Moradores deixam ocupação no Grajaú, mas seguem lutando por teto Enquanto o País tentava dormir após mais um escândalo envolvendo Temer e Aécio, moradores da ocupação iniciavam uma vigília que duraria a noite inteira. Afinal, na manhã seguinte aconteceria a reintegração de posse do terreno

Quarta-feira, 17 de maio de 2017.

Enquanto o País tentava dormir após as notícias de gravações comprometedoras do presidente Michel Temer autorizando a compra do silêncio do ex-deputado Eduardo Cunha e do senador Aécio Neves falando em “matar” delatores, às 22h moradores e moradoras da ocupação do Aristocrata iniciavam uma vigília que duraria a noite inteira.

A apreensão se deu porque nesta quinta-feira (18 de abril) acontece reintegração de posse do terreno, conforme determinação judicial. Mas até as 10h da manhã deste dia o oficial de justiça não havia chegado. Enquanto isso, moradores desmontam os barracos e carregam o que podem. A saída é pacífica, mas o movimento promete seguir na luta.

Quatro anos de ocupação

Localizada no Grajaú, Extremo Sul de São Paulo, a ocupação por moradia Povo Unido Para Vencer está em um terreno da Secretaria Municipal do Verde e Meio Ambiente (SVMA) onde já funcionou o antigo clube Aristocrata. Sufocadas pela especulação imobiliária que vem dos centros às periferias, 250 famílias ocuparam o terreno em julho de 2013.

Como mostramos nessa reportagem, logo após o início do mandato de João Doria, a ocupação recebeu o pedido de reintegração de posse da Subprefeitura Capela do Socorro para o dia 9 de fevereiro. Na ocasião, os moradores resistiram conseguiram fechar um acordo de mais 60 dias de negociação com a Secretaria Municipal de Habitação (Sehab) enquanto a Prefeitura buscaria alternativas para garantir um teto às famílias.

Depois desse período, o novo projeto de moradia para as famílias ocupadas ainda não passou de um mero acordo. Por isso, no dia 28 de abril, quando milhões de pessoas aderiram à Greve Geral Brasil afora, os moradores da ocupação do Aristocrata ocuparam uma nova área, nas proximidades da Universidade Ibirapuera da avenida Interlagos, Zona Sul de São Paulo. Cerca de 50 famílias já estão no local.

A nova ocupação acontece em um terreno que é particular, de posse da Empresa Savoy (Imobiliária e Construtora), e estava com IPTU atrasado, além de estar em uma ZEIS (Zona Especial de Interesse Social). Segundo os moradores, o mato estava alto e os portões estavam inclusive sem trancas, o que revelaria o estado de abandono.

Enquanto isso, no terreno do Grajaú, das 250 famílias que moravam na ocupação, algumas se encaminharam para morar de favor em casas de parentes, pressionadas pelo risco de perder tudo.

Na semana passada, a Sehab respondeu em nota ao Periferia em Movimento que “foi acordado em assembleia dos moradores e homologado perante juiz que estes sairiam voluntariamente da área em um prazo de 60 dias, sendo que a Prefeitura cadastraria as famílias e verificaria as situações de maior vulnerabilidade e discutiria alternativas habitacionais de médio e longo prazo para as famílias. Não havia acordo de pagamento de auxílio aluguel. A PMSP realizou o cadastro, indicou as famílias para a entidade que vem licenciando um projeto habitacional na região e estudou a viabilidade técnica de alguns terrenos apresentados pelos moradores como opção para iniciar um projeto habitacional via Programa MCMV-Entidades. Como resultado destas ações, até o momento cerca de 140 famílias deixaram o local pacificamente”.

Resistência

A única resposta que a Sehab dá aos moradores continua sendo a inscrição no cadastro municipal. Entrar na fila e esperar para ver se algum dia serão contemplados. “O cadastro dos moradores por parte do poder público nas reintegrações de posse busca compor a lista de demanda oficial do município e analisar os casos de maior vulnerabilidade”, diz a Sehab, em nota.

Os moradores seguem resistindo. A luta continua.

“João Doria é um safado. Quando ele veio no Grajaú [no dia 25 de fevereiro de 2017, durante ação do Programa Cidade Linda], prometeu que ia fazer uma reunião com a gente. Cadê?”, questiona Bruno, que viveu seus 33 anos no Jardim Lucélia. “Por isso que eu sou anarquista. Eu não voto em ninguém. Meu finado avô me ensinou que você vota num dia e, no outro, eles te roubam”.