Foto: Thiago Borges / Periferia em Movimento

Mulheres, periferias e as circunstâncias

(texto e fotos)

Enquanto centenas milhares de pessoas marchavam de verde e amarelo na avenida Paulista – algumas delas pedindo impeachment ou intervenção militar com xingamentos misóginos à Presidenta da República –, a 30 quilômetros dali um grupo de mulheres moradoras de periferias passou a tarde de domingo (15 de março) debatendo sua condição na sociedade.

Pela ótica não-ideal desse jornalista homem, branco e cisgênero, o Periferia em Movimento acompanhou essas discussões durante a sétima edição do festival Esquema Noise Underground, que acontece desde 2013 no Espaço Cultural Humbalada, Grajaú (Extremo Sul de São Paulo).

“Ser mulher na periferia implica a batalha do dia a dia contra a violência, nos espaços públicos precários aos quais confiamos nossos filhos, na travessia da cidade para trabalhar ou buscar lazer”, opina Lili Souza, do 1º Andar Studio, que organiza o festival Esquema Noise Underground.

A atividade reuniu militantes, atrizes, empreendedoras e MCs. “Escolhemos falar do assunto por estarmos no mês da mulher e dada a conjuntura atual, quando muitos grupos de mulheres se organizam na região”, explica Lili.

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O coletivo Mulheres na Luta, criado por jovens da região, representa essa nova geração de ativistas.

“Mas a mulher periférica não precisa fazer parte de um movimento porque já exerce essa luta no transporte público precário, na falta de creche pra deixar o filho”, aponta Aline Maria Spaka, integrante do coletivo.

A luta dessa nova geração se conecta com a longa jornada de mulheres pioneiras, como Maria Vilani, professora de filosofia e escritora que vive há mais de 40 anos no Grajaú.

“Vi muitas escolas e creches aqui serem construídas por conta da luta das mulheres enquanto os maridos estavam nas fábricas. Aliás, nem tinha como elas saírem pra trabalhar porque não tinha com quem deixar os filhos”, lembra Vilani, fundadora do Centro de Arte e Promoção Social (CAPS) e frequentadora da Associação de Mulheres do Grajaú.

“O que diferencia ser mulher no centro ou na periferia são as circunstâncias. Quem tem dinheiro no bolso enfrenta outros tipos de dificuldades, enquanto quem não tem dinheiro enfrenta todos os tipos de dificuldades. Quem tá na periferia está mais exposto”, continua.

Para a rapper Tati Botelho, que se apresentou no festival, é preciso desconstruir o machismo enraizado no cotidiano para diminuir essa exposição. “Existe a questão da opressão de gênero que precisa ser falada no rap, desde a construção do modelo educacional até os casos mais explícitos no dia a dia”, ressalta.

Essa opressão se quantifica com a morte de uma brasileira a cada duas horas, em decorrência da violência dentro ou fora de casa. Quando se faz o recorte pela cor da pele, a situação é ainda mais alarmante: 60% das mulheres assassinadas no Brasil entre 2001 e 2011 eram negras.

Como forma de resistência e afirmação a esse genocídio, a coordenadora pedagógica Daniela Oliveira transformou sua paixão por turbantes em instrumento do que ela chama de “ativismo estético” com a criação da marca Sou Dandara. “Criei a marca pensando na valorização da mulher negra e periférica e na sua luta por direitos e expressão de sua ancestralidade”, explica.

A rapper Luana Hansen sempre sofreu discriminação por diferentes razões, inclusive no hip hop. Mulher, negra, periférica, lésbica e militante em todas essas frentes ao mesmo tempo, ela assume papéis que vão além de interpretar as músicas no palco. Gosta de tocar, produzir e muitas vezes isso foi mal interpretado.

“Foram 14 anos de caminhada pra chegar até aqui”, diz ela, que fala sobre o direito ao aborto, contra a cultura do estupro, violência e marginalização em suas letras.

Em “Flor de Mulher”, Luana relembra a morte de Claudia Ferreira da Silva, que completou um ano nesta segunda-feira (16 de março). Ouça abaixo.

Há um ano, Claudia morreu após ser baleada por PMs do Rio de Janeiro quando ia comprar o café da manhã de seus filhos. Jogado no porta-malas do camburão, seu corpo caiu no asfalto e foi arrastado por mais de um quilômetro. Os policiais envolvidos no caso continuam soltos.

Infelizmente não houve protestos ruidosos com vuvuzelas e carros de som – como o da avenida Paulista – por conta da morte dessa mulher negra e favelada, o que demonstra a necessidade de continuarmos debatendo sobre essas questões verdadeiramente prioritárias. Claudia se faz presente.

 

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