVs e a pouca presença das religiões minoritárias. Nisso tudo mora um grande e antigo inimigo que precisa ser identificado: a concentração dos meios de comunicação em poucas mãos. Esse cenário precisa mudar. Sabemos que grande parte dos preconceitos e estigmas possuem raízes na colonização, no racismo e desigualdade econômica, basta ver quais religiões sofrem intolerâncias, as de matriz africana. Toda a periferia/minoria precisa ter voz para que, de fato, vivamos num lugar comum, plural.

 

PeM – Como a articulação de diferentes grupos religiosos pode contribuir para transformar a realidade social vivida por quem está nas periferias urbanas?

Daniel Souza – Nos momentos em que há uma ausência do Estado em Políticas efetivas aos que estão nas periferias; e que o Mercado os vai expulsando sempre para além da margem, surge a possibilidade de uma união em torno do sofrimento e da celebração. Nesta união articulada pelos mesmos sentimentos de abandono por parte do Estado e de injustiça por parte de Mercado juntam-se os que creem num outro mundo possível, potencializando lutas e focando transformações. Contudo ainda vemos que este não é um cenário oficializado, onde as religiões tendem a uma centralização e olhar para dentro de si mesmas. Mas ações vão sendo construídas a partir de um “ecumenismo do chão”, em que pessoas se encontram, se articulam. Este é o desafio maior de nós que acreditamos neste potencial, mostrar que é na união e diálogo que se vence a luta.

PRÓXIMO TEXTO: As periferias de São Paulo abrigam a maior parte dos evangélicos, ao mesmo tempo em que é o território mais ocupado por pessoas sem religião. Por que isso ocorre? Confira no artigo de Marcos Nicolini, que estuda esse fenômeno.

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