“Mulheres em Série”: seriado na web traz protagonistas “fora dos padrões” Negras, lésbicas, gordas, transgêneros: personagens ainda raras nas obras audiovisuais brasileiras, especialmente nas telenovelas. Assista o primeiro episódio de websérie que quebra estereótipos

Lançada há três meses em um canal no Youtube, o seriado independente “Mulheres em Série” quebra estereótipos e desafia o público a desmistificar a figura de “mulher padrão” ao contar as desventuras e vitórias de quatro personagens que escancaram a realidade espinhosa de milhares de mulheres brasileiras em pleno século 21.

Produzida pela Criarte Produção e Cultura, a série em seis episódios tem o grupo “Clarianas” de Taboão da Serra na trilha sonora e locações no CEU Casablanca, no Jardim São Luís.

Também se destaca como a primeira obra audiovisual brasileira a abordar a discussão de gêneros com a utilização de um elenco inclusivo, que coloca seus atores nos papéis que desempenham no universo real. E transpõe os limites da ficção ao propor depoimentos reais no final de cada episódio.

Em parceria com a Criarte, o Periferia em Movimento vai exibir um episódio por semana de “Mulheres em Série”. Confira o primeiro deles abaixo. Clique aqui para ver todos em sequência.

Contra a normatização

O próprio título da série surge como uma provocação. Segundo a diretora Maitê Sanchez, a escolha do nome é uma clara ironia à produção de peças como acontece nas fábricas. “É uma crítica à padronização da figura feminina que vemos no cinema comercial, na TV e na publicidade, e que cria modelos ideais de comportamento e estética, prisões psicológicas que só permitem a perpetuação do preconceito e da exclusão”, diz ela.

“A opção da série é mais uma afirmação do nosso papel de fugir à normatização do universo feminino e especialmente do transexual. Embora seja ficção, as histórias são reais”, completa Renata Freire, produtora executiva.

Uma delas é Letícia, mulher trans e negra, que decide ser mãe e é “assombrada” pelos fantasmas da discriminação e do julgamento público. Ao lado do namorado Domênico – também trans – ela irá compartilhar com o público os desafios reais que enfrenta durante o processo de transição pelo qual tantos transexuais passam atualmente.

O casal recebe uma atenção especial na série, por representar um dos grandes tabus da nossa sociedade ainda hoje. Além de trazer à tona questões importantes como os efeitos colaterais do tratamento hormonal, a personagem desempenha papel fundamental na história de outras mulheres, como Nathalia, uma garota homossexual e rebelde que se refugia nas drogas.

O protagonismo das mulheres em uma sociedade ainda sexista também se apresenta por meio da personagem Claudia, uma jornalista que ousa denunciar abusos semelhantes aos que ela mesma sofreu em um relacionamento doentio, e que acaba, por isso, batendo muitas vezes de frente com seu editor.

Outra personagem que ganha destaque entre tantas histórias complexas é Rebeca, uma modelo plus size explorada pelo namorado em shows sensuais via webcam, vítima de agressões físicas e verbais que tenta esconder a todo custo de seus amigos e conhecidos.

Realidade

A urgência de incluir esses temas na agenda social e política brasileira se revela em números estatísticos que comprovam as limitações das conquistas da mulher nos últimos anos.

Apesar dos 82 anos da conquista do voto de um lado, por outro lado apenas 10% das cadeiras da Câmara de Deputados são ocupadas por mulheres.

Outro dado alarmante refere-se ao abuso e à violência sexual: a cada dois minutos, cinco mulheres são agredidas no Brasil, segundo pesquisa da Fundação Perseu Abramo (nem todas apresentam denúncia em delegacias e boa parte das que faz isso acaba retirando a queixa).

Sendo assim, Mulheres em Série opta por distanciar-se de uma visão hollywoodiana, que cria heróis, e aposta na identificação do público por meio da humanidade das personagens, tratando-as em seus conflitos, incertezas e erros, sem deixar de lado suas conquistas e sonhos.