Reportagem de Camila Lima. Fotos por Amanda Rodrigues

Edição de texto: Thiago Borges

“De que adianta abrir as portas deste espaço, quando mesmo com todo dinheiro e recurso você prefere não garantir a permanência desses corpos pretos periféricos e marginalizados? Hoje, [usar] camisetas amarradas no rosto é como um escudo pra se proteger do que eles mais querem”.

Mile prepara modelo nos bastidores do desfile (Foto: Amanda Rodrigues)

Com essa fala, a diretora criativa Milena do Nascimento Lima fechou o desfile de sua marca Mile Lab na 52ª São Paulo Fashion Week (SPFW), a semana de moda da capital paulista, no último sábado (20/11). A data é marcada pelo Dia Nacional da Consciência Negra, importante para a luta do povo preto no Brasil, e foi escolhida por grifes criadas por pessoas negras para se apresentarem na passarela.

Ativamente conectada com seu território, o Grajaú (no Extremo Sul de São Paulo), a Mile Lab é uma das 8 marcas contempladas pelo projeto Sankofa. A iniciativa da SPFW prevê mentoria e suporte por 3 anos a negócios de pessoas negras no mercado da moda.  

Mile trouxe para a passarela o inesperado e irreverente aos olhos de quem está acostumado com modelos de passos milimetricamente ensaiados e no padrão branco, magro e alto – o que remete a manequins das vitrines de lojas. 

“Deixe que nós contemos nossa história (…) Minha moda não é só mais uma, meu conceito é de rua e isso vocês não vão entender. São os favelados, se acostuma”, bradou o multiartista Bruno Luan, integrante da equipe, durante a abertura. “Não mudo minha postura. Estou aqui para mostrar o que vocês queriam esconder”.

A marca Mile Lab transformou a passarela num baile de favela. No telão, uma mulher com rosto coberto inicia um “passinho” enquanto modelos tomam o espaço ao ritmo do funk.

Roupas em cores neutras de preto e branco, peças curtas e coladas aos corpos de tamanhos e formas diversas dos modelos que ali dançavam e arcavam o estilo do bailão. Panos brancos que ancestrais usavam para a proteção de suas peles entram como adereço repaginado. 

Cabelos crespos valorizados, soltos, trançados, além de apliques. Ao invés de joias, anéis e colares como adorno e complemento dos looks, Mile trouxe pipas gigantes da loja Miltão Pipas (que fica no Grajaú) grafitados por Cauã Bertoldo (também da região), remetendo aos espaços periféricos que dão origem à marca. Os óculos de lentes espelhadas também estavam presentes. E para as câmeras e plateia, punhos cerrados e muito afronte.

O desfile-protesto foi aplaudido de pé pelo público, composto por pessoas brancas e negras. Mas alguns empresários e potenciais investidores brancos sentados na primeira fileira passaram os quase 20 minutos entretidos no celular, com a recomendação dada a assistentes de avisarem se vissem “algo interessante”.

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Por trás das cortinas

Com tudo perfeitamente apresentado, mal se imagina o clima de bastidores. Sem glamour. Na preparação de modelos, há sempre uma correria para a prova das roupas e seus ajustes finais, maquiagem e cabelo de todo o elenco. 

Assim foi também com a equipe da Mile Lab, mas com um diferencial: o clima de exaltação da beleza periférica. Uma mini caixa de som tocava funk e, a cada modelo pronto, surgia uma roda onde a pessoa ia para o centro. Além de profissionais das passarelas, a equipe da marca periférica é composta por poetas, dançarinos e artistas de diferentes linguagens.

“Nosso corpo é político, e quando estamos falando da indústria da moda que não nos representa, estar aqui hoje é revolucionário”, ressalta Gabriela Gomes Bazilio, que também é moradora do Grajaú e idealizadora da marca Mocamba Ateliê. “Mostramos para eles o nosso lugar de importância, nossos corpos importam , nossas vidas importam, e o quão rico a gente é”, continua ela, que foi prestigiar o desfile da Mile Lab.

Para o rapper Caique Badrani, esse foi o ponta pé de muito que ainda está por acontecer. “Estamos hoje ocupando um espaço que na verdade sempre deveria ser nosso. Eles não estão cedendo nada. Estamos na verdade pegando uma fatia do bolo”, diz.

Presença

Para Ícaro Silva, ator e modelo, essa ocupação da SPFW por marcas não brancas é muito rica por não “mimetizar” o padrão europeu. “A grande importância de termos corpos pretos e não brancos na SPFW, que é tradicionalmente um espaço elitista, é trazer a pluralidade do Brasil para a cena. É trazer de fato a nossa história brasileira”, diz ele, que participou de um dos desfiles do projeto Sankofa.

Ícaro Silva em entrevista à Periferia em Movimento (Foto: Amanda Rodrigues)

Familiar da intelectual e feminista negra Lélia González, homenageada por uma das marcas contempladas pelo projeto, Melina de Lima destaca que o desfile foi muito potente. “Hoje é um dia de celebração do orgulho negro. Estamos ocupando um espaço. Ainda tá longe do ideal, mas ainda assim é uma vitória. O desfile de hoje foi muito emocionante, corpos pretos ocupando espaços, desfilando e também assistindo”, destaca.

É inegável essa presença negra em diferentes espaços do evento. Após os desfiles, o público podia interagir com obras na parte térrea do espaço que falavam da importância do mês da Consciência Negra. Uma intervenção reproduzia imagens em terceira dimensão  de uma plantação e de sementes, trazendo a sensação de estar flutuando e participando de uma colheita. 

Outra obra mostrava um filme com uma mulher preta apresentando sua invisibilidade por meio de movimentos do corpo. Ao atravessar a cortina de elástico, o público precisava fazer força para conseguir passar. Do outro lado, se deparava com o mesmo vídeo sendo reproduzido, porém com cores, provocando à pergunta: o que você quer enxergar?

E nós, o que decidimos  enxergar nessa semana de moda com marcas pretas fazendo os seus protestos e ocupando espaços brancos e elitizados?

Isso se evidencia no caso de uma profissional negra ouvida pela reportagem. Após muitas dificuldades para conseguir trabalhos na área, ela foi contratada como modelo por uma agência. Porém, não entrou na passarela da SPFW e foi realocada para outra função, sem a mesma visibilidade. 

E aqui, o manifesto de Mile Lab ecoa novamente: afinal, neste espaço de glamour, poder e dinheiro, o quanto o corpo preto é de fato valorizado? Pessoas negras exigem respeito e representatividade. 

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