Mulher negra periférica resiste pela cultura

Fotos Mulheres na Luta

Elas já abortaram para livrar os filhos da escravidão. Sem destino após a abolição, continuaram lutando para colocar comida em casa. Do julgo imposto ainda em território africano ao Brasil contemporâneo, as mulheres negras continuam resistindo neste canto do mundo.

No último dia 25 de julho, celebrou-se o Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, instituído em 1992 durante encontro de mulheres afrodescendentes de todo o continente em São Domingo, na República Dominicana. Em 2014, a presidenta Dilma Rousseff sancionou a lei que estabelece oficialmente no Brasil essa data como o Dia da Mulher Negra e de Tereza de Benguela, que por duas décadas foi rainha de um quilombo em Mato Grosso até a queda em 1770.

Nessa data, em Colônia Paulista, periferia no Extremo Sul de São Paulo, outras tantas mulheres negras se reuniram no evento Abayomi Aba sem muitos motivos para comemorar.

“Ter o dia não muda nada, só temos um momento para refletir sobre nossa condição”, diz a rapper Sharylaine, 45 anos, uma das pioneiras do hip hop brasileiro e militante da frente nacional de mulheres no movimento.

“A luta da mulher negra começa na travessia do Atlântico tentando sobreviver e manter vivos seus filhos, mesmo quando depois os deixava para amamentar os filhos brancos do senhor de engenho”, continua.

Cinco séculos depois, a mulher negra continua na base da pirâmide social brasileira.

Além de sofrer dupla discriminação pelo gênero e cor, essa condição torna a afrobrasileira ainda mais vulnerável por uma questão de classe. Segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), elas ganham em média 40% menos que os homens brancos com a mesma qualificação.

O acesso à saúde também é precário: 80% dos atendimentos a negros no País se dão pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e 46,3% das mulheres negras nunca fizeram exame de mama, contra 28,7% de mulheres brancas.

Elas também são as que mais sofrem com a violência. Mais de 60% das mulheres assassinadas no Brasil entre 2001 e 2011 eram negras. E, em 2012, seis a cada dez mulheres que sofreram o tráfico de pessoas eram afrodescendentes, segundo a Polícia Federal.

A violência não é só física: ela também é estética e psicológica.

“Temos que ser magras, loiras, de cabelo liso. Temos a publicidade trabalhando contra nossa identidade”, diz Sharylaine, que desviou de seu “caminho natural” como empregada doméstica em 1986, quando ingressou no hip hop.

Para se diferenciar dos manos, Sharylaine adotou figurino cor de rosa. Porém, apesar do caráter revolucionário do hip hop, ela enfrentou resistência no movimento. “Ninguém diz o papel que o homem deve desempenhar [no palco]. Mas a mulher tem que ser sensual, cantar certas coisas…”.

O desbravamento de Sharylaine e outras guerreiras permitiu o ingresso de mais mulheres no meio, como Tati Preta Soul, 26 anos.

Moradora de Parelheiros, Tati começou a ouvir rap ainda criança por influência de um tio. Apanhou da mãe, que quebrou o vinil dos Racionais MCs e disse que “não queria filho seu ouvindo essas músicas”. Não adiantou. Tati começou pelo break e logo começou a rimar.

“Porém, ainda hoje ser mulher dentro de um movimento que tem muito homem não é fácil. Escrevi meu rap numa oficina, mostrei para um cara e ele não queria me deixar cantar”, diz ela, que seguiu em frente e, em 2012, criou o evento Abayomi Aba com o objetivo de abrir espaço e valorizar a cultura negra em uma região de forte influência indígena e alemã.

Luana Andrade, 26 anos, também afirma sua ancestralidade pela cultura. Moradora do Campo Limpo, ela começou a cantar aos 12 anos na igreja até conhecer ritmos como o jongo e o maracatu. Hoje, é no samba que ela se encontra.

“O samba é um espaço tão machista quanto o hip hop, pois a mulher ainda é vista como passista ou a que fica na cozinha fazendo seus afazeres. É muito difícil ver uma mulher na roda de samba, mas lutamos porque sabemos que uma mulher pode tocar um pandeiro ou um tambor”, conta Luana, que já ouviu comentários sobre sua voz “inadequada” ou “falta de conhecimento”.

Se atualmente a cultura abre espaço para gerar identificação, as mulheres negras brasileiras – sobretudo das periferias – ainda têm um caminho com muitos obstáculos pela frente.

Em um antigo emprego, Tati foi usada como “referência” de como não se portar diante do público por utilizar seus cabelos crespos na forma natural. “Fui chamada de exótica. Peguei minhas coisas e fui embora”, diz ela.

Já Luana é a única professora negra, jovem e oriunda de periferia a dar aula em uma escola particular de classe média alta. “De certa forma, isso também é uma resistência”, ressalta.

Na luta por transformação, Sharylaine conclama a participação de todos e destaca o papel da mulher negra nesse processo. “O papel da mulher é aquele que ela quiser”, conclui.

 

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